As matrizes da religiosidade

Data de publicação: 07/05/2019

Por, Elói Correia dos Santos *

Diversidade as matrizes da religiosidade brasileira 
A disciplina de Ensino Religioso tem como desafio a implementação de uma disciplina de caráter escolar que objetiva fomentar o respeito à diversidade cultural e religiosa. Mas, como tratar da diversidade religiosa visto que é tão ampla? Quais religiões deveriam ser tratadas para podermos afirmar que estamos respeitando a diversidade? Nesse sentido, sugerimos uma reflexão e uma proposta pedagógica para os professores com relação às quatro matrizes religiosas presentes no Brasil: indígena, ocidental, africana e oriental.
Para o professor e escritor Daniel Munduruku, “nunca somos um só, somos sempre uma pequena multidão que vive dentro da gente buscando formas de compreender nossa passagem por este mundo. Esta multidão age em diferentes direções e nos dão diferentes razões para viver. Não importa muito em que condição social nascemos. Nascer índio ou não índio é apenas um detalhe”. Associação Inter-Religiosa de Educação
A Associação Inter-Religiosa de Educação (Assintec), há mais de 40 anos, vem desenvolvendo atividades de assessoria e prestação de serviço à Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEED/PR) às secretarias municipais no que diz respeito à efetivação da disciplina de Ensino Religioso, com o objetivo de auxiliar no cumprimento das leis vigentes que afirmam que o Ensino Religioso deve favorecer o respeito à diversidade cultural e religiosa e fomentar o repúdio a toda forma de preconceito e discriminação religiosa.
Assim, a Assintec, formada por lideranças de diversas organizações religiosas, tem buscado o diálogo inter-religioso e a criação de espaços de formação para professores e interessados no Ensino Religioso, por meio de cursos, produção de materiais didáticos e visitas pedagógicas aos lugares sagrados de variadas tradições religiosas.
Uma questão levantada pelos pesquisadores da religião e pelos professores nas formações continuadas é como e de que forma se pode garantir o trabalho com a diversidade religiosa na sala de aula? Quantas e quais religiões deveriam ser abordadas e tratadas para podermos afirmar que estamos respeitando a diversidade? Tratar apenas das várias denominações cristãs daria conta dessa diversidade? Trabalhar com as chamadas grandes religiões?
Diante desses questionamentos, a equipe pedagógica da Assintec, juntamente com os responsáveis pelo Ensino Religioso na Secretaria de Estado da Educação do Paraná por meio do Departamento de Educação Básica (DEB), Secretaria Municipal de Educação (SME) de Curitiba e a Secretaria Municipal de Educação (Semed) de Pinhais (PR), concluiu que, reconhecendo a existência de um número imenso de religiões, para dar conta dessa situação precisamos compreender a formação da religiosidade brasileira e pensar a diversidade religiosa a partir da construção histórica do Brasil, considerando essas quatro matrizes religiosas: indígena, ocidental, africana e oriental, na ordem histórica da formação do povo brasileiro.

