Suicídio: tentativa e superação

Data de publicação: 07/05/2019

 Por, Carmen Maria Pulga
A taxa de suicídios no Brasil, especialmente de adolescentes e jovens, tem crescido de modo lento, mas constante. Isso é preocupante, pois, embora numerosos, os suicídios se tornam invisíveis, mantidos entre quatro paredes, por serem um tabu sobre os quais mantemos silêncio. No entanto, trata-se de um problema que pode ser prevenido na grande maioria das vezes. O estudo e a discussão do tema é uma das formas mais eficientes de se promover a prevenção e criar medidas adequadas para enfrentar esse problema.
Considerado pelo Ministério da Saúde como um problema de saúde pública, o suicídio tira a vida de mais de uma pessoa por hora no Brasil, mesmo período no qual outras três tentam se matar sem sucesso. Esse problema merece atenção, sobretudo de pais e educadores, porque alerta para um sofrimento imenso, que faz o jovem tirar a própria vida. O apoio, a acolhida, o diálogo podem ajudar a detectar situações de risco e prevenir que essa tragédia ocorra.
Nesta entrevista, à revista Diálogo – Religião e Cultura,  Ângela conta-nos como superou um momento difícil no qual pensou em pôr fim à própria vida.
Diálogo – Ângela, você superou um momento difícil, a ponto de pensar em dar um fim à sua vida. O que a levou a isso?
Ângela – Eu sofria depressão havia algum tempo e um dia explodiu. Hoje, já consigo me abrir mais, mas me pegava guardando as coisas para mim. Não tem como descrever esse momento, você não tem mais disposição para fazer nada, não sente vontade de sair da cama, se sente um peso morto. Agora, olho para trás e penso “eu precisava passar por isso e notar que existem pessoas que me amam”. Você começa um tratamento e as pessoas dizem que você não pode se matar. Você pensa, por que não, se não estou fazendo nada da minha vida? Você aceita o tratamento pela família, pelos amigos que lhe querem por perto, e, quando vê, começa a ter vontade de sair, fazer coisas, levantar de manhã e pensar “hoje é mais um dia que eu sobrevivi”. Sempre tem alguém para ajudar, familiares, professores, mestres, muita gente busca ajuda em Deus, enfim, alguém em quem você acredita. Tem que pensar que você veio à vida para fazer algo, se sentir importante.
Diálogo – Você foi uma menina muito amada, como esses pensamentos de suicídio a dominaram?
Ângela – Faz parte da depressão, entra o importante fator biológico, genético, porque as pessoas acham que depressão é só se sentir triste, mas na verdade, a dimensão dessa doença é absurda. É uma doença grave, não é drama. A depressão é uma doença grave, causada por um defeito na produção de neurotransmissores, que proporcionam alegria e o prazer da vida. Pode haver também predisposição genética e, além disso, tem a mente da pessoa, a qual acaba pensando sempre o pior e por isso vai se rebaixando. E pensa “o problema sou eu”. Na verdade, um bom tratamento resolve.
Diálogo – Quais as influências sociais que pesam sobre os jovens?
Ângela – Influências externas, principalmente a mídia, amigos, familiares; umas são boas outras ruins.  Algumas influenciam na descoberta do que a gente é; o que a gente vai fazer; como a gente vive, mas muitas dessas influências distorcem e rebaixam os jovens. Não pode haver pressão como: “Você tem que ser deste padrão”. Precisa dar espaço para o jovem ser ele mesmo. Porque é nesse período que ele descobre quem você é, descobre o futuro, a vida. O jovem pode se perder por alguns caminhos, por exemplo, das redes sociais, que influenciam em tantas coisas, que nem dá para imaginar.
Diálogo – E quais são as âncoras onde o jovem pode se apoiar para encontrar sentido na vida?
Ângela – Hoje em dia o adolescente sofre muita pressão porque enfrenta toda aquela coisa: “Ah, você vai virar adulto, tem que estudar, tem que assumir sua vida”. É uma pressão muito grande para o adolescente, que pode levar à loucura. Eu acho que principalmente a família é uma ótima âncora. Se você tem mais afinidade com o pai ou com a mãe, tente conversar com eles. Se você acha que seus pais não estão disponíveis, converse com um amigo. Muitas pessoas que eu conheço também usam o professor como exemplo, o professor é nosso mestre. Então, além da nossa família, é bom procurar amigos, falar, se distrair mais, porque é muita responsabilidade essa pressão de ter que encarar a vida adulta. É preciso se dar um tempo para dizer “agora chega, eu quero descansar”.
Diálogo – Qual o papel dos seriados e da Baleia Azul?
