A liberdade tem rodas

Data de publicação: 01/10/2018

A liberdade tem rodas


A capoeira do Brasil, uma das mais importantes e eficazes estratégias de resistência dos africanos à violência escravista, foi incluída na lista do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, durante a última assembleia da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), sediada em Paris, na França, em novembro de 2014.
A dança marcial esportiva e artística da capoeira é uma típica expressão cultural afro-brasileira. Cultivada em todo o País e conhecida em outras 150 nações, é originária dos primeiros africanos, escravizados entre os séculos 16 e 17, e deve ter surgido nos engenhos de açúcar e nos quilombos de Pernambuco, entre os escravos urbanos de Salvador (BA). Só no começo do século 19, já difundida até o Rio de Janeiro (DF), então capital federal, a capoeira foi citada em um registro escrito, conforme consta na Relação de Presos feita pela guarda municipal e assentada no volume II do Códice 403 do Arquivo Histórico Nacional, referente aos anos de 1817-1819: “Leão Angola, escravo de José Pedro de Sousa, preso por ser encontrado em ajuntamentos de capoeiras”.
Segundo os pesquisadores, a capoeira originou-se da ressignificação de um ritual angolano chamado n’golo, palavra que, na língua kimbundu, significa “energia da zebra”. Definia uma prova de habilidade e destreza, ritmada por tambores, imposta aos jovens das aldeias Bantu, de Angola, quando iniciados na vida adulta. A palavra capoeira foi forjada pela miscigenação linguística do Brasil e vem da expressão tupi-guarani capu’era, mato roçado ou roça abandonada, coberta de vegetação baixa. Não podendo se afastarem muito da sede do engenho ou da fazenda, os guerreiros escravizados se ocultavam nesses locais, para exercitar movimentos de autodefesa frente à violência dos brancos.
Originalmente ritmada por tambores africanos sagrados, a capoeira do Brasil adotou também o berimbau, e os africanos Malês, escravizados em Salvador, passaram a acompanhar a percussão dos instrumentos com a ladainha de invocações islâmicas do nome de Deus. Com essas características ameaçadoras à sociedade estabelecida, a roda de capoeira foi perseguida e reprimida e, assim, apenas normatizando uma prática já estabelecida há séculos, o Código Penal do Império de 1830 a enquadrou como crime, com punição de 300 golpes de açoite e prisão de seis meses. Esses termos só foram revogados em 1937, quase 50 anos depois da abolição da escravatura formal.
Segundo a representante adjunta do escritório da Unesco no Brasil, Marlova Jovchelovich Noleto, a inserção da Roda de Capoeira na lista do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade reconhece a relevância de uma das manifestações mais expressivas da cultura e valoriza a influência da herança africana na história do País. Segundo Marlova, o título aumenta o grau de conscientização e propicia formas de diálogo que respeitem a diversidade cultural brasileira.

Fonte: Dialogo 78, Maio/Junho de 2015
Postado por: Diálogo




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