As quatro matrizes religiosas do Brasil
Nossos pressupostos se definem a partir do próprio território brasileiro e de suas genealogias religiosas. Dito isto, colocamos a questão fundacional: Qual é a primeira matriz religiosa brasileira? Ora, ainda que a religiosidade indígena tenha sido negada pelos primeiros invasores e antropólogos, inegavelmente temos que admitir que a primeira matriz religiosa do Brasil é a indígena.
Os povos indígenas brasileiros em toda a sua diversidade e riqueza cultural possuíam e possuem uma enorme variedade de religiosidades, visto que são muitos povos com costumes e dialetos diferentes. Então, não podemos falar em religião indígena, pois há tantas formas de religiosidade quanto há povos distintos.
Para efetuar uma intermediação entre a academia e a religiosidade dos povos indígenas brasileiros, adotamos o termo religião sem esquecer que o termo não se aplica ao caso estudado em todas as suas nuances e particularidades. Tal identificação não é apenas uma questão de resgate histórico, mas também de alteridade e reconhecimento da importância do xamanismo indígena brasileiro, tanto para esses povos tão massacrados como para a formação da espiritualidade de nosso povo.
A segunda matriz presente no território brasileiro é oriunda da Europa ocidental, pois, ainda que se possa afirmar a gênese geográfica oriental do cristianismo, foi de Portugal e Espanha que o cristianismo católico apostólico romano veio para o Brasil no processo de colonização.
No período colonial e imperial, o cristianismo enquanto matriz religiosa difundiu, por meio das missões jesuíticas e da devoção aos santos e santas, o chamado cristianismo popular. Segundo Leonardo Boff, uma das maiores criações culturais de âmbito religioso no Brasil é representada pelo cristianismo popular, que se tornou uma força impositiva nas comunidades. Assim, colocados à margem do sistema político e religioso, os pobres, indígenas e negros deram corpo à sua experiência espiritual no código da cultura popular que se rege mais pela lógica do inconsciente e do emocional do que do racional e do doutrinário.
A terceira matriz introduzida no Brasil foi a matriz africana, que trouxe nas galeras os negros escravizados, a crença nos orixás e também alguns traços de influência da religião islâmica, entre outras formas de religiosidade praticadas na África. Segundo o pensador brasileiro Gilberto Freyre, a nossa herança cultural e religiosa africana é notória e pode ser percebida no sincretismo religioso entre santos e orixás, e também numa série de elementos da linguagem, da alimentação, dos hábitos e das crenças.
De acordo com Tata Kavinajé, o que chamamos de religião de matriz africana, mais propriamente dita, é o candomblé e a umbanda. Os bantos, depois de um primeiro período de autonomia religiosa, que se conhece através de documentos históricos, assistiram à transformação de seus cultos. Por um lado, esses deram lugar à macumba; por outro, amoldaram-se às regras dos candomblés nagôs, não se distinguindo deles senão por uma maior tolerância. Os cultos bantos em gradativo declínio acolheram os espíritos dos índios, o que iria levar ao surgimento de um “candomblé de caboclos”, e adotaram cantos em língua portuguesa, ao passo que os candomblés nagôs só usam cantos em língua africana.
A quarta matriz religiosa também desembarca nas terras dos indígenas no processo de imigração dos povos orientais, principalmente com os japoneses, mas que posteriormente se expande, ampliando assim o leque de religiões orientais seguidas no Brasil. O budismo desembarca nas terras tupiniquins no início do século 20 e é a organização religiosa mais antiga e numerosa no Brasil, dentre as religiões de matriz oriental. Segundo o Censo de 2010 são 243.966 praticantes no Brasil. O budismo que mais prospera no Brasil é o tibetano, liderado pela sua santidade o Dalai Lama.
Mas não podemos nos esquecer, entre as religiões de origem japonesa, da Igreja Messiânica Mundial do Brasil, que inicia sua trajetória religiosa aqui no ano 1955, e a Seicho-No-Ie, que inicia suas atividades religiosas em terras brasileiras em 1930. Assim como o movimento Hare Krishna originário na Índia e a Fé Bahá’í, de origem persa e cuja comunidade começa no Brasil em fevereiro de 1921.
Respeito à diversidade cultural e religiosa
Existem no Brasil leis e documentos oficiais se referindo ao termo matrizes religiosas, principalmente no que diz respeito às matrizes africana e indígena. Isso se justifica pelo fato de essas matrizes serem as mais discriminadas e até mesmo negadas. Assim, os órgãos competentes criam mecanismos de proteção a essas matrizes religiosas que integram a religiosidade brasileira. Entre outros citamos o Estatuto da Igualdade Racial (Lei no 12.288, de 20/06/2010), que faz defesa expressa do direito à não discriminação das religiões de matrizes africanas.
Outro documento oficial que cita o conceito de matrizes é o Artigo 26 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei 9.394/96, que orienta a oferta de disciplinas e conteúdos para as escolas normais da união, onde subscreve:
§ 4º O ensino da História do Brasil levará em conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, especialmente das matrizes indígena, africana e europeia.
Igualmente, o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3) que afirma na política de educação em direitos humanos a necessidade de construir e valorizar a consciência histórica e a memória da formação brasileira:
“Objetivo estratégico VI:
a) Instituir mecanismos que assegurem o livre exercício das diversas práticas religiosas, assegurando a proteção do seu espaço físico e coibindo manifestações de intolerância religiosa. (...).
b) Promover campanhas de divulgação sobre a diversidade religiosa para disseminar cultura da paz e de respeito às diferentes crenças.
c) Estabelecer o ensino da diversidade e história das religiões, inclusive as derivadas de matriz africana, na rede pública de ensino, com ênfase no reconhecimento das diferenças culturais, promoção da tolerância e na afirmação da laicidade do Estado”.
Assim, tratar das quatro matrizes religiosas que dão origem à rica diversidade de religiões no Brasil, além de implementar o exercício da cidadania e o fomento ao conhecimento e o respeito, amplia nossos horizontes enquanto cidadãos conscientes de seus direitos e deveres numa sociedade democrática e republicana. Em tempos de crises sociais e políticas em âmbito mundial, o estudo e o diálogo inter-religioso aparece como uma possibilidade de superação do grande desafio da humanidade: vivermos juntos em paz com respeito e alteridade.
Referências
FILHO, José Bittencourt, Matriz Religiosa Brasileira. Religiosidade e Mudança Social. Petrópolis: Vozes/Koinonia, Petrópolis/Rio de Janeiro, 2003.
BOFF, Leonardo. O Povo Brasileiro: Um Povo Místico e Religioso. Disponível em: https://leonardoboff.wordpress.com/2014/03/16/o-povo-brasileiro-um-povo-mistico-e-religioso/.
BRASIL. LDB : Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional: 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. – 5ª ed. – Brasília : Câmara dos Deputados, Coordenação Edições Câmara, 2010.
FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. 43 ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.
KAVINAJÉ, Tata Kisaba: O Sacrifício do Povo Africano – Cultura Afro-Americana. Disponível em: . Acesso em 28 de janeiro de 2016.
MUNDURUKU, Daniel. Mundurukando. São Paulo: Editora UK’A, 2010.

* Elói Correia dos Santos
É técnico pedagógico de Ensino Religioso, da Secretaria de Estado da Educação do Paraná, e integrante da Assintec.  E-mail: eloi_correa@seed.pr.gov.br.

Fonte: Revista Diálogo Abril/Junho de 2018
Postado por: Diálogo




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