O amor que fecunda a terra

Data de publicação: 19/02/2019


Por, Marcelo Barros *

A verdadeira espiritualidade vai além do religioso e revela-se em uma atitude de amor para com todas as criaturas. O universo inteiro é um imenso altar, no qual podemos contemplar a presença de Deus. No cristianismo, tanto a Igreja Católica, como as Igrejas Ortodoxas e Evangélicas, tem despertado para a gravidade da crise ecológica e a urgência de um maior cuidado com a Terra, a água e toda a natureza. Documentos de diversas Igrejas e, principalmente, a encíclica Laudato Si’, do papa Francisco, sobre o cuidado com a casa comum, têm pedido a toda a humanidade uma verdadeira conversão ecológica. É preciso um modo novo de crer em Deus e de se relacionar com o seu amor.
Os nossos biomas: expressões do amor divino
Bioma é um conjunto organizado de todas as formas de vida. A palavra vem de “bios”, que em grego quer dizer “vida”. Trata-se de um conjunto de vida humana, vegetal e animal que cobre determinada região de forma contínua, em condições geoclimáticas parecidas, o que forma uma unidade biológica própria. O território brasileiro é formado por seis grandes biomas: Amazônia, Cerrado, Caatinga, Pantanal, Mata Atlântica e Pampa. Todos os biomas são formados por diversos ecossistemas, isto é, por áreas diferenciadas dentro do mesmo bioma. Faz parte de cada bioma sua população humana. Cada bioma tem também uma identidade social, econômica e cultural própria. Precisamos respeitar e valorizar cada conjunto de vida desses biomas, os povos que os habitam e a cultura própria de cada uma dessas populações. Todos os biomas brasileiros estão ameaçados. É urgente mudar o paradigma de nossa civilização e deter um modelo de desenvolvimento que é destruidor da vida. Por isso, a Campanha da Fraternidade de 2017 tem como tema: Fraternidade: Biomas brasileiros e defesa da vida e como lema: "Cultivar e guardar a criação" (Gn 2,15). Precisamos fazer uma transformação cultural na qual governos e sociedade vejam os biomas não como terra a ser explorada e sim como um universo vivo com o qual devemos nos relacionar. Isso pede outra educação e uma espiritualidade que contemple a presença divina em cada ser vivo e no conjunto do universo.
Bases de uma espiritualidade macroecumênica
Como as Igrejas reservaram o termo ecumenismo para o trabalho pela unidade dos cristãos, o 1o Encontro da Assembleia do Povo de Deus (APD), em Quito, Equador, 1992, propôs esse termo para designar uma espiritualidade de diálogo e de busca da comunhão entre as religiões, principalmente entre cristãos e as religiões ancestrais (indígenas e negras), para unir os diversos caminhos espirituais no serviço libertador de toda a humanidade. Para isso, o macroecumenismo destacou como linhas de ação: uma espiritualidade pluralista e a denúncia do neoliberalismo. Essa mesma espiritualidade se expressa agora em um cuidado socioambiental e nos leva a valorizar a sabedoria dos índios e grupos afrodescendentes.
Em 2015, um dos livros que mais causou impressão ao mundo científico foi A Queda do Céu – Palavras de um Xamã Yanomami, de Davi Kopenawa e Bruce Albert, Companhia das Letras. Há décadas, nos quadrinhos de Asterix e Obelix, os valentes gauleses só tinham medo de uma coisa: que o céu pudesse cair sobre suas cabeças. E a gente ria desse medo primitivo. Agora, um xamã yanomami que trabalhou na Fundação Nacional do Índio (Funai) e frequenta conferências internacionais em Londres (Inglaterra) e Paris (França) nos revela: o céu pode sim cair sobre nossas cabeças. Não no sentido literal de um teto que desaba, mas sob a forma de chuvas tóxicas, raios ultravioleta do sol, aquecimento global e outras consequências das mudanças climáticas e dos desmandos da sociedade dominante. Sem desprezar as soluções técnicas e políticas, o xamã mostra que o mais importante é ouvir os Xapiris, os espíritos das florestas, para que eles refaçam o equilíbrio perdido e não tenhamos de ver “a queda do céu”.
