Opção: professora de Ensino Religioso

Data de publicação: 24/03/2017


Opção: professora de Ensino Religioso


Quando se pensa em Ensino Religioso em escola pública, alguém poderia imaginar uma aula maçante, monótona e praticamente desnecessária. Mas, quando essa aula é feita com pesquisa, qualidade e fundamentação teórica, a coisa muda de figura. No meu primeiro ano como professora da Rede Municipal de Ensino de Curitiba (PR), houve a possibilidade de escolha de vagas das disciplinas: uma era a de professora de Ciências e a outra de Ensino Religioso. Optei pela vaga de Ensino Religioso, mesmo sabendo da possibilidade de ter que cobrir faltas de professores de outras disciplinas e de trabalhar com todas as turmas da escola.Primeiramente, procurei cursos de capacitação oferecidos pela prefeitura, pesquisei a fundamentação teórica, o currículo e as bases para iniciar o meu trabalho. Esse tempo de estudo, sistematização e organização do meu trabalho para ministrar a disciplina de Ensino Religioso resultou na ampliação dos meus conhecimentos e, consequentemente, no aprimoramento das minhas aulas. Utilizei uma metodologia pedagógica que abrangesse o lúdico, a literatura infantil, o resgate da infância, nas atividades que auxiliassem os meus alunos durante os minutos que ficávamos juntos.Há três anos na Secretaria Municipal de Educação, com o cargo de docência I, leciona para turmas de 1º a 4º anos, no período vespertino, na Escola Municipal Centro de Educação Integrada Issa Nacli, área urbana da cidade de Curitiba.

Conhecimento interdisciplinar

Ao trabalharmos conforme o Plano Curricular, com objetivo geral do ciclo II, a proposta é identificar e compreender o Fenômeno Religioso, para ressignificar conhecimentos na perspectiva da Diversidade Cultural Religiosa, considerando as quatro matrizes: Africana, Indígena, Ocidental e Oriental.

Em uma das aulas, trabalhamos o conteúdo símbolos sagrados, com ênfase nas vestimentas religiosas e em uma árvore: a figueira. O objetivo específico era identificar a simbologia religiosa presente nas vestimentas sagradas, como também a referência à figueira em textos sagrados de diferentes tradições religiosas. Os alunos do 4º ano pesquisaram e refletiram sobre os temas propostos, coletaram informações de forma interdisciplinar, ampliando assim o seu conhecimento.

Figos e figueiras

Iniciamos a aula perguntando aos alunos sobre o fruto da figueira. Ao responderem, perguntamos se conheciam a origem dessa árvore. Lemos então uma pesquisa prévia sobre a figueira e os seus registros na Bíblia, nos costumes judaicos, na Grécia, em Roma Itália), como também para os povos árabes, além de civilizações antigas como os maias, astecas e egípcios.

Resgatamos a origem da figueira e sua história através dos tempos, desde seu surgimento no Oriente Médio e a sua ocorrência nos continentes americanos, africano, asiático, europeu e na Oceania. Utilizamos o mapa para localizar os países árabes e percorrer os caminhos da árvore até o Himalaia (Nepal).

Num segundo momento, evidenciamos a importância cultural e religiosa da figueira e de seu fruto, o figo. Há muitas espécies de figueiras no mundo, também chamadas de fícus. A figueira do figo comestível, figueira-comum (ficus carica) é a mais conhecida. O figo comestível tinha a vantagem de ser secado e mantido adequadamente à alimentação durante meses. Para atravessarem o deserto, os povos antigos do Oriente Médio e norte da África utilizavam frutas secas, dentre elas o figo, ricas em nutrientes e fáceis de conservar. Por isso, o figo é ingrediente importante no farnel de muitas civilizações, especialmente o figo seco, pois era conservado e armazenado para consumo em épocas adversas, como o inverno.

A figueira é a primeira planta citada na Bíblia, no livro do Gênesis, capítulo 3,versículo 7, quando Adão e Eva se vestem com suas folhas, ao notarem que estavam nus. Para algumas religiões, a figueira tem uma simbologia muito significativa: para o budismo, foi debaixo de uma figueira, chamada de Árvore Bodhi, que Buda, até então chamado de Siddartha Gautama, teria alcançado a iluminação, depois de passar 49 dias e noites em meditação. Desde então, ele passou a ser chamado de Buda, termo derivado do sânscrito, que significa “o desperto, o iluminado, o que sabe”. A partir desses dados, falamos para os alunos sobre o fundador do budismo.

Vestimentas

Ao elaborarmos a síntese do conhecimento, refletimos também sobre a passagem bíblica em Gênesis, citando que Adão e Eva usaram as folhas da figueira para cobrir seus corpos e fazer suas primeiras vestes. A partir disso, refletimos sobre a importância de nossas roupas, usando o termo “vestes”, para referirmos ao nosso modo de vestir e o nosso comportamento em cada situação. Por exemplo: o uniforme na escola, a farda para os militares, as vestimentas religiosas, especialmente usadas para os cultos e celebrações sagradas.

Para enriquecer a aula, trouxe tecidos para fazer um manto que lembrasse as vestes dos monges, como referência à liderança budista usando a imagem de Dalai Lama. Depois comentamos sobre a sua vida religiosa. Com material informativo, explicamos os trajes dos monges, o significado das cores, os tecidos sobrepostos e a opção de rasparem a cabeça.

Os alunos realizaram atividades impressas em seus cadernos e fizeram registros sobre a aula. Ao conversarmos, percebemos que as roupas têm um papel muito importante na sociedade. Desde tempos remotos, é a partir da vestimenta que se identificam um povo, a classe social e a religião do indivíduo. Assim, é muito importante que as crianças tenham acesso ao conhecimento do significado das vestes utilizadas por diferentes organizações religiosas.

Professora Cristiane Méri Pereira Bueno

Fonte: Diálogo - nº84 -Outubro/ Dezembro 2016
Postado por: Diálogo




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