A arte de iluminar

Data de publicação: 31/08/2018


A arte de iluminar

O termo iluminura vem do verbo latino illuminare e quer dizer “tornar claro, realçar, evidenciar”. Identifica a decoração artesanal de textos manuscritos do Ocidente que começou na Idade Antiga e teve seu auge por volta do século 15, declinando lentamente a partir do século 16, com a invenção da imprensa.
A primeira finalidade dessa arte, desenvolvida pelos profissionais iluminadores, foi ressaltar em imagens as principais ideias de um texto escrito. Estas, que eram amplas nos códices antigos, mais tarde deram lugar às miniaturas. Por volta do século 7º, na Europa, as bibliotecas dos mosteiros possuíam seu officium, versão latina do grego grafeio, a oficina onde se produziam os keirográfon, manuscritos, em grego. Os artesãos trabalhavam em equipe, criando ou reproduzindo obras religiosas, filosóficas, científicas e literárias.
Os monges amanuenses, em latim clericis, desenhavam pacientemente as letras sobre o pergaminho e, trabalhando por cerca de seis horas, produziam em média duas páginas por dia. Passavam os textos prontos para as mãos dos illuminatoribus, que tinham a tarefa de ressaltar as ideias ou passagens principais. A falta de espaço na página para a livre criação favoreceu a arte da miniatura, pintada a ouro e tintais naturais de cores vivas. A cena principal era, muitas vezes, encerrada na primeira letra do texto, a prima litterae, era a “obra prima” da iluminação, hoje conhecida por letra capitular. O outro espaço disponível para os pincéis dos desenhistas era a margem do texto, na qual belas molduras coloridas, com motivos florais ou geométricos ressaltavam os parágrafos de maior importância.
A iluminura foi aprimorada a ponto de fazer de cada códice ou livro uma joia única de valor incalculável, não apenas pela arte e a beleza inéditas de cada uma, como também pelo tempo a ela dedicado por homens de grande cultura e talento. Os monges iluminadores e amanuenses, não raro, sofriam dores atrozes nas articulações, devido aos mesmos movimentos repetidos todos os dias, e tinham a visão prejudicada pelo trabalho minucioso e o ambiente interno de penumbra das grandes construções medievais. 

Linguagens da comunicação
O principal intuito da arte de iluminação foi comunicar mensagens importantes. Aliada aos códigos abstratos da escrita, a imagem materializava ideias que deviam ser transmitidas. A complementação das duas linguagens vem de técnicas remotas. Fragmentos de papiros do Médio Império egípcio, datados de cerca de 4 mil e 500 anos, comprovam a prática de expor ideias religiosas por meio de escrita e imagem. As ilustrações, postas em sequências, ao alto do texto ou em posição vertical, separavam e harmonizavam os blocos das narrativas escritas.
No mundo cultural grego, o mais antigo pergaminho de couro ilustrado, hoje conhecido, data do século 5º. Provavelmente escrito em Alexandria, no Egito, reproduz a Ilíada, de Homero. Na Europa medieval, diferentes estilos de iluminura se desenvolveram nos mosteiros de diversos países e podem ser reconhecidos em originais ainda preservados. A escola irlandesa produziu o Evangelho de Kells, no século 8º, a obra está exposta na biblioteca do Trinity College, em Dublin (Irlanda). A Bíblia do rei português dom Manoel II, produzida em Florença (Itália), no século 15, esteve até o século 19 no Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa (Portugal), sendo depois recolhida ao arquivo nacional português. A Bíblia de Gutenberg, do século 15, o primeiro livro impresso no Ocidente, foi iluminada a mão.


Fonte: Dialogo 76 Outubro/Dezembro de 2014
Postado por: Diálogo




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