A força sagrada da palavra no mito e na lenda

Data de publicação: 10/11/2014

Francisca Eleodora Santos Severino*



Entre os diferentes povos – nações indígenas, grupos africanos, imigrantes europeus – que construíram a cultura popular brasileira e ainda hoje compartilham dessa construção, a palavra tem força sagrada. Esse traço comum marca também a presença de brancos europeus que trouxeram para cá a tradição cristã em que se lê: “A palavra se fez carne e habitou entre nós”.

Exemplos disso podem ser observados no mito Kaapor/gavião e no mito  de Ogum. Para brancos, negros e índios, cada qual no seio de suas raízes culturais, as palavras merecem respeito, porque trazem, bem escondidinho entre elas, uma força capaz de construir ou destruir, de alegrar ou entristecer, de abençoar ou amaldiçoar uma pessoa ou uma comunidade. Esse caráter mítico das palavras merece, na cultura popular, reverência e respeito, facilmente perceptíveis nas lendas e mitos regionais.

Maíra – um mito indígena

Darcy Ribeiro, antropólogo brasileiro, colheu junto aos índios que moram no estado do Maranhão, no momento de pajelança, fragmentos míticos que reiteram o consenso tribal sobre a preferência de Maíra por seu povo. Mas quem é Maíra?

“A morada de Maíra é para o sul, depois do segundo rio grande, longe. Ninguém pode ir lá. Os moradores de lá não morrem: quem morre vai lá. Os Karaiwa podem passar pelo lugar, que não veem nada. Só os Kaapor antigos podiam ver. Para chegar à morada de Maíra, tem de passar um grande rio, quando a canoa vai aproximando não pode andar mais porque a água vira borracha e por mais que se reme, ela não anda. A pé também não vai. A areia prega os pés da gente e não deixa andar mais. Quem vai morre ali sem poder sair. Gente que vai lá vira pedra. Chega à margem do rio, grita para Maíra (...). Maíra corta uns paus, assim (pedaços pequenos) e joga na água, quando boiam já é gente Kaapor e Karaiwa: eles querem nadar para o lado de Maíra, mas ela não deixa, tem que vir para o lado de cá.

Quando havia pajé bom, muita gente ia até a casa de Maíra: o pajé cantava, fumava cigarros grandes, depressa eles chegavam lá. Agora não há mais pajé e quase ninguém pode ir lá. Só gente bem morena de cabelo preto liso pode ir para casa de Maíra. Os brancos não podem ir lá; quando chegam, Maíra os manda sentar e eles viram bancos de pedra.”

Ogum: sabedoria e generosidade

Para os africanos, o mito é uma narrativa sagrada ligada à memória de sua origem e, consequentemente, aos fundamentos da identidade individual e grupal. Entre os iorubas, há uma narrativa de acordo com a qual, “Ogum estava no Orum, vivia muito insatisfeito. Por isso, resolveu vir para o Ayé. Essa decisão levou-o a consultar Ifá, a fim de saber o que poderia ser feito quando chegasse à terra, para ser um homem forte, bem-sucedido e famoso. Ele pretendia, através de seu conhecimento, ensinar muito aos habitantes do Ayé. Recebeu a resposta de que conseguiria tudo o que desejava, desde que fizesse um ebó para afastar obstáculos de seu caminho. Então providenciou todos os elementos solicitados e os entregou ao Babalaô. O Babalaô fez ebó, aumentando-lhe a força vital. Ogum então iniciou sua viagem ao Ayé. Quando chegou, tudo em que punha mão dava certo. Com seu facão, limpou a área e plantou inhame e milho; teve muito sucesso na sua colheita e sua casa era farta de comida. Seus vizinhos foram beneficiados por sua imensa generosidade. Dava comida, ensinava as artes de forjar o aço, de como caçar sem agredir a natureza, en­sinava guerrear e principalmente o segredo relativo à plantação. Por essa generosidade, chamavam-no Ogum Oníre e cantavam ‘Oh! Ogum, oh! Rei de Ire, tudo o que há no mundo pertence a ele. Oh! Grande Ogum, que construiu uma casa e nela não colocou porta para que todos pudessem entrar’.”

São Sebatião: o santo padroeiro

A luta entre portugueses e franceses pela conquista da Baía de Guanabara fez surgir uma das lendas mais bonitas da história do Rio de Janeiro, a lenda de São Sebastião, padroeiro da cidade.

 “Em 1556, Francisco Velho, prefeito da cidade, saíra com alguns companheiros numa canoa, em busca de madeira para a construção da capela de São Sebastião. Os franceses e os tamoios, embarcados em 180 canoas, estavam escondidos na baía, prontos para atacarem os portugueses. Ao verem a canoa de Francisco Velho, resolveram armar-lhe uma cilada. Enviaram algumas canoas para atrair o prefeito. Francisco Velho saiu em sua perseguição. Estácio de Sá, que observara da terra a investida do inimigo, partiu em auxílio do prefeito. Fugiram então os índios perseguidos pelos portugueses. De repente surgiram as 180 embarcações do inimigo, cujos guerreiros começaram a atacar os portugueses. A desvantagem era enorme: para uma canoa portuguesa, 30 dos inimigos. Os franceses e tamoios já se julgavam vencedores, mas os portugueses combatiam estimulados por Francisco Velho que gritava: ‘Vitória por São Sebastião!’ Súbito, incendiou-se a pólvora de uma das canoas dos tamoios e houve explosão. Ocorreu então um grande tumulto entre os índios que, não se sabe por que, fugiram atemorizados. Os portugueses, que esperavam ser vencidos pela maioria esmagadora do inimigo, ficaram surpresos com o acontecimento. Correu logo a notícia de que tinha havido um milagre. Isso foi confirmado pelos indígenas que declararam ter visto durante o combate um jovem e belo guerreiro com armadura refulgente, saltando de canoa em canoa para atacar os tamoios sem ser atingido por flechas. Logo que voltaram à terra, Francisco Velho, Estácio de Sá e seus companheiros correram à capela rústica, que estavam construindo, para render graças ao santo padroeiro. Diante da ajuda milagrosa dos soldados, que os portugueses não tinham visto, tornou-se crença geral que São Sebastião descera do céu para auxiliar os católicos e defender sua cidade.”

A relevância pedagógica das  lendas e mitos


A importância das lendas no desenrolar da vida do povo brasileiro é marcada pela popularidade que goza nas diferentes regiões do País, confundindo-nos a tal ponto que mal conseguimos saber de onde vêm.

Para muitos estudiosos, lendas populares são consideradas veículos de significações falaciosas. Desse ponto de vista, dizer que um evento é lenda equivale a dizer que ele não ocorreu; entretanto, para os povos de tradição oral ou para a cultura popular, as lendas assumem um significado distinto e muito positivo porque contribuem para a formação moral. Sem temer a aparente simplicidade das palavras que ordenam a mensagem religiosa, o povo tem na lenda suas bases de realidade e de práticas cotidianas que formam um arca­bouço cultural muito peculiar. Por isso, as lendas assumem grande importância como produtoras e reprodutoras de solidariedade social, constituindo-se, quando bem compreendidas, em instrumentos de formação pedagógica e cultural.

A narrativa, embora muito simples, remete o ouvinte ao universo mítico e é impregnada de mistério religioso, constituindo-se, antes de tudo, no principal elo de comunicação entre pessoas de diferentes orientações religiosas. Ao desencadear sentimentos de reverência, respeito e amor pelo sagrado desconhecido, a narrativa lendária favorece a sociabilidade entre os diferentes grupos, firmando sua identidade como gênero humano.

*Mestra em Antropologia pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo, doutora em Comunicação pela ECA/USP (Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo) e professora de Educação, Cultura e Sociedade, no Curso de Mestrado em Educação, da Universidade Católica de Santos (SP).

Fonte: Diálogo 31 - Ago/2003
Postado por: Diálogo




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