Elos do carnaval celebração

Data de publicação: 02/02/2016

De modo geral, tendemos a buscar nas grandes celebrações as formas mais explícitas do Sagrado. Por isso, é nos cortejos e festas que o Sagrado nos parece vivamente representado: aí nos deparamos com a fulguração do divino, a expansão dos devotos, a excelência dos ornamentos – aspectos que desenham os contornos de uma ação dramática, capaz de atrair a nossa atenção tanto por seus traços devocionais quanto por sua função estética. Contudo, a complexidade do Sagrado obriga-nos a analisar as implicações decorrentes do modo como ele é vivido e das múltiplas faces que assume na sociedade. Ou seja, o Sagrado está presente nos círculos sociais vinculados à experiência religiosa, mas nem por isso deixa de transcender esses círculos para instaurar-se noutras esferas em que dialoga, de maneira complexa, com o profano.
Veja, por exemplo, as atividades que, dotadas de interesses claramente econômicos, permeiam as festas em louvor aos santos padroeiros. Nesse cenário, os devotos tanto cumprem seus compromissos religiosos, quanto se beneficiam dos objetos vinculados ao Sagrado que o comércio local explora. Por outro lado, em meio a um enredo profano (como um congestionamento numa grande cidade), o Sagrado irrompe sob a forma de uma medalha que o motorista prende no para-brisa de seu carro. A partir daí, tem-se algo mais que um automóvel, já que um símbolo sagrado transforma-o no pequeno lugar de culto e meditação do devoto.

Carnaval: entre o Sagrado e o profano


Os vínculos entre o Sagrado e o profano podem ser observados, numa perspectiva mais densa, em práticas sociais como o carnaval, cujas origens, articuladas de diferentes maneiras em várias culturas, acentuam o sentido polimórfico que o caracteriza. O carnaval, por causa da dimensão ritual, inaugura um tempo específico para a sua manifestação. Trata-se do tempo cíclico, que rompe a linearidade do tempo histórico e possibilita uma reconstituição – ainda que passageira – do universo social através de novas regras. Essas regras invertem e transgridem as que vigoram no cotidiano e são responsáveis pela instauração de uma teia heterogênea de relações e significados. Isso quer dizer que, de antemão, é necessário pensar o carnaval a partir de sua pluralidade, fato que abre espaço para os conflitos e ne­gociações entre os valores do Sagrado e do profano.
Assim sendo, um recorte sobre as práticas carnavalescas nos remete ao mundo cristão da Idade Média. Sob o arco dessa ordem social, o carnaval se caracterizava como um período de festas profanas, geralmente iniciadas no Dia de Reis (Epifania), que se estendia até a Quarta-feira de Cinzas, quando se dava início aos jejuns da Quaresma. Nesse carnaval da Idade Média já se mesclavam elementos de culturas populares – indicando a afluência das camadas menos favorecidas aos festejos – e traços re­manescentes das antigas festas em honra dos deuses gregos Saturno e Dio­nísio.

O carnaval brasileiro
No tocante ao carnaval brasileiro, os estudiosos têm sido recorrentes ao afirmar que seus traços começam a ser pontilhados a partir das brincadeiras do entrudo. Pintores como Jean-Baptiste Debret registraram essa manifestação que, durante algum tempo, foi assimilada ao próprio carnaval. No entanto, as práticas terminaram por estabelecer a diferença entre um e outro, ou seja, enquanto o entrudo – em particular entre a população carioca – consistia numa série de brincadeiras e folguedos (tais como ensopar os transeuntes com água, farinha e fuligem), o carnaval passava a se constituir, ao longo dos anos, como um conjunto de cortejos, batalhas de confete e serpentina e bailes à fantasia.
O que se observa, desde então, é a multiplicidade de formas carnavalescas que passam a dar voz e vez a diferentes expressões culturais no Brasil. Desde os antigos cordões e ranchos, passando pelas escolas de samba (tão em voga em centros de destaque como o Rio de Janeiro e São Paulo) até chegar aos foliões, que acompanham o ritmo do frevo no Recife (PE) ou dos trios elétricos em Salvador (BA), descortina-se um mosaico cultural que nos permite ver nas festas de Momo algo mais do que a celebração do profano como resposta aos preceitos do Sagrado.

