Flores da terra seca

Data de publicação: 14/09/2018


Há um século, abateu-se sobre o sertão do Ceará uma das maiores tragédias climáticas registradas no Brasil, a violenta seca de 1915. O romance O quinze, de Raquel de Queiroz, publicado em Fortaleza (CE), em 1930, inaugurou o estilo literário social, ao descortinar o cenário sertanejo, virado em um grande campo de cinzas,  onde resistiram, quais flores do deserto, pessoas que nem a proximidade diária da morte mais cruel despojou da capacidade de grandes gestos humanitários. 

O romance humanista
O estudo interdisciplinar de História, Geografia, Literatura e Ensino Religioso pode orientar os estudantes a encontrarem nas obras literárias sinais de valores humanos e religiosos, como os sentimentos e gestos nobres e heroicos dos humildes personagens de O quinze.
O vaqueiro Chico Bento foi convidado a “caçar rumo”, quando a proprietária do gado que cuidava dispensou seus serviços na fazenda. Arrasta-se agora, entre o sol e a poeira, com a esposa e cinco filhos pequenos, na esperança de alcançar o Amazonas e trabalhar nos seringais. Pelas 11 horas da manhã, encontra na beira da estrada outros retirantes que estão prestes a comer a carne podre de um animal morto.   
“Chico Bento cuspiu longe, enojado:
– E vosmecês têm coragem de comer isso? Me ripuna só de olhar!
O outro explicou calmamente:
– Faz dois dias que a gente não bota um de-comer de panela na boca...
Chico Bento alargou os braços, num grande gesto de fraternidade:
– Por isso, não! Aí nas cargas eu tenho um resto de criação salgada que dá para nós. Rebolem essa porqueira pros urubus, que já é deles. Eu vou lá, deixar um cristão comer bicho podre, tendo um bocado no meu surrão!” (O quinze, nº.7 ).
Muitos dias depois, Chico Bento e a família, já reduzida pela morte no caminho, encontram-se em um dos campos de concentração construídos pelo governo do Ceará para evitar que os flagelados do sertão invadissem as cidades. Doações do governo e de pessoas particulares eram distribuídas aos acampados.
“Uma velha arranchada perto chegou com uma tigela de café. Era serviçal e boa. Protegida por uma das senhoras, sempre tinha regalias: café, açúcar, pão, que repartia com os vizinhos. Ofereceu o café ao vaqueiro: ‘Um golezinho, seu Chico?’ . Ele tomou a vasilha e, com a mão parada no ar, ficou um instante fitando a velhinha à sua frente” (O quinze, nº.20). 

A autora
Raquel de Queiroz (1910-2003) foi jornalista, romancista, cronista, autora de peças para teatro e televisão, tradutora de autores sociais e humanistas clássicos como Dostoiévski e Tolstói. Recebeu os mais importantes prêmios de literatura brasileira, em sua trajetória iniciada aos 20 anos de idade, com O quinze, a obra que mais a tornou conhecida. O humanismo realista com que retratou tragédias como a seca no Nordeste e, ao mesmo tempo, a dignidade e a grandeza humana de seus protagonistas, deu-lhe a missão de representar o Brasil na Comissão de Direitos Humanos da 21ª Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), em 1966. Foi a primeira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras, em 1977.

Saiba mais sobre a seca
Livros
Campos de concentração no Ceará – Isolamento e poder na seca de 1932, Kênia Rios, publicado pelo Museu do Ceará em 2001 – Obra de referência sobre o assunto, traz análises e detalhes muito bem documentados.
Vida e morte no sertão, Marco Antonio Villa, publicado pela Editora Ática em 2000 – Retrata as secas nordestinas desde o século 19 e como as vítimas foram tratadas pelo governo.
O Quinze, Rachel de Queiroz, teve a primeira edição sob a responsabilidade da autora, em 1930, e as sucessivas reedições pela Editora José Olympio.


Obras de Paulinas Editora sobre o assunto

A busca de Esmeraldo
Texto: Ilan Brenman
Ilustrações: Fernando Vilela
Coleção: Re-ver
Código: 52219-8    
O garoto de dez anos de idade sai à procura de Deus porque quer contar a ele os sofrimentos que enfrenta o povo com a secura do sertão.





A Seca
Ilustrações sem texto: André Neves
Coleção: Nordestinamente
Paulinas Editora
Código: 9721-7
O autor retrata em imagens o imaginário infantil contra a dura realidade da seca no sertão nordestino. 



Trabalho interdisciplinar com obras literárias

Crescer como pessoa – Um método simples de crescimento pessoal a partir dos contos de Andersen
Miguel Angel Conesa Ferrer
Coleção: Psicologia e Educação
Paulinas Editora
Código: 09153-7
Vários contos de Andersen seguidos de exercícios e comentários que ajudam o leitor a vivenciar o próprio potencial de crescimento pessoal.







A vivência e a invenção na palavra literária
Cleide da Costa e Silva Papes
Coleção: Re-significando linguagens  
Paulinas Editora
Código: 51352-0
As ligações entre a literatura, a vida, o mundo, a arte e a imaginação convidam o leitor a resgatar a dignidade humana e a assumir com coragem o controle da própria vida. 
 
 
 

Fonte: Dialogo 77, Fevereiro/Abril de 20145
Postado por: Diálogo




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