A Física do simples

Data de publicação: 18/08/2016


Por: Maria Inês Carniato

 “Quando eu era jovem, muitos séculos atrás...”, costuma dizer rindo, o sociólogo nonagenário mundialmente lido, citado e seguido, Zygmunt Bauman, quando quer mostrar as diferenças entre as gerações da primeira metade do século 20 e a do século 21.
 
O sonho do jovem
Banido da terra natal, a Polônia, em 1968, por ser judeu, Bauman foi para a Inglaterra a convite da Universidade de Leeds, e lá dirigiu o Departamento de Sociologia até se aposentar, em 1990. Os 25 anos seguintes, ele aplicou em escrever, falar em eventos no exterior e receber em casa os jornalistas, estudantes e intelectuais do mundo inteiro que o procuram. Sem cerimônias, indo e voltando entre a cozinha e a biblioteca,  ele serve pessoalmente aos visitantes petiscos e chá, enquanto fala com fluência estonteante sobre o passado, o presente e o futuro da humanidade, à luz de uma sociologia humanista e interdisciplinar.
A desenvoltura com bandejas, bules e xícaras talvez se explique pela vida familiar simples e aconchegante da qual sempre fez parte: “Fui criado na cozinha”, diz o lúcido ancião, que completa 90 anos no dia 19 de novembro de 2015. Ao falar em suas memórias afetivas, imediatamente surge a mãe, criativa e dotada de grande imaginação, que ela aplicou no lar e na família, o único espaço de influência acessível a uma mulher judia esposa de um operário, na Polônia das décadas de 1920 e 1930. 
Natural de Poznan, uma cidade com mais de mil anos de sólida tradição cultural e política, e refugiado com os pais no interior da Rússia aos 14 anos de idade, no começo da 2ª Guerra Mundial, o jovem Zygmunt lutou muito por seus ideais. Queria ser físico e cursou dois anos de faculdade por correspondência, porque na Rússia os estrangeiros eram proibidos de habitar as cidades grandes, onde havia universidades. Fascinado pelos mistérios do universo, desejava dedicar a vida ao estudo da Física, mas o sonho sofreu um corte brusco, quando, aos 18 anos, em plena guerra, ele foi  requisitado para a divisão polonesa das forças soviéticas.
No exército, o jovem conheceu a ideologia marxista e a adotou com convicção. Com a vitória da Rússia e o fim da guerra, em 1945, ele pôde voltar para a Polônia e encontrou a pátria devastada pela destruição e a miséria. Decidiu então ser sociólogo e participar da reconstrução da sociedade do pós-guerra, renunciou ao conhecimento do universo para conhecer os seres humanos, engajando-se no marxismo humanístico nascente na Universidade de Varsóvia, onde ele se entregou de corpo e alma ao novo projeto de vida.

O pai de família 
Foi no auditório da Universidade de Varsóvia, em 1946, pouco antes de dar baixa do exército, que o jovem Bauman conheceu a estudante de Jornalismo Janina, filha de um renomado cirurgião. Quando a viu, soube na mesma hora que não precisaria mais procurar nada nem ninguém para sua vida, confidencia o apaixonado marido, passados mais de 50 anos de cumplicidade, respeito e amor; ao que ela completa, justificando seu correspondente fascínio imediato: “Ele era um lindo capitão do exército”. Casados em 1948, ambos seguiram suas carreiras profissionais, ela como jornalista e produtora de cinema; e ele como sociólogo, e tiveram três filhas,  a primogênita, Anna, e as gêmeas Lydia e Irena.
Tudo foi bem, até 1968, quando o estado comunista polonês promoveu uma perseguição ao judaísmo e a família Bauman precisou migrar para Israel. Três anos depois, Bauman recebeu o convite da Universidade de Leeds e foi para a Inglaterra, onde se naturalizou. Conforme foi se projetando no mundo da Sociologia, as principais universidades inglesas tentaram atraí-lo, mas ele optou por continuar em Leeds por amor à família, como confidencia Janina: “Ele nunca procurou fama, e nós já havíamos nos mudado demais no passado”. 

