Uma releitura em busca do sentido da vida

Data de publicação: 18/09/2014

Viviane Cristina Cândido*

A busca pela transcendência pode se manifestar na vivência das tradições religiosas ou por meio da religiosidade.

Conversando com nossos alunos, podemos nos surpreender com a quantidade de relatos indicativos da manifestação religiosa: a famosa oração antes da prova, a expectativa de que Deus ajude, mesmo aquele que não estudou; os relatos de participação em celebrações de duas ou mais confissões religiosas, num momento de aflição; a busca pelos cristais, runas, tarô, hoje acessíveis em shopping centers ou na Internet.

Difícil compreender tais fenômenos, para tanto precisamos focar o olhar atento para a especificidade do ER ­(Ensino Religioso). Nossa abordagem precisa se diferenciar daquela das ciências, cabe nos tratar este fenômeno como manifestação da busca do Transcendente. 

Uma cosmovisão


Toda tradição religiosa procura dar respostas para as “grandes questões”: de onde viemos? Para onde vamos? Qual o sentido da vida? As respostas dadas pelas tradições e descritas em seus textos sagrados ou oralmente dão origem a práticas celebrativas, posturas e condutas éticas. Esses elementos definem uma tradição religiosa.

Cabe ressaltar, entretanto, que essas respostas partem, por sua vez, de uma cosmovisão, ou seja, de uma visão de homem/mulher, mundo/sociedade, Deus/Transcendente. Também é assim do ponto de vista da religiosidade.

Por trás de cada ação ou posicionamento, religioso ou não, há concepções que, em última instância, são responsáveis por uma ação e não outra, um posicionamento e não outro, uma religião e não outra.

É importante que se converse sobre tais concepções, pois, como já disse, elas são geradoras de nossa ação e é preciso que, cada vez mais, tomemos consciência disso, especialmente na escola, considerando que neste ambiente estamos em relação o tempo todo e atuamos diretamente na formação humana. Muitos conflitos são originados da falta desta explicitação.

No ER as diferentes concepções ficam especialmente evidenciadas nas expectativas que pais, alunos, coordenadores, diretores e professores têm em relação aos “resultados” desta disciplina, daí a necessidade de termos clara sua caracterização.

O ER é área de conhecimento, tendo como objeto de estudo o fenômeno religioso. Deve partir da experiência individual, porém sem perder de vista as experiências acumuladas pela humanidade e transmitidas e vividas pelas tradições religiosas. Assim, esta disciplina não pode ficar restrita ao levantamento das experiências dos alunos nem tampouco à história das religiões como algo acabado. As experiências individuais, bem como as coletivas, institucionais, precisam ser relidas em sala de aula para que possam contribuir com a busca do sentido da vida.

Um importante ponto de partida para este trabalho pode ser a reflexão sobre a imagem de Deus, do Transcendente, que alunos, pais e educadores já trazem consigo, formulada por suas experiências  e vivências pessoais.
Na escola, tal reflexão, oriunda da experiência e da cosmovisão de cada um e por pretender colaborar para  o aprimoramento desta vivência, bem como do seu entendimento, exige que o ER esteja inserido no Projeto Pedagógico.

Como área de conhecimento, seus conteúdos, sua didática e avaliação devem merecer espaço no currículo, no qual está estabelecida a essencialidadede de todas as áreas. Como elemento integrante da filosofia da escola, a qual expressa a intencionalidade da mesma, é importante esta inserção para que também o ER possa contribuir na reflexão e ação rumo à concretização dos melhores sonhos por uma escola democrática e formadora de cidadãos conscientes e educados em valores e para a convivência.

Aprendendo a ensinar


Partir da experiência do aluno significa abrir espaço para um “não-sei-bem-oquê”, visto que não sabemos exatamente o que receberemos em troca. Existem dois pressupostos que nos ajudarão a direcionar o trabalho:
• Ao partir das experiências de religiosidade dos alunos, estamos reconhecendo o contexto plural em que nos encontramos.
• Não há nada nem ninguém que possa afirmar uma dessas experiências como a verdade da busca, pois para a pessoa que a vivencia é sempre verdadeira, carregada de sentido, e isto vale para as experiências ligadas ou não a uma religião.
Um ponto de partida pode ser a questão da imagem de Deus que cada pessoa carrega.




A imagem que tenho de Deus, do Transcendente:

Infantil, 1ª e 2ª séries


A criança está centrada no eu. A visão do Transcendente que está formando vem daquilo que apreende dos pais; a criança está “traduzindo” o que lhe é passado e desse modo ela não vai reproduzir o que eles dizem, mas demonstrar como compreende isso.
O importante nesta etapa é ajudá-la a exteriorizar essa visão, para que possa percebê-la em conjunto com a visão dos outros. Isso pode ser feito através de  desenhos ou do uso de massinhas. A continuidade do trabalho consistirá em desmistificar, através de vivências lúdicas, conversas e historinhas, essas visões, por exemplo a de Deus como aquele que castiga, que impõe medo.



3ª a 6ª séries


Neste estágio, a criança e o pré-adolescente têm uma capacidade maior de se relacionar. A visão deles do Transcendente remete às experiências vividas na escola, seja através das aulas de ER ou através dos colegas.
Podem ocorrer discussões a partir de um fato, história, vídeo, dramatização ou música, que provoquem direta ou indiretamente a reflexão sobre a pergunta formulada. A continuidade consistirá em ampliar as visões, orientando-os para perceberem as diferenças e respeitá-las.





7ª série ao Ensino Médio


Os adolescentes e jovens encontram-se na fase de busca de sua identidade, disso decorre a negação das imposições, demonstram uma recusa em acreditar no Deus/Transcendente imposto, a postura de abertura ao diálogo, por parte do(a) educador(a), é fundamental.
Para a reflexão, pode-se contar com vídeo ou música, mas é importante buscar sínteses, aprofundando o conhecimento. Torna-se útil fazer pesquisas sobre as tradições religiosas  e discutir sobre elas, promovendo, posteriormente, debates, seminários, apresentados sob a forma de dramatização ou de vídeos produzidos pelos próprios alunos.
Pode-se sugerir um tema a ser visto na perspectiva das diferentes religiões, por exemplo A mulher nas tradições religiosas. As pesquisas vão levantar como é o tratamento dado a elas pelas diferentes religiões (veja alguns dados na seção Você sabia). Estudar ritos de passagem, nascimento, puberdade, morte, também nesta perspectiva. Assim, não caímos num estudo linear e enfadonho da história das religiões e acrescentamos ainda à discussão o ponto de vista ético e social, elemento constitutivo das tradições religiosas.


*Filósofa, pedagoga, com especialização em Teologia para o ER, mestranda em Educação, professora do curso de especialização em ER na Unisal (Universidade Salesiana), assessora pedagógica em escolas e cursos para formação de professores do ER e  assistente pedagógica da revista Diálogo.

Fonte: Diálogo 26 - Mai/2002
Postado por: Diálogo




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