Ângela – Quem criou a Baleia Azul é nada menos que uma pessoa desumana. Incentivar um jovem a tirar a vida é desumano. A mídia tem um papel muito perigoso. Jogos, redes sociais, podem ser legais, mas a gente tem que cuidar das informações, porque é tanta informação, é tanta evolução, notícia falsa e notícia verdadeira... Se não estivermos preparadas, muitas notícias, nos abalara fortemente. Acho que a maioria assistiu à série Thirteen Reasons Why. Essa série, Os 13 Porquês, levantou questões importantes, a questão do suicídio, do estupro, do bullying.  Acho positivo. A gente precisava ter, há tempos, essa discussão. É a história de uma menina que muda de cidade e começa a sair com um cara que posta uma foto dela, e aí os colegas começam a dizer que ela é fácil. Ela entra em depressão, é abusada e muita outra coisa. No final, a menina se mata. O amigo dela ouve as 13 fitas que ela deixou dizendo por que ela cometeu suicídio e posta esses motivos.  Achei muito importante, mas de um jeito não aceito pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que tem regras para falar de suicídio nas produções. Por exemplo, não pode divulgar material da pessoa, e a série inteira divulga o material da personagem. Não pode romantizar a história, e o seriado traz cenas muito fortes, romantizando o suicídio, como se não houvesse dor e sofrimento nisso. Eu acho uma coisa desnecessária criar uma história e jogar no ar dizendo “o que nós mostramos é certo”. Eu vi a série num momento bom, ainda bem, mas se eu tivesse visto na época da depressão, teria tirado a minha vida, porque é uma série que leva a concluir que não há solução. Ela leva você a querer ter um fim. 
Diálogo – Nesse contexto, você considera importante o papel dos professores, qual o papel da escola?
Ângela – No período em que eu estava em crise, fiquei sem ir às aulas por alguns meses. Perdi muito conteúdo, eu estava em risco de suicídio e precisava ter sempre gente por perto, não para ser vigiada, mas para me sentir amada, cuidar de mim, lembrar os horários da medicação. A escola aceitou que eu fizesse atividades em casa, e esse foi um papel importante. Se a escola vê que um aluno está indo mal nas provas, seria legal ver o porquê. Às vezes não é vontade de não estudar, é vontade de não fazer nada. A escola está aí e prepara para a vida. Então, se você deixa de ir à escola e some, como vai se sentir ao voltar? Acho que a escola precisa acolher o aluno e entender o que ele está passando.
Diálogo – Você acha que, atualmente, os adolescentes conseguem realizar seus sonhos?
Ângela – Eu acho que sim, mas é difícil. Você passa a vida inteira estudando para ter bons resultados nas provas, chega o Ensino Médio, você estuda três anos para o vestibular, e tem gente que ainda faz cursinho. Faz faculdade e espera o emprego. Chega o emprego, querem experiência, então é complicado. Eu acho que a gente tem que ir entrando pelas beiradas para achar um lugar, criar um espaço. Mesmo sendo difícil, com vontade você consegue. Nada é impossível.
Diálogo – O que mais a ajudou na superação da ideia de tirar a vida?
Ângela –
O tratamento é muito bom, é necessário. Uma pessoa que pensa em tirar a própria vida não está bem. Tem algo acontecendo. E ela precisa ser ouvida. A tentação de suicídio não é apenas “eu quero sair daqui”, mas um grito de ajuda. Então, o acompanhamento é importantíssimo. Abre a cabeça para várias coisas. A princípio, você não quer, e depois quer porque lhe faz bem. E também quebra o tabu de que depressão é frescura, que a pessoa está se fazendo de vítima. Cansei de ouvir pessoas falando que eu não tinha amor na família. E amor é o que mais tenho em minha família, mas só quem sofre de depressão sabe do sofrimento, então, é importante abrir a mente, depressão é uma doença, precisa ser tratada. Alguém que está pensando em tirar a própria vida tem que ser cuidado, e a sociedade não faz isso, as pessoas julgam. Tudo bem que você não acredite no que a pessoa diz, mas respeite. Respeite o momento dela e, se não puder ajudar, não influencie, não fale. Se não tiver nada de produtivo para dizer, fique quieto no seu canto. Se for abrir a boca para julgar, não abra.
Diálogo – E o que você está fazendo agora?
Ângela –
Após ter concluído o Ensino Médio, estou estudando para ser médica, assim poderei ajudar e cuidar das pessoas. Também encontrei novamente a vontade de estar na vida, com as pessoas que eu amo e, principalmente, estar comigo mesma, me aceitando do jeito que sou. Continuo com o tratamento, que tem feito grande diferença em muitos aspectos da minha vida, e estou fora do risco de suicídio. Encontrei em mim a força que tenho para superar cada obstáculo, e sou grata por tudo que a vida me proporcionou. Estou me socializando mais com meus amigos, e até namorando. O caminho da superação foi difícil, eu não me arrependo de nada porque tive que passar por tudo isso para me encontrar, me aceitar, e estar onde estou hoje: feliz, viva e fazendo planos para o futuro.
Mãos à obra
Proponha – e partilhe as tarefas:
•    Você já salvou alguma vida? (Pode ser uma planta, um inseto, um animal, a vida humana.). Salvar significa cuidar, cultivar, preocupar-se com a vida, não apenas poupar da morte. Por exemplo: ajudar outra pessoa: ouvindo, conversando, mostrando que se importa com ela, é ajudar a vida a crescer e se desenvolver com qualidade.
•    Escreva como você defenderia alguém que estivesse sofrendo bullying na sua presença.
•    Desenhe ou descreva qual o seu maior sonho. Partilhe em classe e coloque a folha em lugar que você possa ver ou ler frequentemente.

Fonte: Revista Dialogo Janeiro/Março de 2018
Postado por: Diálogo




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