O renascimento na tradição budista

Data de publicação: 09/10/2018



Por, Ricardo Sasaki *

O tema da morte nos coloca diante de um mistério, de algo desconhecido. Quando e como morreremos? O que acontecerá depois? São perguntas sem respostas de uma realidade que ainda não experimentamos. Talvez a posição mais indicada seja a de conceber a morte como um momento no limiar entre o conhecido e o desconhecido.
Estar frente ao que não se conhece é sempre uma situação que causa ansiedade, e faz surgir opiniões diversas no sentido de diminuí-la. E cada teoria poderá defender uma explicação sobre o que acontecerá no futuro, a partir de suas próprias esperanças e anseios. Contudo, o presente é o único “lugar” de conhecimento real, uma vez que o futuro está para além de nosso domínio. É assim que a tradição budista se posiciona, firmando-se no momento presente, sem muitas especulações e conflitos de opiniões, pois se acredita que “o passado já se foi, o futuro ainda não veio, vivendo no presente, sabemos que este é o melhor momento”.

Reencarnação no budismo provém de um equívoco de tradução
 O que morre? E o que é a vida? São perguntas que devem ser feitas antes de qualquer coisa, pois se não definimos o que vive não saberemos o que morre então, como supor o que pode ocorrer após a morte? Partindo do pressuposto de que algo continua, surgem as divergências de opiniões neste âmbito e não só em relação ao que acontecerá.
A tradição budista não ensina a reencarnação, pois suas concepções sobre a constituição humana são bastante diferentes das concepções das religiões reencarnacionistas. Essa aproximação entre o budismo e a doutrina da reencarnação aconteceu na tradução de alguns termos, o que não significa que tais ensinamentos sejam idênticos, pois a mesma palavra pode ser usada em contextos diferentes, podendo significar duas coisas radicalmente divergentes e contraditórias.
No Oriente, a reencarnação pode aparecer como uma linha do pensamento popular, típica do povo, que espera por uma perpetuação de seu ego, em condições muito semelhantes com as da Terra. Contudo, essa é uma crença simplista, popular, própria para aqueles que a conhecem pouco. Entretanto, pergunta-se: e por que os livros sobre o budismo trazem a palavra reencarnação? Não são apenas os que não conhecem a tradição budista, mas também os próprios praticantes em seus livros e palestras sustentam essa ideia. Isto acontece tanto nas traduções ocidentais equívocas, quanto no desconhecimento do sentido desta palavra por parte dos orientais.

Renascer não é o mesmo que reencarnar
Quando um povo entra em contato com outra cultura e seu conjunto de ideias, a tendência inicial é interpretá-las segundo suas próprias concepções. O budismo, assim como o hinduísmo, começou a ser estudado no Ocidente justamente na época em que doutrinas reencarnacionistas estavam em seu auge, ou seja, no início do século 20, fazendo com que a doutrina budista no Ocidente fosse entendida como um complexo sistema filosófico exótico, entregue às mãos de filósofos iniciantes e curiosos deslumbrados.
As palavras patisandhi e punabbhava, – que querem dizer “reconexão” e “existência renovada” respectivamente – foram traduzidas como reencarnação na tentativa de compreender a ideia oriental através do pensamento ocidental. Nas diversas línguas se usa a palavra renascimento e não reencarnação, como por exemplo em inglês rebirth ao invés de reincarnation, e em francês renaissance e não reincarnation. O Brasil está entre os países que não acompanham o desenvolvimento desse tipo de estudo, o que alimenta a compreensão equívoca dos tradutores ocidentais e de alguns professores orientais em relação à terminologia filosófica e religiosa do Ocidente. Por isso, é fundamental conhecer o todo de uma doutrina ao invés de se ater a palavras isoladas, fora de contexto e fragmentadas.

