Sabedoria Centenária

Data de publicação: 14/10/2016

Sabedoria centenária

Aos 101 anos, a professora Ida Ragghianti conta, com paixão por sua profissão, sobre o tempo em que a charrete a levava até os alunos para compartilhar o saber
                         
Por: Karla Maria

Aprender a ler, descobrir o mundo escondido atrás de cada palavra e número e redescobrir sentidos e histórias faz parte, sem dúvida, das experiências mais marcantes e libertadoras na vida de um ser em alfabetização. Foi assim na vida desta repórter, que enxerga no ensinar um ofício sagrado, que contém em si o mistério de conduzir o aprendiz pelos caminhos do conhecimento, da sabedoria, da vida.
Entre tantas histórias possíveis de serem contadas e compartilhadas sobre o ofício de ensinar, descobrimos a de Ida Ragghianti Cordeiro Silva Mayra, uma professora aposentada de 101 anos de idade que vive em Franca, uma cidade de cerca de 340 mil habitantes no interior de São Paulo.
Ela nasceu em Ribeirão Preto (SP) em 29 de novembro de 1914, filha dos italianos Rosalva e Cristóvão e irmã de nove meninos. Ida guarda em si traços de uma professora exigente, daquelas que acompanham as lições e anotações da repórter sob o olhar amparado pelo fiel par de óculos e uma catarata.
A nossa conversa aconteceu em sua casa, na sala de piso de madeira, casa de avó. “Não sei se vou me lembrar de muita coisa. São mais de 100 anos, não é?”, revela assim meio preocupada. Usando um vestido florido em tons de nude e verde, estava sentada em uma cadeira confortável e estava rodeada por porta-retratos que estampavam fotos com os sorrisos da família: os dois filhos, Renan e Marcos, os sete netos e sete bisnetos.
Começamos falando de sua infância e juventude. Lembrou que quando menina brincava bastante de casinha na casa dos amiguinhos, mas que seu desejo maior era ser professora e já treinava sendo boa aluna no Grupo Escolar Guimarães Júnior, localizado na região central de Ribeirão Preto. O pai, é verdade, não gostara muito da ideia de ver a filha escrevendo. “Ele achava que eu ia mandar cartas de namoro”, conta Ida, divertindo-se sobre o começo de seus tantos anos de vida.

O sonho de estudar e ser professora

“Ah, menina ainda, casei porque ele era bom, mas o que eu queria mesmo era estudar mais e ser professora”, confidenciou, olhando com seus olhos verdes arregalados. Era 1936 quando aos 22 anos se casou com Lafaiety Cordeiro. Com 23 anos teve seu primeiro filho, Marcos. Aos 24, o segundo: Renan.
Antes, contudo, aos 18 anos, em 1932, passou a dar aula como professora normalista, realizando seu sonho de infância. “Eram bons alunos, bem comportados, muito obedientes. Respeitavam muito”, revela, destacando que com a chegada dos filhos não abandonou a profissão, ao contrário. “Eu tinha sempre alunas que me ajudavam a cuidar das crianças, então não tinha problema.”
“Acredito que dona Ida era vanguarda no seu tempo. Imagine, naquela época as moças só pensavam em se casar e ter filhos, e ela não, queria lecionar. E, mesmo depois de casada, continuou dando aulas”, acrescenta uma de suas noras, ao acompanhar a entrevista, a advogada Keila Pereira.
Ela se lembra do nome dos grupos escolares em que lecionou. É uma lista longa, mas o que guarda mesmo de experiência e faz questão de contar com detalhes são de suas aulas nas fazendas de café. Lá, crianças com idades entre 7 e 12 anos a aguardavam para serem alfabetizadas. Eram, na sua maioria, filhos de imigrantes que chegavam da Europa para refazerem suas vidas.
Para chegar até seus alunos nas fazendas da região, Ida percorria seis horas por dia de charrete. “Era muito longe, andávamos de charrete improvisada o dia todo, mas valia a pena, porque quando chegava lá estavam esperando a professora para aprender”, conta Ida.
E a professora aposentada descreve como eram seus alunos: “Eram educados, me respeitavam. Hoje em dia dizem que os alunos estão mal-educados, mas isso aí também tem que vir de casa, sabe, do berço.