Um produto de consumo
A interferência dos meios de comunicação de massa vem transformando o carnaval numa espécie de produto programado para atender ao gosto de determinados consumidores. Paralelamente, toda uma lógica industrial – que tem na cultura a sua referência inicial – se desenvolve para dar suporte aos consumidores e meios de retransmissão maciça da festa de Momo. Isso ocorre, principalmente, com uma certa modalidade de expressão carnavalesca, em particular aquela representada através dos desfiles das grandes escolas de samba. Porém, sob um ponto de vista mais amplo, essa situação não pode ser apreendida apenas como um processo de corrosão dos carnavais tradicionais. Há muitos aspectos envolvidos nessa questão e, na impossibilidade de discuti-los em deta­lhes, limitamo-nos apenas a enumerá-los.
Assim, se a massificação do carnaval altera as formas tradicionais das brincadeiras de rua, alijando as camadas menos favorecidas da participação nos desfiles milionários – cria, também, novas relações sociais através de uma indústria que, sustentando esse carnaval, gera postos de trabalho que garantem o sustento de inúmeras famílias. Por outro lado, se as formas tradicionais (como a produção de músicas específicas para o carnaval) se dissipam, levam consigo certas experiências da vida social brasileira; porém, quando são recuperadas e reinseridas na contemporaneidade, colocam em evidência os esforços que os indivíduos e a sociedade fazem para construir suas identidades no espaço das tensões entre o passado e o presente.
Sob esse aspecto, é interessante considerar o carnaval, de ontem e de hoje, como um prática social que vai além das expressões públicas que presenciamos, como uma técnica da negociação e do conflito, do desvelamento e do ocultamento de sentidos. Daí, a conformação de festa que ele, inevitavelmente, assumiu desde sempre. Só na festa a efervescência, o frenesi, o excesso e a transgressão podem tocar e, simultaneamente, se afastar da serenidade, do repouso, da economia e da ordem.
Na festa do carnaval, o diálogo entre os opostos representa o ser humano em sua integridade fragmentada e em sua fragmentação “cosida” pela integridade. Por conta dessa experiência paradoxal é que o Carnaval revela no folião o devoto e, no devoto, o brincante. No decorrer dos desfiles das grandes agremiações, quando os meios de comunicação captam, em plano geral, a massa de anônimos e, em close, os personagens famosos do mundo do espetáculo estão, de fato, captando uma fração do carnaval. O que se vê, então, são as cenas rápidas que nos remetem para a diluição do desejo, para a anulação do sentido da transcendência e para a dispersão dos projetos que priorizam a alegria como um fator de bem-estar e de justiça social. Nesse passeio de câmeras sobressai o gesto efêmero, o consumo do tempo e a redução do corpo à condição de mercadoria.
Simultaneamente, todavia outro carnaval se desdobra dentro do carnaval do consumo. Quando, por exemplo, o passista dança mais para si do que para o público, buscando o movimento perfeito, capaz de torná-lo tão criador quanto aquele que o criou; quando o músico mancha com o seu sangue o instrumento, imolando-se para que a escola seja bem-sucedida; quando a porta-estandarte e o mestre-sala umedecem com suor a bandeira de sua agremiação; ou quando, no início do desfile, um folião faz o sinal-da-cruz pedindo força aos céus para cumprir sua missão de alegria e sacrifício, nesses momentos de intimidade em meio à multidão, o Sa­grado atravessa com seus enigmas o coração das pessoas. E o carnaval já não é somente espetáculo, mas, intrinsecamente, rito, tempo e lugar de questionamento de nossas experiências e ponte entre diferentes realidades culturais.

* Edimilson de Almeida Pereira
Poeta, professor no Departamento de Letras da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), doutor em Comunicação e Cultura na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), mestre em Ciências da Religião (UFJF) e autor de livros e artigos sobre as representações sociais da vida religiosa, particularmente nas áreas rurais

Fonte: Diálogo 33- FEV/ 2004
Postado por: Diálogo




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