Seres míticos da cultura Amazônica

Data de publicação: 04/10/2013

Os colonizadores trouxeram para o Brasil o imaginário popular da Europa medieval. Com os africanos vieram personagens míticos de diversas tradições e o contato entre as etnias branca, negra e indígena criou um imaginário popular brasileiro, que, na Amazônica, enraizou-se no ambiente fantástico da floresta milenar. O resultado deste processo cultural é vivo nas cidades, nas vilas e entre as populações ribeirinhas, a começar pelo nome da região.

As Amazonas

 Existe uma lenda grega de mulheres guerreiras, habitantes das margens do Mar Negro, ao norte da Ásia Menor. Eram chamadas Amazonas, que em grego arcaico significa desprovidas de seios, devido à atrofia do seio direito, em vista do uso de arco e flecha. A lenda espalhou-se pela Europa e veio para o novo mundo na bagagem cultural dos colonizadores. Em 1541, o conquistador espanhol Francisco de Orellana, atraído pelo mito da Cidade de Ouro, navegou floresta a dentro pelo rio Dulce e encontrou uma tribo de mulheres guerreiras na altura em que hoje é a divisa dos estados do Pará e do Amazonas. Imediatamente a tripulação lembrou a conhecida lenda, passando a chamar o grande rio de rio das Amazonas. A tradição indígena da região conta que as mulheres todos os anos convidavam os homens das tribos vizinhas para uma festa lunar com ritos de fertilidade e os presenteavam com estatuetas de cerâmica. Os referidos amuletos existem em museus, mas nunca foram encontrados vestígios que confirmem a existência da tribo feminina.

A Cobra Grande

Conta-se na Amazônia que uma tribo indígena afogou no rio uma mulher que devorava crianças recém-nascidas. Tempo depois, saiu do rio uma cobra imensa com olhos de fogo, que passou a vagar pela floresta e pelas águas, devorando todo ser vivo que encontrasse. Uma variante da lenda diz que a cobra dorme enroscada por debaixo das cidades grandes, como Belém e outras. Quando acordar e sair do ninho, a cidade afundará para sempre. Em Roraima a Cobra Grande é a protetora do rio Branco. Ajuda aos que pescam para sobreviver e castiga os predadores e os que não respeitam as águas.

A lenda das cidades submersas é viva na Europa do norte e em outras culturas do. Também cobras gigantescas que habitam as profundezas da água ou da terra aparecem em diversas narrativas míticas de muitos povos. No Egito, a serpente primordial Apep, vivia enroscada no fundo da terra. Na mitologia de Benin, na África, o sol e a lua são sustentados no céu pela gigantesca cobra Aido-huvedo. Uma tradição da Austrália diz que a grande cobra Yurlungur dormia em uma nascente de água. Duas jovens a acordaram e ela, irada, provocou o dilúvio. Na China os Lung Wang eram deuses-serpentes habitantes dos rios, que puniam quem desperdiçasse a água. No leste e no norte da Europa, a serpente do mundo chama-se Jormungar. É imensa, vive no fundo do mar e seu corpo enroscado sustenta a terra para que não afunde. No xintoísmo do Japão há a narrativa do casamento de Benten, deusa da música, com a enorme serpente que habita o fundo do oceano. Os monstros que aterrorizaram os antigos navegadores, são seres híbridos como os dragões marinhos ou Cila, a serpente grega com cabeça de cão. Nascem do encontro da grande cobra primordial com seres fantásticos que povoam o imaginário universal.

O Mampiguari

O Mampiguari é um gigante peludo que tem um só olho no meio da testa e vaga pela Amazônia durante o dia. Imita o assobio dos caçadores que se aventuram por regiões virgens da floresta, os atrai e os devora com sua enorme boca que chega quase até a cintura. Ao anoitecer ele se recolhe a seu abrigo.     

A literatura clássica tem um famoso gigante de um olho só, é o ciclope Polifemo, de A odisséia de Homero. Devorou os companheiros de Ulisses que entraram em sua ilha e na caverna onde ele costumava dormir à noite. Outro gigante guardião da natureza é Adamastor, de Os Luzíadas de Camões. Atacava os navios da Europa que tentavam entrar no oceano índico à procura de novas rotas para as Índias. Vê-se nos três gigantes um ponto em comum: a vigilância sobre territórios virgens da natureza e a punição de quem tenta explorá-los.

A Iara

A Iara, também conhecida na Amazônia por Ipupiara, Uiara ou Mãe d'água, é uma jovem que atrai os homens para o fundo do rio. Os poucos que voltam falam de homens encantados que servem a Iara em seu palácio. Só uma pajelança poderosa pode acordar o sobrevivente do fascínio do reino submerso. Em algumas regiões diz-se que a Iara tem na testa uma estrela que hipnotiza os homens. Acredita-se também que ela é peixe da cintura para baixo, ou que usa um vestido para dar a ilusão de ser metade mulher, metade peixe. Em certos locais a Iara é tida como o boto-fêmea. Em outros ainda, pensa-se que seja a própria Cobra Grande, disfarçada. É também confundida com Iemanjá, a Mãe dos Mares da tradição afro-descendente. Há porém diferenças: Iemanjá é rainha da água salgada e protege os pescadores, enquanto a Iara reina na água doce e atrai os homens para a morte.

A versão clássica mais próxima da Iara é a sereia oriunda da cultura européia. A Odisséia de Homero descreve a luta de Ulisses contra o fascínio do canto das sereias, na costa da Itália. Os assírios cultuavam Derketo, divindade lunar: mulher-peixe que protegia a fauna marinha. Os celtas do norte europeu temiam a sereia Moruadh: de cabelos verdes nariz vermelho e olhos de porco. Na Rússia, temia-se a Rusalka: uma jovem que morreu afogada e, com seu canto atraia os homens para o fundo do rio. Um mito da Finlândia conta que a deusa Aino foi dada em casamento ao deus Vãinamoinen, mas em vez de se casar, preferiu jogar-se em um pântano e viver em forma de sereia.

O boto

A lenda do boto tem variantes regionais mas o núcleo principal é a conquista de mulheres. Ele assume forma humana e se infiltra nas festas, e nas casas. Quando uma mulher concebe uma criança de pai desconhecido, a paternidade é atribuída ao boto. O boto é um animal gentil que salva os náufragos das embarcações.

Na mitologia grega, Posêidon, deus dos mares, apaixonou-se pela nereida Afítride e quis levá-la para o fundo do oceano, mas a jovem teve medo e fugiu para as grutas do monte Atlas. Dois golfinhos a convenceram a aceitar o convite e a conduziram de volta ao deus marinho, que se casou com ela e gerou um filho: Tritão, metade homem, metade peixe. Em recompensa aos golfinhos Posêidon os fez imortais. A variante romana da narrativa diz que os golfinhos salvaram a vida de Vênus e de seu filho Cupido, que eram perseguidos pelo gigante Tifon, durante a guerra de Júpiter contra os gigantes.

O curupira

Curupira é um anão coberto de pelos, com cabelo de fogo e pés virados para trás. Protege os que respeitam a natureza, enquanto pune os que a agridem. É o primeiro personagem mítico que aparece em registro escrito no Brasil. Padre Anchieta, por volta de 1560, cita-o em suas cartas ao falar das crenças dos índios. Inclusive uma figura muito semelhante povoa tradições indígenas de toda a América Latina.

Entidades protetoras das florestas são comuns em praticamente todas as culturas do mundo. Pensando-se na matriz européia pode-se lembrar os faunos e os sátiros greco-romanos: pequenos seres portadores de membros humanos e animais. Os duendes e os gnomos do norte da Europa, também são criaturas pequenas que zelam pelas florestas. Na China diz a mitologia que o deus Panku, criador da natureza, trazia chifres e era de baixa estatura e coberto de pelos.

As lendas e mitos amazônicos podem ocasionar ótimos projetos interdisciplinares que envolvam com o Ensino Religioso, outras disciplinas como literatura, história, artes, geografia, comunicação e expressão.



Amazônia em prece

Ó Terno Espírito
Que contas à brisa suave nas folhas
Segredos do céu!
Conheces a voz de cada criatura
Contemplas e amas
O canto da vida que a grande floresta
Compõe para ti!

Gorjeiam as aves
Murmuram teu nome o cantar de cascatas
Deslizam os rios espelhos do sol!
Caminham suaves
Estrelas nos olhos
As feras da noite
Teu passo a escutar!

Cobertas de flores
As árvores sábias
Mil anos passados inclinam-se ao vento
Enxergam no céu tua luz teu olhar!
Humildes plantinhas no solo das matas
Só querem que as vejas.
Maduros balançam aos cachos os frutos
E esperam por ti
Que os colhas e does a todos os seres
Que vivem aqui!

Escuta os segredos Espírito amigo
De seres humildes
Que não sabem falar
Mas tão inocentes
Não queimam não cortam
Não ferem não punem
Só querem viver!
Não deixes que a vida
Imensa ou pequena
Se torne ferida!

Inspira os pajés anciãos e aldeias
Assiste cidades as vilas e casas
Protege os cardumes os ninhos e os bandos
Que os filhos das matas humanos ou não
Não sejam caçados expulsos feridos
E a Mãe-Amazônia embale os filhotes
Proteja as crianças
Não cale o cantar!

Julieta Costa






Fonte: Diálogo 44 - Out/2006
Postado por: Diálogo




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