A valorização do professor

Ida também falou da valorização do professor, ou melhor, da falta disso. “Nós nunca tivemos um salário mínimo digno e acho que precisávamos ser mais considerados.”Atualmente no Brasil o salário dos professores segue a Lei do Piso (lei 11.738/2008), que estabelece o valor mínimo a ser pago aos profissionais dessa actegoria com formação de nível médio e jornada de 40 horas semanais. O reajuste é feito anualmente e está em 1.917,78 reais.
Esse valor é muito abaixo da média mundial, conforme o relatório Education at a Glance 2015: Panorama da Educação, da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), a principal fonte de informações comparáveis sobre educação no mundo, que oferece dados sobre a estrutura, o financiamento e o desempenho de sistemas educacionais de 46 países.
No relatório há a informação de que a média de salário inicial para professores da pré-escola entre os países da OCDE é mais do que o dobro do que os professores ganham no Brasil, e a diferença cresce nos níveis mais elevados de educação.
“Os salários iniciais dos professores no Brasil também são menores do que em outros países latino-americanos – como Chile, Colômbia e México – para todos os níveis educacionais, desde a Pré-Escola até o Ensino Médio”, revela o estudo.
É também por isso que greves de professores e alunos salpicam pelo País, exigindo melhorias nas condições de trabalho e consequentemente no ensino dos alunos, no que diz respeito sobretudo à rede pública de ensino.
No Brasil, segundo o mesmo relatório, para os anos iniciais do Ensino Fundamental, 73% das despesas correntes são destinadas à remuneração de pessoal. A porcentagem está abaixo da média dos países da OCDE, que é de 79%. O texto diz ainda que um padrão semelhante se repete nos anos finais dos ensinos Fundamental e Médio.
“Embora não haja uma relação direta, esses valores podem refletir o nível dos salários dos professores dessas etapas de educação no Brasil. Salários iniciais para professores com qualificação mínima são os mesmos para cada nível, desde a Pré-Escola até o Ensino Médio, e estão entre os mais baixos para todos os países da OCDE com dados disponíveis”, informa o texto.

Professora para sempre

“É lamentável que a situação continue assim”, comenta Ida, que exerceu sua carreira por 34 anos. Ela ficou viúva em 1972. Nas últimas eleições, em 2014, votou amparada pelo seu filho, tornando-se notícia nos sites da região. “Achei que tinha o direito como brasileira de votar. Isso é exercer minha cidadania.” Votou e não revela em quem.
Atualmente ela vive naquela casa grande com jardim florido acompanhada de três cuidadoras: Dalira da Graça Lima, 66 anos, Maria Luiza de Lima, 75, e Mayra Maria Terra, 41. “Elas conversam comigo e, como saio pouco, me trazem as novidades da rua”, Ida.
A rua, Ida visita diária e lentamente em suas caminhadas. Tem muleta, mas não a usa com frequência, ao menos enquanto a reportagem estava por lá. Adota uma alimentação normal. Adora macarronada e sempre – sempre mesmo – bebe um pouco de vinho.
Ela acorda cedo, por volta das 6 horas, um pouco depois do galo, mas não sai logo da cama, ficando com seus pensamentos. “Eu até pouco tempo atrás estava com medo de morrer, mas pensei, já vivi tanto, Deus vai me ajudar nessa hora”, revela, com um sorriso de quem convive com esse receio.
Sobre a profissão, contudo, revela que a exerceu com amor e dedicação. “Trabalhei bastante, viajei muito de charrete. Toda a minha vida amei a minha profissão. Acho que os professores têm que amar ensinar”, diz. Terminamos a entrevista e caminhamos juntas pelo seu jardim. De bloquinho na mão, a aluna-repórter foi aprender um tanto mais da vida.


Fonte: edição nº 84, Outubro/dezembro
Postado por: Diálogo




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Reflexos do deserto
O cerrado é o segundo maior bioma brasileiro e esconde locais que inspiram mistério e transcendência, alguns já conhecidos por serem cenários de ecoturismo
Construções da fé
Os séculos, suas pedras e suas edificações estão aí a provar o quanto a humanidade criou – forjada pela fé – obras arquitetônicas lindíssimas, templos sagrados em devoção aos seus deuses.
Os humanos e seus direitos
“A sociedade é hipócrita, há quem declara ao que vive na rua: ‘Deus te ama’. Mas não se aproxima, tem medo da pessoa.
Cultura afro-brasileira: resgatando os nossas origens
Finalmente, hoje, esta herança parece ser revista e valorizada como alternativa possível para frear a dominação e a exploração do meio ambiente do qual o ser humano é parte.
Crônica da terra dos Papagaios
Em verdade, não é fácil dizer quanta diversidade há de aves ornadas de várias cores. Os papagaios são mais comuns aqui no Brasil
Início Anterior 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados