Entre filmes e músicas

Data de publicação: 22/04/2014

É comum ficarmos assustados diante da pergunta sobre como abordar o fenômeno religioso com os alunos. Pensamos imediatamente no ambiente hostil que iremos encontrar: alunos descrentes, ou que condenam a prática religiosa, ou que acham “caretas” os que dizem pertencer a uma religião. O desconforto diante da postura dos professores, colegas nossos de diferentes denominações religiosas, tal como os educandos. Professores descrentes de nosso trabalho, céticos em relação à importância do ER (Ensino Religioso) como disciplina. Não raro, há também os que têm opinião formada e acreditam num ER “salvador”, capaz de converter os alunos ou quem sabe melhorar a disciplina; quanto a isso há concordância também, muitas vezes, entre diretores de escola e pais. Outras, também diretores de escola e pais reagem a um ER baseado ainda em dogmas, em alguma religião – proselitista.

Ficaríamos horas fazendo um levantamento de posturas acerca do ER, do seu papel... Mas a pergunta era: “Como abordar o fenômeno religioso na escola?” Quero propor algumas variações a esta questão, a fim de que possamos melhor compreendê-la, bem como o papel a ser desempenhado pelo ER na escola.

1ª variação: Como reconhecer o fenômeno religioso na escola?

Pais, professores, alunos, funcionários, enfim, toda a comunidade educativa, têm diferentes visões acerca do papel do ER na escola. A que devemos tais diferenças? De forma objetiva, podemos dizer que elas se dão devido a várias cosmovisões, isto é, as pessoas têm diferentes visões de homem/mulher, mundo/sociedade e de Deus/Transcendente. Tais posturas, na maioria das vezes, não são explicitadas; no entanto, se fazem presentes nas práticas de cada um.

É importante que a comunidade educativa se pergunte sobre sua visão de Deus/Transcendente. Tal visão está impregnada da experiência pessoal, muitas vezes, ligada a uma experiência advinda de uma prática religiosa.
 
Então é preciso reconhecer o fenômeno religioso na escola e não as religiões presentes na escola. Reconhecer que há diferentes experiências religiosas, o con­texto plural. Reconhecer que todas elas, embora diferentes, trazem para aquele que as vivencia a grata experiência do sentido.
 
Para além da compreensão, outro ganho que a comunidade educativa pode ter ao conversar sobre sua cosmovisão é, sem dúvida, a clareza na ação. Se compreendemos a visão que temos de Deus/Transcendente, podemos assumir um consenso que possa definir a postura conjunta da direção, dos professores e funcionários diante do desafio de educar para a Transcendência, sobretudo, no ER. Até mesmo o papel do ER se tornará mais claro a partir do momento em que a escola conseguir chegar a esta definição, por conseguinte, também o trabalho junto a alunos e pais se tornará mais efetivo.

2ª variação: Como ouvir – e falar pouco – sobre o fenômeno religioso na escola?


Considerando a pluralidade e, consequentemente que, ainda que queiramos e por melhores, que, sejam as nossas intenções, não damos conta das diferentes experiências religiosas feitas pela comunidade educativa, mais do que falar sobre o fenômeno religioso, talvez tenhamos que aprender a ouvir, ou seja, permitir que tais experiências sejam explicitadas não seria este o papel do ER na escola? Possibilitar e permitir que os educandos compreendam suas próprias experiências religiosas, percebam sua singularidade e, através da troca de vivências sejam capazes de identificar as diferentes experiências, reconhecer o outro?

3ª variação: Quem vai reconhecer  o fenômeno na escola, ouvir os alunos e ajudá-los?


