O último canto de João

Data de publicação: 01/12/2016

Imortal para crentes e não crentes, Francisco de Assis, o Patrono dos Animais, inspira a ecologia, a poética, a literatura, a arte e a mística. Inédito em tudo, até o nome de Francesco, foi inventado para fazer célebre o cantor da Criação.

Foto: Assis, na Úmbria, Itália central

 


Afrancesado

Francisco foi mercador de tecidos, em Assis, uma nobre comuna do Sacro Império Romano, da Itália central, no fim do século 12, onde as roupas importadas eram os Renault, Ferrari ou BMW da época, valendo fortunas pelo poder que simbolizavam. Isso fazia dos comerciantes uma minoria urbana milionária e ambiciosa de prestígio.

O mercador assisense Pedro Bernardone, sempre atrás de caravanas com novidades do Oriente, encontrou na França a dama de seus sonhos e a fez Senhora Pica de Bernardone. Ela deu à luz João de Bernardone, em data ignorada, talvez em 1182. Junto da mãe, francesa da Provença, berço da poesia e do canto, o garoto aprendeu a falar, declamar e cantar em francês. E, apesar de ser solidário com os pobres, generoso e ingênuo, esses bons sentimentos não o isentaram de ser o rei da boemia e do desperdício de dinheiro entre os jovens que, na alta madrugada, saíam bêbados dos banquetes, cantando aos berros pela cidade da qual se sentiam donos. Foi assim que o polêmico João granjeou raiva, desprezo, inveja e admiração, e mereceu o apelido, um tanto pejorativo, de Francesco, o afrancesado.

A opulenta família Bernardone não era nobre, e Francisco sabia que a ascensão social requeria a conquista do título de cavaleiro em uma vitória militar. Treinou as técnicas de combate e, com 25 anos de idade, engajou-se no exército papal para combater os mouros, confiante na vitória que o cobriria de glórias, mas algo inesperado o impediu. Em uma pausa noturna, teve uma inexplicável experiência espiritual, uma compreensão nova de Deus, que o fez ver a inutilidade da nobreza que ambicionava. Desertou e voltou sozinho para Assis, talvez ainda vestido com a fulgurante e caríssima armadura. Enfrentou a humilhação da aparente covardia, a fúria do pai e os boatos malignos da cidade, doentiamente ocupada com fama, honra e aparência, e ávida de escândalos. Foi tal a pressão emocional contraditória que Francisco ficou prostrado, de cama, por longo tempo.


Irmão

Recuperado, retomou o comércio, mas seus olhos não viam mais o brilho das sedas indianas e dos veludos persas nem das moedas do pai ou dos brasões de nobreza. Quando podia, ele se safava do balcão e sumia no silêncio do Monte Subásio, fascinado pelo fulgor do sol nos campos e pelas serestas do vento nos abetos. O monte, taxado de Inferno por ser palco da forca na qual Assis aplicava as sentenças de morte, virou o paraíso onde Francisco sentia a ternura de Deus na luz da paisagem ou no inseto mais insignificante.

O “inferno” no Monte Subásio não era só para os condenados à forca, era a pena cotidiana dos leprosos que por ali se arrastavam, vestidos com um burel cinza-marrom que os distinguia ao longe. Barrados por lei de entrarem na cidade, beberem nas fontes e se banharem nos rios, os infelizes viviam nas encostas do monte, invisíveis para o sonhador Francisco, que ainda via Deus só nas flores e nos pássaros.

Um dia, de improviso, Francisco se viu de frente com um leproso. Dominado pela repugnância, mas sinceramente dócil ao impulso espiritual, em um ato de inexplicável liberdade, ele abraçou e beijou o rosto e as mãos carcomidas do pobre estranho desconcertado, como se fosse um irmão. Naquele instante, interpreta seu biógrafo moderno Inácio Larrañaga: “Das profundidades da terra e do mar, das raízes das montanhas e do sangue começou a subir em marés sucessivas o oceano da doçura” (Larrañaga. O Irmão de Assis. São Paulo: Paulinas, 2012, p. 64). De fato, Francisco, no leito de morte, relembrou esse instante como “a maior doçura da alma e do corpo”, acrescenta o biógrafo (p. 64). Naquele dia João de Bernardone, o mimado afrancesado, se fez Francisco de Assis, o irmão dos rejeitados.

