O país que teremos

Data de publicação: 20/09/2018



O conhecido slogan O país que queremos remete à justiça e à paz social, frutos do desenvolvimento e do acesso de todos à qualidade de vida. O país que teremos ainda é o sonho inédito de uma nação multicultural na qual as pessoas, de diferentes identidades e iguais direitos, conviverão no espaço da cidadania brasileira.
O Artigo 216 da Constituição Federal prevê o reconhecimento das diferenças: “Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem as formas de expressão e os modos de criar, fazer e viver”. Entre os grupos citados na Constituição, o menos visível é o dos ciganos, sempre deixados à margem, quando não expulsos, do processo social brasileiro.  

Ciganos
Dos quase 500 mil ciganos identificados no senso de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 150 mil vivem em tendas, alguns em condições difíceis, agravadas pela falta de registro civil, que os exclui dos programas sociais.
Os ciganos consideram a alfabetização estranha à cultura oral milenar, que resguardam como patrimônio identitário. Essa convicção, no entanto, cede lugar ao esforço para superar o isolamento. Não raro, um líder de uma comunidade, ao procurar a ajuda das políticas públicas voltadas para os mais necessitados, depara-se com a barreira da escrita. A sociedade de relações codificadas exige conhecimento, ao menos da escrita e da matemática, porém o temor da escola ainda é grande, entre as famílias ciganas, porque ela expõe as crianças ao preconceito, ao desprezo, à violência e às drogas. As meninas têm o agravante do risco de perda da virgindade, o que impede o casamento conforme a tradição. Por outro lado, a falta de documentos e de residência fixa ainda é uma porta fechada, o que o Ministério da Educação procura reverter, orientando as escolas sobre a inclusão da criança cigana, que deve ser avaliada e matriculada no ano correspondente à idade e em qualquer período do ano letivo.
Em 2007, teve início a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais. Iniciativas como o Dia Nacional do Cigano – 24 de maio – instituído em 2006; o Prêmio Culturas Ciganas, iniciado em 2007; e a Semana Nacional dos Povos Ciganos, em 2013, são espaços sociais e políticos onde essa parcela da população possa ser escutada e atendida em suas necessidades e direitos e valorizada na contribuição que traz ao País.
A Secretaria da Cidadania e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, em parceria com a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, coordena o Prêmio Culturas Ciganas. É uma forma de valorizar as iniciativas e reconhecer a importância das tradições ciganas na cultura brasileira. São entendidas como iniciativas culturais, as festas; música, canto e dança; idiomas e narrativas simbólicas; histórias e outras narrativas orais; educação e transmissão de conhecimentos; medicina tradicional; alimentação e coleta de recursos naturais; jogos e brincadeiras; artesanato, vestuário e joalheria; pintura, desenho, grafismo e outras formas de expressão simbólica; habitação tradicional; mapeamento e memória; teatro e histórias encenadas. A terceira edição do Prêmio Culturas Ciganas, de dezembro de 2014, brindou 76 projetos de vários estados do Brasil, com o  valor de 14 mil reais para cada um.
Um dos projetos contemplados por esse prêmio foi o Ciganos: de Retalhos e Fuxicos, da Associação de Preservação da Cultura Cigana (Apreci), de São Paulo (SP), que produz roupas, bolsas, cortinas e colchas com retalhos de tecido. Quando a líder Azimar Orlow fez a inscrição, ela pensou que não chamaria a atenção da comissão julgadora, mas, para sua surpresa, o trabalho foi um dos escolhidos. “O valor foi suficiente para comprar máquinas de costura usadas e agora é mais fácil fazer as colchas, pois o nosso trabalho estava limitado por falta de equipamento.” “O uso de retalhos e fuxicos valoriza um costume cigano em processo de esquecimento e amplia as possibilidades de subsistência”, diz com orgulho a cigana artesã.
O povo brasileiro tem o dever histórico e ético de franquear espaços de participação para os ciganos, ainda desafiados pelas dificuldades do presente e marcados pela lembrança da luta dos antepassados, que nasceram, viveram e morreram sob o signo do desprezo, da exclusão, da perseguição, do temor e da injustiça.

Carta de Brasília
Nós, representantes das comunidades ciganas, reunidos na 1ª Semana Nacional dos Povos Ciganos, em 22 de maio de 2013, durante a Conferência Livre de Cultura, apresentamos as propostas abaixo para subsidiar as políticas públicas de cultura para o segmento:
Ofertar oficinas de qualificação artística para jovens com as manifestações ciganas: músicas, dança etc.
Promover editais com inscrições para pessoas jurídicas e pessoas físicas, com certificado de veracidade emitido pelas associações.
Garantir que as produções culturais e acadêmicas que bebem na fonte da cultura cigana retornem com algum benefício para essas comunidades.
Garantir que os espaços públicos para as comunidades ciganas não sejam somente nas periferias das cidades.
Elaborar uma Carta da Ministra da Cultura a todos os municípios, ressaltando a importância da cultura cigana e o apoio a esse povo.
Inscrever a cultura cigana como Patrimônio Imaterial da Humanidade.
Auxiliar para que o Museu Cigano Itinerante se torne ponto de cultura.
Garantir cotas para as minorias étnico-culturais nos editais do Ministério da Cultura.
Garantir que representantes indicados pelas associações dos povos ciganos participem dos processos dos prêmios ou outras ações, da elaboração, das comissões, das consultorias etc.
Elaborar uma política de apoio aos artistas de rua.
Que o Ministério da Cultura busque o conhecimento, o reconhecimento e o incentivo da produção cultural dos povos ciganos em todos os seus segmentos.
Facilitar a apresentação de projetos para participar de editais através de oficinas, com consultores, agentes culturais e inscrição oral.
Identificar, nos formulários do Ministério da Cultura, se a proposta é de cultura cigana, (nos moldes das culturas africana e indígena).
Disponibilizar os produtos feitos pelos artesãos contemplados no Prêmio Culturas Ciganas e publicar o registro desses prêmios.
Emitir o certificado para os classificados no Prêmio Culturas Ciganas, em suas edições anteriores.
Aumentar o valor líquido do Premio Culturas Ciganas.
Apoiar a criação de cooperativas culturais ciganas nos estados, valorizando a produção e a venda porta a porta pela comunidade cigana, com matéria-prima de baixo custo, inclusive doada pela Receita Federal.
Facilitar a abertura de linha de crédito para os produtores e empreendedores culturais ciganos.
Que o Ministério da Cultura apoie as promoções de identidade cultural original cigana nas escolas.
(Assinado por 20 entidades ciganas do Brasil representadas no evento.)

Abordagem interdisciplinar de Ensino Religioso
Literatura: cultura e tradição oral, gênero literário, narrativa, mito, lenda.
Artes: música, dança, costura, bordado, adereços.
Eixos temáticos do Ensino Religioso:
Tradição religiosa – Originários da Índia, os ciganos conservam crenças ancestrais e professam socialmente as religiões dos países onde vivem, são: muçulmanos, cristãos ortodoxos, católicos, evangélicos, umbandistas.
Texto sagrado – As crenças religiosas ciganas são vivenciadas e transmitidas pelos costumes e ritos familiares. 
Ethos – A identidade cultural, a família, o respeito aos pais, o cuidado com os idosos e as crianças, a união dos irmãos são os mais importantes valores do povo cigano.


Fonte: Dialogo 78, Maio/Junho de 2015
Postado por: Diálogo




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