A resposta parece óbvia: o professor. Gostaria de questionar tal obviedade, parece que nada mais é óbvio nestes dias em que vivemos. Salientamos que este papel será desenvolvido pelo professor em sala de aula, este é seu lugar. A sala de aula é, sem dúvida, o espaço privilegiado da aprendizagem, no entanto, há de se salientar, não é o único. A aprendizagem se dá em toda a escola e envolve todos os seus membros, do que decorre o termo Comunidade Educativa. Assim, é preciso que se tenha claro que cabe a toda a escola tornar-se espaço/tempo de relações onde caibam as perguntas pelo sentido, bem como a possibilidade da diferença na resposta.

Bem, então todos nós nos perguntaremos, antes a nós mesmos, sobre o sentido, sobre os porquês, sobre por que buscamos algo que nos transcenda e como o manifestamos – fenômeno religioso.

A título de iniciação a este processo, quero propor aqui pequenas análises, passíveis sempre de complementação, de filmes e músicas que possam permitir a sua reflexão pessoal e, quem sabe, tornar-se um instrumento para o seu trabalho em sala de aula. Importante perceber como a arte cinematográfica e a música, expressões humanas, tocam com sensibilidade e muita profundidade o fenômeno religioso, manifestando a necessidade humana da busca.


Aprendendo a ensinar

O filme Náufrago:

Um homem, escravo do tempo-relógio, sofre um acidente de avião, naufraga. Tem consigo alguns pacotes, que estavam também no avião que caiu. Neles encontra vários objetos aos quais transforma em utilidades. Uma bola de vôlei, no entanto, lhe parece inútil. Um dia, tendo machucado uma das mãos, a qual sangrava, num acesso de raiva o homem pega a bola e a atira longe. Mais tarde, na mancha vermelha formada na bola, desenha olhos, boca, nariz e dá um nome a esse seu “amigo imaginário”: Wilson, o qual estará com ele pelo resto dos dias em que permanece na ilha, é o confidente, é quem lhe “dá” as respostas de que necessita, é em quem deposita sua confiança e com quem partilha sua esperança...

Trabalhando com filmes:

1. O(A) professor(a) se prepara:
• Assistir ao filme duas vezes, se deixe tocar, sentir, apreciar. Busque percebê-lo como instrumento para a aula, como os alunos o verão: dificuldades de interpretar, perguntas que poderão levantar, enfim, dados para perceber o que pesquisar.
• Compreender o filme buscando um referencial teórico, neste caso, o filme sugerido pode ser interpretado a partir das chaves de leitura fornecidas pelos artigos.

2. O filme vai à sala de aula:
• Algumas questões metodológicas precisam ser pensadas:
• Em que temática  este filme se encaixa?
• Que faixa etária poderá melhor compreendê-lo? (neste caso, para alunos do ensino médio).
• De que tempo disponho?
• Para utilizar um tempo comum outros professores, de que forma podemos tornar a abordagem interdisciplinar?

Música:  Titãs
CD: Jesus não tem dentes no país dos banguelas - Música título.
CD: A melhor banda de todos os tempos da última semana - Música: Daqui pra lá.
CD: Cabeça Dinossauro – Música: Igreja.

1. O professor se prepara:
• Ouça as músicas, há uma visão de Deus, da Igreja. Que visões são estas?
• Leia criticamente as letras, levante dados.
• Busque compreendê-las como expressão religiosa.

2. A música vai à sala de aula:
• Leve uma ou duas para a garotada de 7ª série em diante (Jesus não tem dentes no país dos banguelas, por exemplo, nesta idade já conseguem entender bem a metáfora).
• Letra em mãos. Assim poderão cantá-la, fazer um karaoke.
• Prepare questões para discussão, mas deixe o clima, permita que cantem, sintam, se expressem através das músicas. As questões devem ter como ponto de partida o sentimento deles em relação a elas, no que ajudam a se expressar.
• Traga informações complementares a partir das discussões com as turmas.
• Varie: você pode solicitar aos alunos que tragam letras e CDs sobre o tema. Importante que você também as ouça antes, respeitando o tempo da sua preparação.

Fonte: Diálogo 25 - Mar/2002
Postado por: Diálogo




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