Símbolos religiosos

Data de publicação: 14/06/2019

Por, Cristiane M. Pereira Bueno *
Alguns anos atrás a Escola Municipal Centro de Educação Integral (CEI) Issa Nacli, em Curitiba (PR), foi presenteada com um cocar. Este símbolo sagrado dos povos indígenas ficou na sala do setor pedagógico em exposição por um bom tempo, mas sabendo da sua importância pedi a permissão da direção para usá-lo em minhas aulas de Ensino Religioso com a turma da Classe Especial. Desenvolvi o planejamento das aulas conforme o currículo municipal de Curitiba, trabalhando o conteúdo símbolos religiosos: simbologia religiosa natural e construída com o objetivo de conhecer alguns símbolos religiosos presentes no seu dia a dia.
Na roda de conversa, expliquei aos alunos sobre a importância dos símbolos em nossa vida. Os símbolos religiosos representam ideias e ensinamentos sobre determinada religião. As religiões usam muitos símbolos para falar de seus ensinamentos e de seus líderes e também vários gestos simbólicos para realizar suas práticas, tais como orações, cantos, saudações, celebrações, entre outros.
A partir da matriz indígena, perguntei sobre o cocar, se o conheciam ou tinham visto aquele objeto alguma vez. A maioria o conhecia de filmes e desenhos e ficaram curiosos para saber o que era e por que estava ali. Nesse momento, contei sobre os xamãs, líderes religiosos, homens ou mulheres, que possuem conhecimentos espirituais desde a infância, os quais aprendem a respeitar e conhecer o seu povo, a sua ancestralidade e, principalmente, a natureza.
O xamã é responsável pela criação e confecção do seu cocar, que exige tolerância e paciência, atributos essenciais do xamã, que precisa aprender a conhecer as estações do ano, esperar a troca de penas dos pássaros e então juntar a quantidade exata para usar na confecção do cocar. Durante esse tempo é colhido cipó para formar o arco e amarrar as penas, um trabalho artesanal e único. O cocar é usado em cerimônias religiosas, festas e rituais da matriz indígena e representa a sabedoria e a espiritualidade.
Essa abordagem foi significativa e bem-sucedida, os alunos interagiram e realizaram atividades pedagógicas para fundamentar outros conteúdos das matrizes que constituem o universo da nossa cultura religiosa brasileira, e que estudaríamos a seguir, construindo saberes partindo de um símbolo concreto.
Nas práticas pedagógicas, apliquei atividades com materiais construídos a partir da estimulação sensório-motora, utilizando símbolos em relevo (utilizando lixa; folhas em E.V.A., e apresentados na escrita em braile) e explorando diversos recursos didáticos ou midiáticos, bem como papel sulfite, giz de cera, tinta guache, massa de modelar, TV e vídeo, importantes no processo de aquisição de conhecimentos.
A inclusão social faz parte da unicidade da inclusão escolar, sendo uma construção permanente de cidadania através do convívio diário e, portanto, uma transformação consciente das atitudes perante o portador de necessidades especiais, observando a relação escola e sociedade como ambientes de convivência mútua de respeito e valorização.
Educação inclusiva
O conceito de educação inclusiva tem a sua gênese na Conferência Mundial de Educação para Todos, promovida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em 1990, na Tailândia, com o intuito de ampliar o conceito de aprendizagem para todas as crianças, jovens e adultos.
A Declaração de Salamanca (1994) impulsiona a educação inclusiva no mundo e é decisiva quanto ao reconhecimento e a urgência da inclusão no âmbito do ensino regular. Surge então a necessidade de rever as bases filosóficas e metodológicas das políticas públicas educacionais para a efetivação da educação para todos.
A interação dialógica no processo ensino-aprendizagem construída no cotidiano escolar inclusivo possibilita a seleção e a organização dos conteúdos abrangidos na prática pedagógica, essa compreensão do Fenômeno Religioso em atividades lúdicas e expressivas auxiliam a decodificação e análise na aquisição de novos saberes, inter-relacionados entre as matrizes religiosas.
Conforme a pedagoga Tania Stoltz, a valorização do aprendizado se constrói a partir do conhecimento do outro, no cotidiano, integrando o pensar, o corpo e o sentimento, é uma intenção única, mas depende do desejo da mudança e do meio em que a envolve. A mediação do professor é esse meio para desenvolver a condição de aprendizagem, oportunizando o aluno na sua formação em um contexto educacional inclusivo determinado às escolhas perante uma sociedade contemporânea com aspectos ainda preconceituosos, impulsionando a escola a rever paradigmas e avaliar novas configurações.
Referências
ASSINTEC. Informativo no 37. Indígenas: religiosidade nativa do Brasil. Curitiba. 2015.
CURITIBA. Currículo do Ensino Fundamental, 2016.
UNESCO. Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (Corde). Declaração de Salamanca de princípios, política e prática para as necessidades educativas especiais. Brasília: CORDE, 1994.
STOLTZ, Tania; WEGER, Ulrich. O pensar vivenciado na formação de professores. Educ., ver., Curitiba, n. 56, p. 67-83, 2015.

Fonte: Diálogo n 90 Abril/Jun 2018
Postado por: Diálogo




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

PAPEL DA LIDERANÇA no desenvolvimento humano
Na atualidade, constata-se uma fragilidade de lideranças que sejam referenciais, pois os parâmetros de conduta são estipulados por interesses alheios, especialmente por aqueles que se arrogam o direito de dirigir e controlar o agir do outro.
Violência e indisciplina no ambiente escolar
Nas duas últimas décadas, verifica-se significativo avanço da violência no contexto internacional e brasileiro, desvelando um cenário que se manifesta em diferentes espaços e contextos.
Hoje não tem prova, tem jogo
A educação atual passa por uma crise de valores, práticas pedagógicas e formação docente, o que causa nos professores um enorme desgaste emocional.
Sintonia escola família
Um dos principais desafios enfrentados pelo Ensino Religioso é a falta de conhecimento claro de sua identidade e objetivo, por parte dos familiares dos alunos que, não raro, temem ver seus filhos alvos de discriminação ou de proselitismo.
Música na escola
“Um povo que sabe cantar está a um passo da felicidade” – disse Villa-Lobos.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados