Sexualidade e cultura religiosa

Data de publicação: 09/03/2015


Seus alunos sorririam incrédulos ao saberem que as primeiras intuições religiosas foram permeadas de sexualidade? E se soubessem que as primeiras intuições sexuais pertenceram à esfera da religiosidade? Surpreenda-os com o conhecimento das raízes sexuais e religiosas da cultura humana.

Os clãs matriarcais e patriarcais
Há mais de 400 mil anos, no Paleolítico Inferior, pela primeira vez as mulheres se agruparam a fim de cuidar da prole e escavaram a terra usando a estaca, em busca de raízes. Os homens quiseram se integrar e só os que aceitavam colaborar foram aceitos no grupo. Nasciam, assim, os clãs matriarcais. Em uma primeira intuição religiosa, o ventre da gestante foi identificado com a lua, tida como ser transcendente. O homem temia o poder feminino de dar à luz, sinal de ligação com a lua, e a mulher pôde exercer funções mágico-religiosas de cura, de domínio da técnica do fogo e de liderança no clã.
A partir de 200 mil anos, no Paleolítico Médio, os clãs matriarcais deram lugar aos patriarcais. Surgiram a lança, a flecha e o arpão, e o homem aprendeu a caçar. Os animais totêmicos, o urso, o bisonte, o mamute, o leão e outros, foram considerados seres transcendentes. O manejo das armas, os rituais mágicos de caça e os banquetes sagrados foram reservados aos homens, que assumiram funções de xamãs e chefes.

Civilizações teocêntricas
Por volta de 10 mil anos atrás, no Paleolítico Superior, começou a agricultura, e alguns clãs do Oriente Médio abandonaram a vida nômade, fundando as primeiras povoações. Com a atividade agrícola, o deus-sol superou a lua e, já no Período Neolítico, há menos de 7 mil anos, nas primeiras civilizações, a lua e os animais totêmicos ocuparam o lugar de deuses auxiliares. O mitraísmo persa, exclusivamente masculino, pode ter sido o mais direto herdeiro dos ritos religiosos das cavernas.

A sexualidade nas teologias

Com as civilizações, as religiões se organizaram e as teologias conservaram extratos de crenças dos clãs. No Egito, os deuses secundários, Osíris, Ísis e Hórus, que constituem uma família de pai, mãe e filho, são figuras totêmicas, cuja primazia foi ocupada pelo deus-sol, Rá, o protetor do faraó.
Também em outras civilizações os deuses totêmicos, auxiliares da lua, deram lugar a deuses solares masculinos ou se tornaram seus consortes:
• Os fenícios cultuavam o sol Baal. Astarte, deusa lunar da fertilidade, foi feita esposa de Baal.
• Na Babilônia, a deusa lunar Ishtar, foi submetida a Shamash, deus-sol.
• Na Índia, Agni, deus do fogo, foi subordinado a Brahma, o sol emanador.
• No taoísmo chinês, yin é a energia masculina luminosa, ativa e ligada ao sol, enquanto yang, a força feminina, é passiva, obscura e regida pela lua. 
• Na Grécia, o casal Gea e Urano – céu e terra – foi suplantado pelo sol, Zeus.
• Na Pérsia, o deus Mitra, filho da lua, exportado para Roma em forma de Sol Invictus, substituiu Átis, o deus romano lunar.
• No judaísmo, Moisés encontra Deus no Sinn’ai, a montanha da lua. A festa de Peshá, o banquete totêmico do cordeiro protetor do clã de Jacó, comemora-se sempre na lua cheia.
• Na Grécia, os deuses e deusas do Olimpo casam-se e têm filhos, brigam por amor, ciúmes, traição, enfim, são regidos pelas energias da sexualidade. A deusa Hera, esposa do deus-sol Zeus, é protetora da família, da gestação e do parto. Mas a lua é Artemis, uma deusa-mãe primordial, feita virgem pela teologia grega.
• Os etruscos, ancestrais dos romanos, veneravam Lares, a deusa do fogo, da gestação e da família. As lareiras foram, no passado, altares domésticos chamados larários. Uma criança nascida em lar etrusco era levantada pelos braços do pai, durante a noite, em direção à lua. Caso fosse indesejada e não houves­se intenção de criá-la, era devolvida à lua, pelo ato de abandoná-la sobre a terra.  
• No islã, os sacerdotes são chamados Beni Say Bah, que significa “Filho da Velha Mulher”, uma alusão direta às sacerdotisas da lua.