Essa linguagem mítica parece presa às antropologias religiosas antigas. No entanto, a Física Quântica afirma, no livro Anche la Scienza parla Soltando per Metafore – La Nuova Rilazione fra Religione e Scienza de Hans-Peter Dürr, “O universo (e a Terra) se manifesta como realidade relacional. O mundo não é só matéria. É também potencialidade. Há uma interação entre seres animados e inanimados. E essa realização das potencialidades acontece em cada momento como criação. Assim, a realidade relacional se torna concreta”. É novo para a teologia cristã ocidental assumir isso. No entanto, muitas culturas indígenas e negras sempre acreditaram que todo o universo tem uma voz, um espírito e devemos nos colocar em comunhão com “o espírito da terra e do universo”. Para nós, cristãos, esse espírito do universo é o próprio Espírito Divino, presente nesse ato de criação contínua. A criação é obra permanente do Espírito. Podemos aprofundar isso como caminho espiritual.
O povo guarani acredita que o ser é essencialmente som. Toda vida tem uma música interna e secreta que é preciso descobrir, amar para escutá-la e ser por ela alimentado/a. O Trovão e o Vento – Um Caminho de Evolução pelo Xamanismo Tupi-Guarani, de Kaká Werá: Essa música vital une ‘o mundo Céu’, o mundo Terra’ e o mundo intermediário, no qual o ser e o Todo se manifestam como alma masculina e feminina. Assim é a música da vida. (...) Um dos primeiros elementos do culto e da espiritualidade guarani é formado pelos ‘Cânticos que educam os Ventos’, ‘os cânticos do Colibri que encantam a natureza e alegram o coração do Primeiro Pai’”.
Água: sacramento do amor maternal de Deus
O mundo inteiro está preocupado com a crise de água que ameaça o planeta. Muitos livros e artigos revelam como é preocupante a crise da água no mundo. Essa situação não ocorre porque a terra tem pouca água. A quantidade de água no planeta daria para satisfazer a todos os seres humanos. Entretanto, enquanto a quantidade de água disponível não muda, o consumo humano se multiplicou por dez, no último século. E a humanidade tem dilapidado os bens hídricos de tal forma, que a quantidade de água disponível é insuficiente e tende a diminuir cada vez mais.
Desde antigamente, a maioria das religiões considera a água o primeiro sinal do amor divino no mundo. As religiões veneram a água como manifestação divina. No decorrer da História, as fontes de água e nascentes sempre foram consideradas sagradas. No antigo Egito, a religião considerava o Rio Nilo o pai de todos os deuses. Na Mesopotâmia, os Rios Tigre e Eufrates eram divinizados como “dois irmãos gêmeos, filhos de Marduc, o Sol”.
A Bíblia começa afirmando que “quando Deus criou o céu e a terra, o sopro divino (o Espírito de Deus) pairava sobre as águas” (Gn 1,1-2). Desde então, em toda a Bíblia, a água é vista como manifestação (sacramento) do Espírito Santo. Jesus afirmou: “Quem tem sede venha a mim e beba. Como diz a escritura: do seu seio (do Cristo), vão correr rios de água viva”. E o Evangelho conclui: “Jesus dizia isso se referindo ao Espírito que haveriam de receber todos/as que nele acreditassem” (Jo 7,37-39). Na espiritualidade islâmica, a água é comparada à prece que se derrama sobre a terra como bênção divina. E o livro sagrado do Corão faz referências à água como dom do amor divino para a humanidade.