Certa vez, com os pés na loja do pai e o coração junto aos leprosos, Francisco escolheu as mais caras peças de tecido e foi vendê-las na cidade de Foligno, com intenção de restaurar a ermida de São Damião e ajudar seus protegidos. É certo que Bernardone se orgulhasse dos lances comerciais do herdeiro e talvez fingisse não ver escoarem os lucros nas farras com amigos que o bajulavam. Mas, esbanjar com leprosos! Isso não serviria ao seu prestígio e fama, era um desperdício sem retorno! E o pai agiu como pai. Pôs um basta, nos delírios do filho. Diz o primeiro biógrafo, Tomás de Celano: “Sem qualquer compaixão, prendeu-o por muitos dias em um lugar escuro e, pensando em dobrá-lo para sua opinião, agiu primeiro com palavras e depois com açoites e cadeias” (Vida de São Francisco de Assis, escrito em 1228 e reescrito em 1244. Primeiro livro, v. 12. O original latino se encontra na Analecta Franciscana, tomo X – tradução brasileira, Petrópolis: Vozes, 1975, p.16).

A boa dona Pica não se omitiu de agir como mãe, libertou o pupilo. E ele correu de volta para seus novos irmãos, o pai foi buscá-lo e o levou ao juízo do bispo da cidade. Na praça, diante de todos, Francisco devolveu a Pietro Bernardone o dinheiro, as roupas finas, o direito de herança e o nome de família. Foi embora e vestiu a desprezível roupa cinza-marrom, da cor do pelo dos asnos, igual à que usavam os leprosos. Continuou a desfilar na cidade como sempre, agora, porém, pedindo esmolas, para desgosto e humilhação da família. “Foi perseguido pelo pai, que, julgando uma loucura sua servidão a Cristo, amaldiçoava-o por toda a parte”, conta Celano (Segunda Vida de São Francisco, livro I, 7. 12. 1975, p. 98). O irmão, Ângelo, seguia o pai no desprezo a ele, mas “quando lhe faltou a família, a criação inteira fez-se sua família e o céu azul com a abóbada estrelada passou a ser o seu teto!”, interpreta Larrañaga (p. 95).

Pai espiritual

Com o tempo, a constância de Francisco e sua paz e a alegria em meio aos insultos inspiraram um novo modo de ver a intrigante opção. Alguns dos ex-colegas de festas, jovens nobres, herdeiros de grandes títulos e fortunas, tomaram a mesma decisão, pondo os valores espirituais acima de tudo; trocaram o futuro dourado pelo trabalho ao lado dos humildes. Carregavam água das fontes para as casas; traziam lenha dos bosques; enterravam os mortos; remendavam calçados, faziam cestas, ajudavam nas colheitas, recebendo por paga apenas o alimento (cf. Larranãga, p. 175). Serviam os pobres e os leprosos, oravam e cantavam longamente a Deus e tratavam as pessoas e os animais como uma irmandade universal.

Ao fim de uma intensa vida de 45 anos, longevidade razoável para a época, iluminada por fatos fascinantes e encantadores, descritos nas primeiras fontes literárias do franciscanismo, o Irmão de Todos: “No ano de 1226 no domingo, dia 4 de outubro, na cidade de Assis, na Porciúncula, saiu do cárcere do corpo e voou todo feliz para as habitações dos espíritos celestiais, terminando com perfeição o que tinha empreendido” (Celano, livro II, 1.88. 1975, p. 57).


Voz imortal

O jovem boêmio que enchia a cidade de serestas afrancesadas não sonhava que um cântico seu ecoaria em todas as línguas, por todos os tempos, dando voz perene a toda a natureza.

Escrito em toscano florentino, língua mãe do italiano moderno, o Cântico do Irmão Sol foi o primeiro documento literário da língua italiana, antes de ser traduzido para o latim, ainda oficial na época. Pode-se, porém, supor que ele tenha nascido na língua materna provençal, pois Celano revela que Francisco “fervendo de suavíssima melodia interior, dava-lhe voz em francês, e a veia do sussurro divino, que recebia baixinho em seus ouvidos, transbordava jubilosamente em francês” (Segunda Vida de São Francisco, 90, 127, p. 161).

No outono de 1225, Francisco estava cego, com dores atrozes nos olhos e profundas feridas nos pés, nas mãos e no peito; com febre alta, jazia sobre uma esteira no chão de uma cabana em São Damião, onde quis passar os últimos dias de vida. Atormentado por ratos que corriam sobre seu corpo dolorido, sentia o espírito livre como um pássaro para gorjear um poema novo. Ninguém sabe se ele o proclamou ou cantou, talvez não tivesse mais forças na voz, normalmente “forte, doce, clara e sonora” (Celano, livro I, 30. 86, p. 56). Os companheiros que o assistiam podem ter improvisado uma melodia conhecida, porque ele pediu repetidamente que a entoassem durante sua agonia e morte. Eles cantaram sem cessar, entre lágrimas, até o sepultamento e cantam até hoje, 800 anos depois, em todas as vozes da Terra. 

Fonte: edição nº 81, Janeiro/março
Postado por: Diálogo




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