Juazeiro do Norte

Data de publicação: 23/04/2015

  O espaço sagrado e multicultural em Juazeiro do Norte

As peregrinações constituem um fenômeno universal, o homem percebe-se como eterno peregrino, à procura do paraíso perdido, buscando Deus, a caminho da Pátria Eterna. Toda civilização tem seus lugares de peregrinação, em que a pessoa se sente em paz, com a certeza de estar num espaço sagrado, onde se dá a convivência feliz e fraterna que normalmente não existe em outros lugares.
Santuários são locais de peregrinação, aos quais as pessoas se sentem atraídas, pois acreditam que neles o divino se comunica. Para as três religiões monoteístas, judaísmo, cristianismo e islamismo, Abraão é o pai na fé e foi o primeiro a peregrinar de sua terra para um lugar de promessa, desse modo Jerusalém é um local sagrado para essas tradições, ao lado de outros, como o Monastério de Jetavana, em Saravasti para budistas, e Benares para o hinduísmo, ambos na Índia.

Padre Cícero e os romeiros
No catolicismo as peregrinações são chamadas romarias, termo originado na Europa por volta do século 12, quando os peregrinos iam a Roma venerar as relíquias dos santos e obter indulgências nos Anos Jubilares. No Brasil uma das principais romarias é a de Juazeiro do Norte (CE), onde os romeiros veneram o túmulo de Padre Cícero.
Cícero Romão Batista nasceu em 24 de março de 1844, no Crato, aos pés da Chapada do Araripe, sul do Ceará. Em 1889, quando era capelão em Juazeiro, a hóstia consagrada transformou-se em sangue ao ser dada à beata Maria de Araújo. O fato, analisado exaustivamente, foi visto por uns como sobrenatural e por outros como fraude. Ao mesmo tempo, ele trouxe a Padre Cícero admiração e sofrimento, perseguição e injustiça. O povo, porém, passou a vê-lo como santo ainda em vida.
Após a morte do padre, as peregrinações intensificaram-se em Juazeiro do Norte. Mas quem são os peregrinos? De onde vêm? O que buscam? São crianças, jovens, casais, famílias, trabalhadores do campo e das cidades, vindos dos estados nordestinos e de outras regiões, católicos com raízes na piedade popular marcada por uma simbologia religioso-cultural ligada à devoção aos santos, promessas e bênçãos para tudo. Nessa prática, misturam-se crenças antigas dos índios, dos africanos e da piedade portuguesa, enriquecida com folclore.
As romarias antecedem a formação de comunidades em Juazeiro e atraem retirantes da seca ou das enchentes, desabrigados e desclassificados, com uma espiritualidade marcada pelo transitório e pela passagem da vida em vista da eternidade. Na mente e no coração, os peregrinos conservam a utopia de Antonio Conselheiro: instalar o Paraíso na terra.


Da preparação à chegada no espaço sagrado
A peregrinação inicia-se no momento em que se acerta o modo e o dia da viagem ou se reserva o alojamento em Juazeiro do Norte. Os peregrinos vivem a expectativa da chegada com antecedência e muitas vezes, ao partirem, despedem-se na Igreja, com a bênção do pároco. O caminho é feito com fé e oração e os cânticos e benditos antigos ou novos, em ritmo nordestino, relembram o Padrinho de Juazeiro.
As visitas seguem um verdadeiro ritual de penitência, humildade e fé. Os peregrinos passam pelas Igrejas matriz de Nossa Senhora das Dores e do Perpétuo Socorro, onde se encontra o túmulo de Padre Cícero, depois sobem ao horto, local em que o “padrinho” costumava rezar. A fé do peregrino é tátil, além de ver, ele quer tocar o objeto sagrado. Seus distintivos são o chapéu de palha e o rosário de contas azuis e brancas ao pescoço. Na casa da Mãe das Dores todos choram os sofrimentos, renovam as esperanças e cantam o que sentem. A peregrinação torna-se uma festa e faz com que os devotos se abram à reconciliação com Deus, consigo e com os outros. Um momento de muita emoção é a despedida ao meio-dia, na Igreja matriz, presidida pelo bispo que relembra os cuidados para a viagem de volta. Na ocasião, um dos benditos faz memória do ensinamento do “Padim Ciço”: “Quem roubou não roube mais. Quem matou não mate mais”. As despedidas são feitas de promessa e de compromisso.
Juazeiro do Norte recebe peregrinos ao longo do ano e, especialmente, nos dias 2 de fevereiro, festa de Nossa Senhora das Candeias; 20 de julho, aniversário da morte do Padre Cícero; 15 de setembro, Dia de Nossa Senhora das Dores, padroeira da matriz; e no Dia de Finados. A devoção ao Padre Cícero está nas casas e nos espaços públicos, e monumentos a ele encontram-se nas praças e em outros locais. Enquanto a Igreja não autoriza sua imagem no altar, o povo se reúne publicamente para rezar e cantar diante de sua estátua.


O ambientalista do vale verde

Educação ambiental existe no fértil Vale do Cariri, no Ceará, desde 1872, quando Padre Cícero Romão Batista chegou a Tabuleiro Grande: um povoado de 30 casebres e uma capelinha de taipa dedicada a Nossa Senhora das Dores. Ao ver o sofrimento do povo com a seca que dizimou mais de 100 mil pessoas em 1887/88, Padre Cícero iniciou uma educação popular que desenvolveu o povoado e deu lugar a Juazeiro do Norte. Orientou o artesanato em couro, fibras e argila, conseguiu a abertura de escolas públicas e chegou a criar animaizinhos de estimação para presentear as crianças quando se aplicavam ao estudo. Comprou terras em nome próprio, para que ninguém expulsasse os que nelas viviam em sistema coletivo de trabalho e partilha, e orientou os agricultores: 
Não derrube o mato, nem mesmo um só pé de pau;
Não toque fogo no roçado, nem na caatinga;
Não cace mais e deixe os bichos viverem;
Não crie o boi nem o bode soltos; faça cercados e deixe o pasto descansar para se refazer;
Não plante em serra acima, nem faça roçado em ladeira muito em pé; deixe o mato protegendo a terra para que a água não a arraste e não se perca a sua riqueza;
Faça uma cisterna no oitão da casa para guardar a água da chuva;
Represe os riachos de 100 em 100 metros, ainda que seja com pedra solta;
Plante cada dia pelo menos um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou outra árvore qualquer, até que o sertão todo seja uma mata só;
Aprenda a tirar proveito das plantas da caatinga, como a maniçoba, a favela e a jurema; elas podem ajudar você a conviver com a seca;
Se o sertanejo obedecer a estes preceitos, a seca vai aos poucos se acabando, o gado melhorando e o povo terá sempre o que comer, mas, se não obedecer, dentro de pouco tempo, o sertão todo vai virar um deserto.
A ação social não impediu a Padre Cícero o cuidado espiritual das pessoas. Além de acolher doentes, pobres e todos os que o procuravam e cumprir outras atividades de sacerdote, ele reunia o povo ao pôr do sol para rezar e explicar o Evangelho. Quando foi proibido pelo Vaticano de celebrar missa, passou a só participar, indo receber a comunhão das mãos de outro celebrante como o mais humilde dos romeiros. 
A simplicidade que igualou Padre Cícero aos pobres escondia sua cultura e conhecimento da política nacional e internacional, que ele acompanhava pelos jornais. O acervo de seus escritos guarda cópias de mais de 100 cartas, algumas enviadas a líderes mundiais como o rei da Bélgica, o kaiser da Alemanha e o czar da Rússia, entre outros. Uma delas se dirige ao presidente Epitácio Pessoa e condena a venda de terras na Amazônia ao capitalista norte-americano Henry Ford, em 1927.
Nos últimos anos, despojado pela Igreja do ministério sacerdotal e tendo voltado para a ação política em favor dos pobres, Padre Cícero acompanhou os movimentos latino-americanos em confronto com o colonialismo dos Estados Unidos, como se vê nas cartas que escreveu a Augusto César Sandino, o líder revolucionário da Nicarágua.

Manoel Henrique de Melo Santana *
É mestre em Ciências da Religião e sacerdote da Arquidiocese de Maceió (AL).

Falecido em 20 de julho de 1934 aos 90 anos de idade, o Patriarca foi conduzido por 70 mil pessoas ao jazigo que se tornou lugar sagrado de romarias e de sonhos de um mundo melhor e de onde os romeiros hoje saem levando uma muda de Juazeiro para plantar em seus quintais.

Referências bibliográficas
HOORNAERT. Eduardo. O cristianismo moreno do Brasil. Petrópolis. Vozes. 1991.
NEGRÃO, Lísias. Et alii. A religiosidade do povo. São Paulo. Edições Paulinas, 1984.
SANTANA, Pe. Manoel Henrique de Melo. Padre Cícero do Juazeiro: Condenação e exclusão eclesial à reabilitação histórica. Maceió. Edufal, 2009.
WALKER, Daniel. Padre Cícero: O Conselheiro do Sertão. Juazeiro do Norte (CE), 2004.



Fonte: Diálogo 61 - FEV/2011
Postado por: Diálogo




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

O segredo das grandes águas
Uma aldeia Kaingang vivia à margem de um sereno rio que os índios chamaram Iguaçu (grandes águas).
O Bricoleur sagrado contemporâneo
Pelo menos 26% da população brasileira adulta já passou por uma conversão religiosa.
Da resistência à consciência
No Dia Nacional de Luta Contra o Racismo, faz-nos lembrar que a escola deveria ser um espaço privilegiado de reconhecimento
Songkran – Ano-Novo tailandês
O termo sânscrito songkran significa passar ou mover-se, de fato a festa simboliza um recomeço inerente à passagem de ano
Mostra Cultural das Religiões
Respeitar a diversidade cultural religiosa ainda é um grande desafio às populações do mundo inteiro
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados