Violência e indisciplina no ambiente escolar

Data de publicação: 04/04/2019

Por, Maria Edilsa Felix *
Nas duas últimas décadas, verifica-se significativo avanço da violência no contexto internacional e brasileiro, desvelando um cenário que se manifesta em diferentes espaços e contextos. A violência presente na sociedade, na família e no bairro também se manifesta fortemente nas instituições escolares.
A escola é o ponto de referência e o lugar de fazer amigos, de crescer juntos. Além dos estudos, que é o foco principal, os alunos conversam, jogam, riem, brincam. Esse cenário, contudo, nem sempre é assim tão descontraído e amigável. A escola não é impermeável às transformações da sociedade, inclusive da violência. Portanto, não se pode olhar essa questão de forma simplista, já que a violência é muito complexa, envolvendo a própria configuração de sociedade.
Tendo presente esse contexto de violência, desenvolvemos na Escola Municipal Almerinda Bezerra Furtado, no bairro Guarapes, em Natal (RN), com alunos de 7 a 12 anos de idade, do 3o, 4o e 5o anos do Ensino Fundamental, um projeto de estudo e atividades sobre Violência e Indisciplina na Escola Municipal Almerinda Bezerra Furtado. A seguir, apresentamos algo desse trabalho realizado, partindo do levantamento dos tipos de violência mais comuns nesse ambiente.
Tipos de violência escolar
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a violência como “o uso da força física ou do poder, real ou por ameaça, contra a própria pessoa, contra outra pessoa ou contra um grupo, que possa resultar em morte, lesão, dano psicológico, problemas de desenvolvimento ou privação”. Citamos algumas formas frequentes de violência:
Violência psicológica: O bullying. O Relatório Mundial sobre a violência e Saúde, de (2002), afirma que o tipo mais comum de violência entre crianças ocorre no espaço escolar. Há casos de perseguições pelos próprios colegas, o que pode causar grande sofrimento físico ou psicológico. Essas questões estão associadas à discriminação contra crianças de famílias pobres ou crianças que convivem com algum tipo de violência.
A palavra bullying, de origem inglesa, foi adotada por diversos países para conceituar alguns comportamentos agressivos e antissociais e é um termo muito utilizada nos estudos realizados sobre a problemática da violência escolar, que acontece de forma velada, por “meio de um conjunto de comportamentos cruéis, intimidadores e repetitivos”, prolongadamente contra uma mesma vítima “e com grande poder destrutivo, pois fere a área mais preciosa, íntima e inviolável do ser: a alma” (Bullying Escolar: Perguntas e Respostas).
Violência física: É um comportamento que causa intencionalmente dano ou intimidação moral a outra pessoa ou ser vivo; aplicação de força e vigor, contra qualquer coisa.
Violência sexual: É toda ação na qual uma pessoa em situação de poder obriga outra à realização de práticas sexuais, utilizando força física, influência psicológica ou uso de armas e drogas.
Objetivos do projeto
O estudo realizado objetivou uma investigação reflexiva sobre as causas da violência e indisciplina ocorrida na Escola Municipal Almerinda Bezerra Furtado, analisando até que ponto isto interfere no processo de ensino-aprendizagem, identificando as diferentes formas de violência vivenciadas dentro e fora das salas de aula. O foco principal não foi o de atribuir culpas à escola, à família ou aos professores e alunos, e sim, procurar averiguar a que tipo de violência estes estão sendo submetidos. Tudo isso, buscando desenvolver ações conjuntas que possam contribuir para melhorias na aprendizagem e nos relacionamentos de todos os que convivem no espaço escolar.
Metodologia
Trata-se de uma pesquisa compreensiva, aplicativa e extensiva. O trabalho estrutura-se em três níveis e etapas consecutivas. O primeiro, analisa as percepções dos educadores sobre a situação da violência na escola ocorrida nos anos de 2013 a 2015. As informações sobre isso foram obtidas a partir de respostas dos questionários aplicados aos professores.
O segundo nível consiste na análise qualitativa e quantitativa de questionários aplicados aos pais dos alunos selecionados a participar do projeto, realizado na escola durante oficinas e palestras de exposição do Projeto Amigo do Abraço.
O terceiro consiste na aplicação do Projeto Amigo do Abraço na escola, como forma de enfrentamento e combate à violência, baseado no Programa Educador da Paz (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, Unesco, 2000), e a Disciplina Restaurativa para Escolas, segundo Judy Mullet e Lorraine Amstutz, orientado pela professora Maria Edilsa Felix, nos anos de 2013 a 2015. Recursos utilizados e critérios de avaliação
O projeto contou com apoio financeiro do Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE) e do(a) responsável pelo projeto, na confecção de coletes e material didático, bem como livros, brinquedos, filmes, utilizados nas oficinas e nas atividades recreativas realizadas na escola durante o recreio.
O(a) responsável pelo projeto acompanha junto aos professores e à equipe pedagógica o desenvolvimento do aluno indisciplinado, suas melhorias. Em alguns casos, familiares dos alunos receberam apoio de equipe de psicólogos estagiários da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), orientado pelo professor Marlom, que realiza um trabalho de apoio na escola.
Os alunos que participam do projeto são avaliados continuamente pelos professores com anotações em fichas. Os pais que fazem parte do projeto têm se reunido na escola semestralmente para analisar e avaliar os relatos dos professores, observando as significativas mudanças no comportamento de seus filhos e traçando novas estratégias para a sua melhoria.
Considerações finais
Ao longo deste trabalho, foi abordado a violência na História, sendo ela uma constante na bibliografia da humanidade. É necessário e urgente buscar alternativas válidas para o combate à violência e à indisciplina em todos os ambientes escolares, e esse processo requer meses ou mesmo anos de trabalho coletivo e prolongado.
No trabalho realizado na escola, uma etapa importante foi o envolvimento e a disponibilidade do corpo docente, dos pais, da gestão e de toda a comunidade escolar, na luta contra a violência na escola. Dessa forma, conseguimos alcançar os objetivos de amenizar os problemas de violência e indisciplina no ambiente escolar.
O estudo contribuiu para uma reflexão que favoreceu os profissionais da área de educação, na construção de estratégias pedagógicas que permitem trabalhar essa problemática no dia a dia das escolas.
Referências
FANTE, Cleo;  PEDRA, José Augusto: Bullying Escolar: Perguntas e Respostas. Porto Alegre: Artmed, 2008.
MULLET, Judy H.; AMSTUTZ, Lorraine Stutzman. Disciplina Restaurativa para Escolas. São Paulo: Palas Athena Editora, 2012.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Indignação – Cartas Pedagógicas e Outros Escritos São Paulo: Unesco, 2000.

Mãos à obra
Sugerimos aos professores que assistam ao vídeo sobre bullying (48:19 min.): Caminhos da Escola e, inspirados nele, organizem um trabalho em conjunto. O vídeo sugere várias atividades que podem ser adaptadas e abre espaços para o debate sobre o tema. Aborda o bullying tanto do ponto de vista do aluno como do professor, da vítima como do agressor.


* Maria Edilsa Felix
Licenciada em Educação Religiosa pela Escola Superior de Ensino Religioso (Eser), Natal (RN) e  mestra em Filosofia pela Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro (RJ).

Fonte: Revista Diálogo Janeiro/Março de 2018
Postado por: Diálogo




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