O ser humano é corpo, psique e espírito
Na ótica do budismo, podemos perguntar: o que vive segundo essa tradição? Para essa tradição, bem como para todas as doutrinas espirituais antigas da humanidade, o ser humano pode ser considerado sob três aspectos: corporal, mental ou psíquico e espiritual. O corpo e a psique são dimensões condicionadas, limitadas e impermanente. Condicionadas, pois para existirem dependem de uma série de outros fatores. O corpo e psique dependem de uma inter-relação e  interação, a fim de manterem a sua existência, pois para isso são necessárias condições, as quais limitam, mas também propiciam a existência. O corpo define-se no tempo e no espaço, enquanto a psique, embora livre do espaço, limita-se pelo tempo ou, melhor ainda, pela duração. Nota-se que a duração, como qualquer outra condição, é sempre temporária, sujeita ao surgimento e ao declínio. As concepções reencarnacionistas referem-se unicamente ao mundo condicionado, sujeito às condições mais grosseiras da existência universal, como o tempo e o espaço. Pouco importa reencarnar-se na Terra ou em outros planetas, pois se trata sempre de uma referência espacial.
Para além do que é condicionado deve haver necessariamente algo que não o seja de forma alguma, pois a limitação, no sentido filosófico, não é uma afirmação, mas privação, porque cerceia e impõe limites ao ilimitado. “Tudo o que é criado é impermanente”, e somente o que não nasce, não se limita ou delimita, e pode ser, de fato, livre e eterno. Só o que está para além do tempo, onde não há evolução, pode de fato perpetuar-se e ser chamado de eterno.
Tudo que é condicionado necessariamente tem um fim no momento em que as condições que o sustentam terminam. No budismo o homem existe, enquanto tal, na medida em que é composto dos elementos, acima citados, de modo que a morte marca a separação desses elementos, e assim já não se pode mais falar de homem. O corpo volta ao ambiente corporal, ao pó; e a psique, ao ambiente psíquico. E o que é eterno, o espírito, não dependeu de condições, e, portanto, volta ser o que sempre foi, é e sempre será. A ideia de que a alma indestrutível reencarne sucessivamente em diferentes corpos, em cada vida mais evoluída que a anterior, é estranha às concepções budistas e a todas as concepções tradicionais da espiritualidade antiga. Na verdade, o que renasce é o impulso criado pelas ações volitivas, os desejos que criam tendências e reações.

O renascimento não está condicionado à morte física
O renascimento é independente da morte física do indivíduo humano. Nossas ações intencionais renascem a cada momento, levando-nos a mundos de experiência de acordo com o conteúdo da ação. Somente a falta de conhecimento dos ocidentais tornou possível interpretar este tipo de renascimento como sendo uma reencarnação no sentido estrito.
No budismo, a doutrina do renascimento tem a ver com responsabilidade universal, pois somos influenciados por todas as correntes de ações ocasionadas em torno de nós, no presente e no passado, bem como por nossas ações influenciamos os seres à nossa volta e os que nascerão no futuro, pois todos estão intimamente relacionados através de suas ações. Para o budista, o mundo é como uma árvore, onde os indivíduos são os galhos. Vários galhos nascem de um só, não sendo nem idênticos ao galho original, nem totalmente diferentes, mas todos estão interligados.
O fundamental na via espiritual do caminhante budista não é evoluir para um mundo melhor, o qual ainda será condicionado, limitado e impermanente, mas sintonizar-se com a Verdade, com aquilo que sempre é, com o incondicionado pelas circunstâncias. E, a cada momento que as nossas capacidades e ações se expressam harmonicamente com o que sempre é, elas se tornam semelhantes à Verdade, reflexos do Intemporal e Ilimitado no mundo das condições.

* Ricardo Sasaki
É psicólogo clínico, tradutor e escritor, dirige o Centro de Estudos Budistas Nalanda, em Belo Horinte (MG), com núcleos em várias cidades, onde atua como professor e ministro laico da tradição budista.

Fonte: Diálogo 62, Maio/Julho 2011
Postado por: Diálogo




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