Raízes de sangue da família no Brasil
Costumes grotescos destroçaram valores e aviltaram o amor, a família e a infância, nas origens do povo brasileiro. 
• Os índios eram exterminados em guerras, enquanto suas esposas e filhos, confinados nas reduções (no esforço desesperado dos Jesuítas de salvá-los do extermínio), morriam de fome.
• Quase não havia mulheres brancas no Brasil, no século 16. Os brancos amancebavam-se com índias e aviltavam a ética familiar indígena.
• Entre a população escrava, o casamento era proibido. As pessoas se amasiavam e tinham filhos, mas eram vendidas e brutalmente separadas.  
• Os brancos violentavam as mulheres negras, com intenção de “produzir crias” para a escravidão.
• Entre as raras famílias brancas, o casamento tinha motivos socioeconômicos e, muitas vezes, as “senhoras” eram adolescentes, casadas com homens maduros. Morriam no parto, não conseguiam amamentar ou não sabiam cuidar de uma criança. Tarefa, então, exigida das mães escravas, que amamentavam o bebê da senhora, enquanto o seu próprio filho era confiado a mucamas.
• Não raro, os filhos do senhor – herdeiros e crias – formavam o grupo de “moleques” da casa, alvo do carinho das mães-pretas. Esta foi a sorte do menino que seria o futuro imperador dom Pedro I. Passou a infância, sem cuidados nem educação adequa­da, solto pelas matas que cercavam o palácio, no meio dos outros moleques. 
• Em suspeita de atração entre a senhora e um homem negro, uma punição comum era extirpar os órgãos genitais do homem e cobrir a ferida com sal.  Após longo suplício, enterrava-se o homem vivo.
• Em muitas cidades brasileiras, quase até o fim do século 19, em certos orfanatos havia a roda dos enjeitados, onde eram depostos os bebês nascidos de adultério ou “crias” indesejadas na casa. As poucas crianças a sobreviver no orfanato eram vendidas com menos de 10 anos de idade.     



“Desperta-cabeças”

• Promover a leitura e a compreensão de um dos temas citados. 
• Organizar grupos e distribuir tiras de papel kraft e pincel atômico.
• Pedir que cada grupo discuta o tema lido e sintetize as impressões em uma frase, que pode ser afirmação, negação, pergunta, repúdio etc.
• Em plenário, deixar que cada grupo apresente e justifique a frase que escreveu.
• Rasgar as tiras de papel, separando sílabas ou palavras e misturar umas às outras.
• Reorganizar grupos e distribuir os fragmentos das tiras, para que sejam montadas novas frases. 
• Em plenário, apresentação das novas frases, relacionando-as com os textos lidos.

Trabalho pessoal

Refletir e escrever:
• O que descobri ao estudar esses temas?
• Que importância tais descobertas têm para mim?
• O que isso tem a ver com a sociedade na qual eu vivo?
• O que a minha religião ensina a respeito de sexualidade, amor e família?

Fonte: Diálogo 47 - AGO/2007
Postado por: Diálogo




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Da resistência à consciência
No Dia Nacional de Luta Contra o Racismo, faz-nos lembrar que a escola deveria ser um espaço privilegiado de reconhecimento
Songkran – Ano-Novo tailandês
O termo sânscrito songkran significa passar ou mover-se, de fato a festa simboliza um recomeço inerente à passagem de ano
Mostra Cultural das Religiões
Respeitar a diversidade cultural religiosa ainda é um grande desafio às populações do mundo inteiro
Mãos abertas uns para os outros
Como os indígenas administram o que têm, isto é, o seu sistema econômico,nas selvas tropicais de nossa América
A liberdade tem rodas
A capoeira do Brasil, uma das mais importantes e eficazes estratégias de resistência dos africanos à violência escravista
Início Anterior 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados