A transcendência humana e o sagrado

Data de publicação: 23/11/2018




Por, Marlon Leandro Schock *

Com frequência ando pelas ruas de meu bairro, muito arborizado e florido. A fragrância das flores me faz voltar à infância e a um sentimento delicioso de não ter preocupação alguma na vida – só o prazer de desfrutá-la em todos os sentidos e com todos os sentidos. Experienciar este “deslocamento”, este transcender é, na verdade, muito comum, para nós seres humanos.
Segundo Leonardo Boff, teólogo católico brasileiro, transcender é ultrapassar, ir além do ordinário, além de todos os limites; é a habilidade de romper barreiras, de superar e violar interditos; é o poder de acrescentar algo ao real, de criar utopias, símbolos, projeções (p.36-37). Nós, seres humanos, temos esta capacidade – somos seres de transcendência!
Karl Rahner (1904-1984), teólogo católico alemão, concebe o ser humano como um ser consciente de si, que se coloca perante si mesmo com todas as suas possibilidades presentes e futuras, e, assim, se questiona, e dessa maneira se ultrapassa e se transcende (p. 45). Afirma Rahner que, ao se abrir para o horizonte ilimitado do questionamento, o ser humano já transcendeu a si mesmo e, ao fazê-lo, se afirma como quem é mais do que a soma dos componentes analisáveis de sua realidade (p. 43). É exatamente a consciência de si e a capacidade de questionar e de questionar-se que evidencia esse “algo mais” no ser humano.
O questionamento é um portal para a projeção, é o limiar de onde o ser humano salta para a experiência transcendental, rumo a um lugar infinito, quanto mais respostas é capaz de dar, como o horizonte que sempre se retira para mais longe. O ser humano é a pergunta que se levanta perante si mesmo, vazia, mas real e inevitável, à qual ele nunca pode superar nem responder adequadamente, continua Rahner (p. 46). Em artigo para a Diálogo – Revista de Ensino Religioso, Francisco Catão e Luzia Sena elucidam que somos e estamos, assim, tomados, atormentados, por uma insatisfação, uma irresolução inscrita no mais íntimo do nosso ser, o que se manifesta e se personaliza como uma sede insaciável do infinito.
Nós, seres humanos, mantemos uma atitude de perplexidade e esperança simultâneas, abertos a toda realidade possível. Qualquer estímulo pode resultar na superação dos limites do cotidiano, do imanente, e transformar uma situação ordinária num deslumbre que nos arraste para fora de nós mesmos, que nos impulsione para algo maior do que nós.
A transcendência é um elemento constitutivo do nosso ser - somos a ela predispostos estruturalmente. Desse modo, há na transcendência o que não se pode ensinar nem submeter a um método ou dispor didaticamente. É, portanto, uma questão de ontologia. Entretanto, a transcendência demonstra duas possibilidades de constituição: uma dimensão metafísica-ontológica e outra gnosiológica-cultural.

Revendo o sagrado
O conceito de sagrado tem originalmente um significado não-racional: o numinoso (do latim numen, divindade). Segundo Bruno Odélio Birck, o numen é o objeto próprio da ideia do sagrado, e, como tal, não pode ser apreendido didaticamente, mas só descrito por analogia ou metáfora; é objeto racionalmente incompreensível, apreendido unicamente pelo sentimento numinoso, que é um estado afetivo da alma (p. 31).
Rudolf Otto(1869-1937), teólogo protestante, professor na Universidade de Göttingen na Alemanha e pesquisador das religiões comparadas, propõe o termo numen como o mysterium tremendum et fascinans, sendo que o mysterium representa o totalmente outro (qualitativamente diferente) que é simultaneamente repulsivo (tremendum) e atrativo (fascinans). Para Otto, o sagrado é completamente inacessível à compreensão conceitual, e constitui algo inefável, indizível, inexprimível (p. 11). Podemos aqui argumentar que atualmente a noção de sagrado possui outras dimensões, que não invalidam nem desmerecem a abordagem de Otto, mas tiram de suas mãos a premissa de exclusividade do termo.
Precisamos ter cuidado epistemológico para não forçar a noção de sagrado à concepção judaico-cristã de religiosidade. Uma distinção se faz necessária até mesmo para não invalidar as duas categorias em suas especificidades, pelo que, proponho uma reflexão do termo sagrado para além do domínio cristão e de Rudolf Otto: o sagrado de atribuição.
Esta concepção de sagrado não depende da revelação que vem de Deus, e possui medidas outras do que seria o divino; tem por agente específico o ser humano e nasce de uma projeção antropológica que em seu maior espectro se mantém na horizontalidade, se considerarmos a revelação como ação vertical que inspira primeiramente a reação em mesmo plano; é a representação valorativo-atribuitiva de afetividade ou devoção por um objeto ou ser ausente, o caminho de substituição pelo qual algo ou alguém se torna sagrado. Representa com a maior força possível o ausente, o objeto da saudade.

Considerações
O sagrado de atribuição pode sacralizar qualquer coisa ou pessoa, como também, pode vir a tão somente reconhecer o sagrado no numinoso mesmo; pode tranquilamente assimilar a proposta da revelação quanto ao caráter do sagrado como sendo o Deus judaico-cristão, no entanto, é livre para não o fazer. Seu risco constante está em limitar-se a produzir o que Leonardo Boff chamou de transcendência menor e pseudotranscendência (pp.55,68,69). Ambas têm por princípio manipular a estrutura do desejo e canalizar toda a sua potencialidade para uma coisa limitada e identificar essa coisa com a totalidade, causando a ilusão da realização do desejo infinito identificado com um objeto finito; ainda que explorem a capacidade de transcendência do ser humano, não lhe conferem a experiência de uma plenitude duradoura (p. 56).
Podemos fazer uma distinção entre a transcendência (aspectos ontológicos e culturais) e o sagrado (como numinoso e de atribuição) no seguinte sentido: a transcendência seria uma realidade dada, da ordem da constituição das coisas – não se pode criar transcendência. Esta possui em sua estrutura elementos passíveis de operacionalização: os meios de transcendência. O sagrado como numinoso é de outra categoria autoexistente, inapreensível, fora da revelação, não manipulável didaticamente, que não serve à construção pedagógica. O sagrado de atribuição, por sua vez, carece de significação, de valoração e da impressão de um caráter extraordinário. Pode-se dizer que a transcendência não tem uma relação de dependência com o sagrado de atribuição, nem necessariamente o produz, embora possa nele resultar. Já o sagrado nunca está isento do caráter transcendental em alguma medida. Talvez se possa dizer: ao sagrado de atribuição a significação, e à transcendência e ao numinoso o reconhecimento e a contemplação.

* Marlon Leandro Schock
Doutorando em Teologia na área de Religião e Educação, especialista em Ensino Religioso e integrante do grupo de pesquisa Currículo, Identidade Religiosa e Práxis Educativa das Faculdades EST(Escola Superior de Teologia) de São Leopoldo(RS). 

Referências bibliográficas
BIRCK, Bruno Odélio. O sagrado em Rudolf Otto. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1993.
BOFF, Leonardo. Tempo de transcendência: O ser humano como um projeto infinito. Palestra no Rio de Janeiro em agosto de 2000.
CATÃO, Francisco & SENA, Luzia. Dinâmica: A percepção da transcendência. Diálogo –     Revista de Ensino Religioso, São Paulo: Paulinas, ano II, nº 7, 1997.
OTTO, Rudolf. O sagrado – Um estudo do elemento não-racional na idéia do divino e a sua     relação com o racional. São Bernardo do Campo: Metodista, 1985.
RAHNER, Karl. Curso fundamental da fé. Vol. 2. São Paulo: Paulus, 1989.

Saiba mais

No limiar do Mistério
Mística e religião
Organizador: Faustino Teixeira
Coleção: Religião e Cultura
Código: 504866
Número de páginas: 436
Paulinas Editora






Mística e sociedade
Autores: Carlos E. Sell e Franz Josef Brüseke
Código: 510785
Número de páginas: 252
Paulinas Editora

Fonte: Diálogo 58, Maio/Julho 2010
Postado por: Diálogo




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