A visão do sociólogo
Na Inglaterra é tradição dar um filhote de cachorro para as crianças, no Natal. Mas a vida desses mascotes, antes estimada em 15 anos, agora pode não passar de três meses, porque muita gente os abandona na rua em janeiro, quando as crianças se cansam de cuidá-los. Exemplos como este, citado no livro A Arte da Vida (Rio da Janeiro: Zahar, 2009, p. 23) para falar da ausência de ética e de compromisso que determinam os comportamentos na sociedade atual, são abundantes nos escritos, palestras e entrevistas de Bauman. Para o professor Ian Varcoe, seu colega na Universidade de Leeds, ele mede e observa a sociedade do ponto de vista dos explorados e oprimidos.
É assim que o sociólogo e filósofo humanista e interdisciplinar cita de memória as últimas estatísticas sobre o facebook, liga tudo aos pensadores, cientistas e escritores de todos os tempos, e, no mesmo nível, cita testemunhos de pessoas humildes ou cenas a que ele assiste em suas andanças internacionais. E demonstra visível mal-estar quando é aplaudido ou, com modéstia, que não o aplaudam.
Certos críticos da Sociologia contemporânea acusam Bauman de pessimista. Ele argumenta que o pessimismo verdadeiro é o silêncio, é não tomar atitude alguma, na ilusão de que nada mais pode ser feito para mudar a sociedade que aí está.

A palavra do conselheiro 
A visão global da sociedade elaborada por quase um século de vida confere ao velho sociólogo a autoridade de alguém que vê horizontes e encontra estradas para a humanidade, para as nações e para o cotidiano das pessoas. Falando no II Festival das Religiões, em Florença, na Itália, em maio de 2015, ao lado do historiador e antropólogo polonês Stanislaw Obirek, Bauman desenvolveu o tema Diálogos sobre Deus e sobre o homem, no qual começou analisando o papel das religiões e acabou por aconselhar o “caminho certo” para todos os seres humanos.
“Aproximamo-nos de uma transformação das grandes religiões, a convivência as transformará. A Teologia prefere colocar perguntas antes que dar respostas e também a Sociologia tem essa visão. O importante é elaborar a pergunta, mesmo que não saibamos responder. A pergunta nos leva a sair à procura da resposta. A resposta é a maldição da pergunta, é isso que fazem os teólogos sobre Deus, a intenção é a de penetrar o mistério. Mas a grandeza de Deus transcende a nossa mente, o nosso poder intelectual e a nossa capacidade.”
     “É uma questão dupla, temos hoje muitas estradas, caminhamos lado a lado na crença, e o futuro dessa situação será a prática cotidiana de pessoas que se encontram e aprendem a viver uma ao lado da outra em uma sociedade multicultural. Isso não é uma expressão ideológica, é uma realidade, um dado empírico nas cidades. O conceito de  multiculturalismo é ideológico, enquanto a multiculturalidade é prática. Cada cultura tem direito de ser conservada e propagada justamente por ser outra, a causa do direito de existir é a diferença. Não se interessar pelo outro é uma indiferença, é a receita para impedir o diálogo.”
“Quando queremos um verdadeiro diálogo, é preciso ter mão dupla. Deve haver disposição dialógica, aprender e ensinar. Não somos multiculturais com a indiferença pelo outro, cancelando no facebook o que não concorda comigo. A consequência lógica da multiculturalidade é o diálogo”.
Quem, na adolescência, sonhou ser físico porque se viu fascinado pelo universo distante, na juventude soube redirecionar o sonho, motivado pelo sofrimento dos que viviam ao seu lado. Só assim Bauman conseguiu ver tudo desde dentro e desde cima, como nenhum equipamento da Física lhe mostraria, fazendo-se mestre de tudo o que é simples, humano e essencial, daquilo que espera a humanidade além da ciência e da tecnologia.

Livros:
A Arte da Vida. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio da Janeiro:  Zahar, 2009.
Identidade. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
Liberdade. Tradução de Silvana Perrella Brito. Santo André: Academia Cristã, 2014.


        Praça do Mercado em Porzan, cidade natal do sociólogo

Fonte: Diálogo 80- Out/Dez 2015
Postado por: Diálogo




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