Identidade firmada nos ancestrais

Data de publicação: 20/09/2018


                               
Por, Irene Dias de Oliveira *

Foi através da religião que os africanos e afro-brasileiros souberam imaginar maneiras de superar as limitações, vencer a dor e encontrar alento para suas feridas e seus corpos subjugados, estigmatizados, domesticados, ridicularizados e feitos alvos fáceis de desprezo. Assim, venceram o caos a que suas vidas foram submetidas.

Axé: força sagrada dos orixás
Negros e negras acharam força nas religiões dos ancestrais e foram capazes de ressignificar suas cantigas e rodas de samba; de reinventar seus espaços de oração e lá reencontrar seus ancestrais. Recriaram as comidas da África e reconstruíram suas identidades fragmentadas, fazendo da nova terra um espaço inteligível e funcional. Desse modo a cultura e a religião, com seus sistemas simbólicos, permitiram a elaboração de um mapa sociocultural que define campos de significações e demarca identidades.
A religiosidade africana é amplamente inclusiva, não tem dogmas, destaca-se pelo respeito às diferenças e é permeável a qualquer dimensão humana que a enriqueça. Assim, destaca a coerência lógica dos saberes filosóficos, religiosos, artísticos e científicos existentes. Com uma cosmovisão centrada na força da vida, o africano vê todos os elementos, animados e inanimados, impregnados de uma força vital, o axé, na língua ioruba, que promove a ação, é fonte de poder e eficácia e permeia o acontecer e o devir. O axé está presente nos seres vivos e nas substâncias essenciais de cada ser, é energia, princípio de vida e força sagrada dos orixás; é bênção, cumprimento e voto de boa sorte; enfim, é poder.  Mas qual é a fonte e a origem do axé?

Deus e seus intermediários
Olorum/Deus recebe, tanto nomes quanto as formas e as maneiras com as quais é apreendido pelos grupos étnicos: é o Altíssimo, aquele que está distante, mas, ao mesmo tempo, é o Criador, aquele que faz, que dá origem. A crença no Deus único e pessoal é unânime, a variedade está nos nomes, matizes e atributos. A ideia de Deus é mais percebida, sentida e vivida do que analisada, refletida e conceituada. Deus é tão grande que não cabe aos africanos questioná-lo e se dirigir a ele; Deus é tão importante que não pode ser importunado pelas pessoas. Para os africanos, , segundo Raul Ruiz de Asúa Altuna,  “conserva sua transcendência sobre todos os seres inferiores criados. Não se conhecem deuses inferiores e jamais a magia imaginou, sequer, que podia manipular Deus” (p. 391).
Sabemos que o cristianismo e o islamismo influenciaram os conceitos e imagens religiosas dos africanos, mas não se pode negar que a ideia de um Deus único é anterior a essas religiões. Como Deus é essencialmente espiritual, os africanos não gostam de representá-lo por imagens. Creem que ele é bom e é incapaz de causar o mal; Deus é Pai e Mãe, que concede sua energia vital, o axé, a seus intermediários, os antepassados. Deus presenteou o universo com a harmonia vital que se manifesta pelas leis de participação. E ele, por ser a vida, faz-se presente no universo e comunica sua vida aos seres humanos. Para Altuna, “cada homem , ao nascer, uma força vital que é o poder de adequar um instrumento, por exemplo, para apoderar-se de outros seres vivos. Essa energia cresce quando a pessoa mantém contato permanente com o Ser Supremo. As forças vitais são, na sua essência, manifestações de uma só realidade fundamental: o universo, rede de forças diferentes, porém complementares, é expressão das virtualidades encerradas em Deus” (p. 399).

Como Deus é tão transcendente, os intermediários se fazem necessários. Uma das características da cultura africana e que irá permear a cultura afro-brasileira é a mediação que fundamenta a relação.  Assim como os antepassados são intermediários para se chegar a Deus, do mesmo modo o filho só fala com o pai através da mãe ou através dos mais velhos. Na religião tradicional africana, o antepassado, como intermediário, ocupa um lugar privilegiado. Tocar em um antepassado é tocar em todo o sistema simbólico e no imaginário religioso do povo africano. Isso ocorre porque toda a estrutura social está ligada ao princípio da comunidade. Crer em Deus é crer na força da comunidade, é acreditar que nela circula a seiva vital. Segundo Altuna, Deus transmite a vida e a concretiza na comunidade, além de integrar cada ser individualmente. “Viver com intensidade a vida neste mundo, sem jamais morrer (...) é o ideal fundamental do homem” (p. 57). Isso significa que viver em comunidade não é apenas   garantia de que Deus doa a vida, através dos antepassados, mas é, também, viver esta vida em abundância e ser salvo, pois Deus é aquele que salva, mas salva comunitariamente. Por isso a comunidade não deve permitir que a seiva vital, o axé, que circula entre os seus membros, pare de fluir. É função da comunidade permitir que a vida circule, que a vida flua. A fecundidade, a paternidade e a maternidade são possíveis, porque a pessoa está em extrema harmonia com a seiva da vida que circula, em harmonia com aquele que permite a união vital entre toda a comunidade e a natureza e com todos os seres; para o , o isolamento significa a morte.
A comunidade deve viver sua vida com intensidade, sem jamais morrer, pois o antepassado, o fundador da comunidade, é o que garante a transmissão da seiva vital para cada membro da sua comunidade. Os antepassados são os mediadores imediatos que facilitam o acesso a Deus, ocupam um lugar preponderante, são homens e mulheres poderosos e importantes, mas não são deuses. São aqueles a quem Deus comunicou seu axé e o poder de exercer a influência desse axé sobre a descendência.

Conclusão
Os ancestrais constituem o elo entre a comunidade humana e Deus. Essa força vital preenche todo o cosmo e, por ela, todos os seres estão ligados à criação inteira. É aqui que se enraíza a religiosidade dos afro-brasileiros. Esquecer essa dimensão é desestruturar a realidade profunda que os plasma, os envolve, os domina e os supera. Essa concepção dá lugar a uma vida sem dicotomias, sem separações e a uma certeza de que tudo está ligado a tudo, e assim a comunidade vive a experiência da unidade e da solidariedade.
Contar e recontar a nossa história é uma ação pedagógica que favorece a autoestima e permite que nossos filhos e filhas se orgulhem de nós, de nossos antepassados(as), de nossas lutas, conquistas e resistências, através das quais as mudanças sociais estão acontecendo, novas políticas estão sendo forjadas e uma nova sociedade está sendo gestada.

* Irene Dias de Oliveira
Professora E pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Goiás; doutora em Teologia pela Pontifícia Faculdade Teológica da Itália Meridional e pós-doutora em Antropologia da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Pesquisa sobre Religião, Violência e Reconhecimento das Diferenças em Sociedades Multiculturais.
Contato: irene.fit@pucgoias.edu.br


Referências    
ALTUNA, Raul Ruiz de Asúa. Cultura Tradicional Bantu. Luanda: Secretariado Arquidiocesano de Pastoral, 1985.
LANGA, Adriano. Questões Cristãs à Religião Tradicional Africana. Braga: Editora Franciscana, 1992.
OLIVEIRA, Irene Dias de.  Identidade Negada e o Rosto Desfigurado do Povo Africano (Os Tsongas). São Paulo/Goiânia: Annablume/Universidade Católica de Goiás, 2002.

Década Internacional do Afrodescendente
Afrodescendentes: reconhecimento, justiça e desenvolvimento é o tema geral da Década Internacional do Afrodescendente, proclamada pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em dezembro de 2014, aberta no dia 1º de janeiro de 2015 e com término previsto para 31 de dezembro de 2024.
A Década tem como objetivos:
• Fortalecer a cooperação e as ações nacionais, regionais e internacionais relativas ao pleno gozo dos direitos econômicos, sociais, culturais, civis e políticos pelos afrodescendentes, bem como sua participação plena e igualitária em todos os aspectos da sociedade.
• Promover maior conhecimento e respeito aos patrimônios, culturas e contribuições dos afrodescendentes para o desenvolvimento das sociedades.
• Adotar e fortalecer marcos legais nos âmbitos nacional, regional e internacional, de acordo com a Declaração e Plano de Ação de Durban (África do Sul), e com a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, bem como garantir a sua implementação total e efetiva.
A Década Internacional do Afrodescendente permitirá que a sociedade civil e outros atores relevantes se juntem aos afrodescendentes e tomem medidas efetivas, com espírito de reconhecimento, justiça e desenvolvimento.

Fonte: Dialogo 78, Maio/Junho de 2015
Postado por: Diálogo




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