Na América Latina, os cultos indígenas e negros sempre consideraram a água como sinal e instrumento do amor divino. No candomblé de tradição iorubá, o orixá mãe de todos é Iemanjá, o Espírito das águas do mar. Todo templo de candomblé se faz perto de uma fonte de Oxum, orixá das águas doces. Nas tradições indígenas amazônicas, “a mãe do rio” que os antigos chamavam Iara, o Rio Amazonas, recebe e põe em relação as águas de todos os rios e igarapés. É como uma condensação de amor que o universo deu à humanidade e a todos os seres vivos. Na América do Norte, os índios Apache cantam: “As nuvens estão no Oriente e se aproximam. Lá longe vemos sinais de chuva. O trovão anuncia que aqui vai chover. Em torrentes, as águas vão cair. Se nos deixamos cobrir pelas bênçãos de suas águas, tornamos-nos um com a divindade que, de amor, derrama sobre nós as lágrimas da mãe chuva”.
Para concluir e continuar aprofundando o assunto
Houve uma época em que essa espiritualidade que contempla as energias divinas na terra, na água e na natureza pareciam contrárias à Bíblia. Esta afirma: Deus é um só e dele não farás para ti nenhuma imagem (cf. Ex 20,3-4). No intuito de condenarem e combaterem as religiões ancestrais dos povos, padres católicos e pastores evangélicos chamavam essas crenças de “panteísmo”. Diziam que índios e negros adoravam a natureza. Atualmente, sabemos que a Bíblia condenou os ídolos porque eles eram imagens usadas para conquistar e oprimir outras pessoas e povos. O próprio Deus da Bíblia se deixou adorar com nomes diversos e aceitou ser chamado de Deus da montanha, Deus Altíssimo, Deus dos exércitos, até revelar a Moisés que o seu nome é Senhor (cf. Ex 6,2). Os orixás do candomblé e os nomes que os índios das diferentes culturas dão a deus são sinais e instrumentos do seu amor maternal. Não se trata de dizer que tudo é deus (panteísmo) e sim que Deus está em tudo (panenteísmo).
Temos de nos abrir a essas religiões e culturas, não para mudarmos de religião e sim para descobrirmos o que Deus quer, hoje, nos falar através dessas expressões de fé. Por elas, descobrimos a voz do amor divino a nos pedir que cuidemos dos nossos biomas. “Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz hoje às Igrejas” (Ap 2,11).
* Marcelo Barros
Monge beneditino e biblista, assessor das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e da Pastoral da Terra e autor de 50 livros. E-mail: irmarcelobarros@uol.com.br
Referências
Pedro Casaldáliga. O Macro-ecumenismo e a proclamação do Deus da Vida, in: Faustino Teixeira (organizador). O Diálogo inter-religioso como afirmação da vida, São Paulo: Paulinas, 1997, pp. 31 ss.
BARROS, Marcelo. O Sonho da Paz – A Unidade das Igrejas e das Religiões a Serviço da Paz do Mundo), Petrópolis, Vozes, 1996, p. 25 ss.
O Espírito Vem pelas Águas. São Paulo: Loyola-Rede da Paz, 2003.
PETRELLA, Ricardo. O Manifesto da Água. Petrópolis: Vozes, 2002.
DÜRR, Hans-Peter. Anche la Scienza parla Soltando per Metafore – La Nuova Relazione fra Religione e Scienza, Verona (Itália): Gabrielli Editori, 2015, PP. 74 ss.
WERÁ, Kaká. O Trovão e o Vento – Um Caminho de Evolução pelo Xamanismo Tupi-Guarani São Paulo: Ed. Instituto Arapoti, Ed. Polar, 2016, pp. 60 e 64.

Mãos a obra
Canal do Yotube

Os vídeos indicados são sugestões para aprofundar a temática abordada no artigo. Assista e comente com o grupo os aspectos mais relevantes:
•    Conversa com Magali Cunha sobre uma perspectiva ecumênica da Laudato si:
https://www.youtube.com/watch?v=o1gXT3jDu1I
•    Água, escassez e soluções:
https://www.youtube.com/watch?v=lYT2odOomAA

 

 

 

Fonte: Diálogo n 85 Jan/Mar 2017
Postado por: Diálogo




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