O Islã e a não violência

Data de publicação: 04/04/2019

Por, Francirosy Campos Barbosa *

Convoca para o caminho do teu Senhor, com sabedoria e exortação justas, e discute com eles da melhor forma possível. O teu Senhor certamente conhece melhor quem se desvia do Seu caminho, e conhece melhor os que estão bem encaminhados (Alcorão, 16:125).
Discorrer sobre o Islã leva a refletirmos também sobre a não violência, que é base do pensamento islâmico. A religião promove a violência? Muçulmanos são violentos? Nos dias de hoje cada vez mais a religião islâmica vem sendo associada à violência, ao terrorismo, mas poucas pessoas conhecem a religião e seus princípios. Na etimologia da palavra Islam, encontramos a forma verbal aslama que significa “submissão a Deus” e da qual muslim, muçulmano, é o particípio presente: “aquele que se submete a Deus” (Dicionário de Religiões, 1995, p. 191). Prefiro, ainda, a derivação da palavra que indica “entrega”, pois o sentido de entrega na língua portuguesa é algo que se faz pelo coração (Performances Islâmicas em São Paulo, 2017).
São os que creem (e se estabelecem na fé), cujos corações encontram descanso e contentamento com a recordação de Deus, e são devotados de todo o coração a Ele – estejam cientes de que é na recordação de Deus e na devoção a Ele que os corações encontram descanso e contentamento (Alcorão,13:28).
Outro termo que nos faz pensar o quanto a religião tem como premissa a paz é o cumprimento islâmico: Assalamu Aleikum, que a paz esteja com você. Dizer isso todas as vezes que se encontram ou quando um muçulmano se apresenta a outras pessoas é buscar cotidianamente a sintonia com a paz e o desejo de promovê-la.
E Deus convida para a Morada da Paz (onde irão desfrutar de felicidade perfeita, paz e segurança) e Ele orienta a quem deseja ao caminho reto (Alcorão, 10:25).
Mas falai-lhe com palavras gentis, para que ele possa refletir e ser consciente ou sentir algum temor, de Mim, e se comportar com humildade (Alcorão, 20:44).
Um dos campos de estudo das Ciências Islâmicas é a Shari´a (caminho, Lei Islâmica), que é composta do Alcorão e da Sunnah do Profeta Mohamed. O Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, foi revelado durante 23 anos em Meca e Medina, no qual se expressa na comunicação intermediada pelo anjo Gabriel entre Deus e o Mensageiro. A Sunnah, por sua vez, é composta de hadices, que são ditos, falas, comportamento do Profeta que serve de modelo aos muçulmanos. O Islã como revelação divina trata de todos os assuntos, é um código de vida completo, inclusive ao combate à violência, à injustiça, à escravidão.
E, sendo, além disso, dos que acreditam e exortam uns aos outros a paciência e exortam uns aos outros a piedade e a compaixão (Alcorão, 90:17).
Jihad: conquista de si mesma e luta pela causa de Deus
Um conceito islâmico que acabou tomando uma conotação negativa na sociedade é Jihad, traduzido pela imprensa como Guerra Santa, acabou por associar o Islã a uma predisposição às guerras, aos conflitos etc. Mas o que significa este termo dentro da concepção islâmica? Jihad é uma palavra árabe que significa “esforço, empenho, dedicação”.  Na religião há dois tipos de Jihad: 1) O Jihad maior é o mais importante, trata-se do esforço individual de cada fiel em melhorar o seu ego (nafs), um esforço para combater a arrogância, a inveja, a vaidade e todos os sentimentos negativos que um ser humano possa ter e vivenciar de modo pleno os ensinamentos da religião. O Profeta Mohamed afirma: “O melhor jihad é aquele para conquistar a si mesmo”; 2) O Jihad menor, que é a luta pela causa de Deus, para que os muçulmanos possam se defender de injustiças, da escravidão, da desigualdade, a fim de que os princípios de religiosidade e fé sejam mantidos. Há um hadice do Profeta que ele diz: “A pessoa forte não é a que tem força física, mas a que controla sua raiva”.
Importante frisar que, em situação de Guerra, o Islam estabelece regras que devem ser seguidas: 1) não trair quaisquer acordos que tenham celebrado; 2) não saquear; 3) não cometer injustiças ou usar tortura; 4) não tocar crianças, mulheres, idosos ou outros não combatentes do inimigo; 5) não destruir pomares ou terrenos cultivados; 6) não matar animais de criação; 7) tratar com respeito às pessoas religiosas que vivem em ermidas e conventos e poupar edifícios (Ibn al-Acir, 3:227 apud Ünal Ali, 2015).
O controle da raiva, da ira, das paixões é esperado no Islã. O livre-arbítrio é considerado levando em conta uma consciência crítica que se forma ou se consolida a partir da puberdade do muçulmano, seja homem ou mulher, neste período ele já deve discernir o certo e o errado ou como se diz na religião: o lícito e o ilícito, no entanto, as pessoas são passíveis de erros, por isso que o Jihad maior é fundamental, pois o muçulmano cotidianamente busca melhorar aos olhos de Deus.

Não agir por impulso de sentimentos ruins
Um episódio ocorrido com Imam Ali – quarto califa na sucessão do Profeta Mohamed – retrata bem que não se deve agir em momento de raiva. Quando este lutava e o outro combatente o cuspiu no rosto, ato que certamente o desmoralizava diante de sua tropa. Ali que estava com vantagem para matar o seu inimigo, não o fez, pois percebeu que, se o fizesse, faria pela ira que o mesmo provocou e não pela causa de Deus. Nunca se deve agir por impulso, devido a uma raiva ou sentimento ruim, porque isto levará à injustiça.
 Que o ressentimento contra aqueles que trataram de impedir-vos de irdes à Mesquita Sagrada não vos impulsione a provocá-los, outrossim, auxiliai-vos na virtude e na piedade. Não vos auxilieis mutuamente no pecado e na hostilidade, mas temei a Deus, porque Deus é severíssimo no castigo (5,2).
O islamólogo Tariq Ramadan, em Introduction à l´ éthique islamique, diz que uma das grandes questões debatidas pelos mutakallimun – os teólogos-filósofos – é a origem da consciência moral do homem. Recorre frequentemente à unicidade (Tawhid) – criador do céu e da terra e da humanidade –, nossa consciência moral está em discernir entre o bem e o mal e as consequências disso. “De onde vem esta consciência?”, pergunta Ramadan.  “Sobretudo do Alcorão” , ele vai pontuar, pois mesmo no texto sagrado é possível perceber que o homem tem disposição para o bem e para o mal, por isso a importância do livre - arbítrio.
Nesta disposição para o bem e para o mal, é o próprio homem que decide a sua mudança, e esta mudança vem do íntimo de cada muçulmano, o arrepender-se dos seus pecados, de suas falhas é um dos caminhos para que Allah altere o resultado final....porque Deus jamais muda o favor que Ele concedeu a um povo a menos que eles mudem o que há em seus íntimos... E Deus é realmente Oniouvinte, Sapientíssimo (Alcorão, 8:53).
Um bom exemplo é a história do Profeta Adam (Adão), sua desobediência a Deus o leva ao erro, entretanto, este erro cometido é lido no Islã como uma forma que Deus encontrou para prepará-lo a ter uma consciência crítica dos seus atos. Em sendo assim, o erro de um muçulmano e a possibilidade de corrigi-lo é também um modo de construir sua personalidade. Ter consciência dos seus erros é fazer uso do livre-arbítrio. A personalidade do muçulmano se forma exatamente no modo como Deus institui o livre-arbítrio para que esta consciência se amplie. É possível dizer que o muçulmano faz isso em toda situação, seja em questões econômicas, política, social, religiosa. A construção de uma consciência pautada em princípios islâmicos, em regras de conduta denominadas de Adab (conduta islâmica) ou o que por ventura se denomina de Ética Islâmica – Akhlaq (ilm al-Akhlaq), são fundamentais em uma sociedade islâmica (Introduction à l´ éthique islamique).
É a ética islâmica que determina o bom comportamento, os valores, a justiça, a honestidade, a coragem etc. Se todas as profissões que conhecemos têm sua ética própria, o código islâmico também vai apresentar seus elementos definidores do bem e do mal, do que é permitido ou não a um muçulmano. As normas legais (Ahkam) são regidas por esses valores éticos (Akhlaq). Quando um muçulmano tem conhecimento de sua religião e das regras estabelecidas de conduta, jamais permitirá a injustiça, a violência e a segregação de pessoas.
A busca da paz é imperativa no Islã. Cabe aos muçulmanos o livre-arbítrio, o discernimento do certo e do errado e o pleno entendimento das fontes escriturárias para a construção de uma sociedade mais justa e equilibrada.
Não há compulsão na religião (Alcorão, 2:256).
Referências
BARBOSA, Francirosy, C. Performances Islâmicas em São Paulo: Entre Arabescos, Luas e Tâmaras. São Paulo: Terceira Via Edições, 2017.
RAMADAN, Tariq. De l´islam et des musulmans – Réflexions sur l´Homme, la réforme, la guerre et l´occident.  Paris: Presses du Châtelet, 2014.
_____. Introduction à l´éthique islamique. Paris, Presses du Chatelet, 2015 Ünal, Ali. Alcorão com intepretação anotada – tradução Samir Hayek. New Jersey, Tughra books. 2015.
ELIADE, Mircea. COULIANO, Ioan. P. Dicionário de Religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1995.


* Francirosy Campos Barbosa
Antropóloga, pós-doutora pela Universidade de Oxford sob supervisão do professor Tariq Ramadan, docente do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP), coordenadora do Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e

Fonte: Revista Dialogo Janeiro/Março de 2018
Postado por: Diálogo




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