Os humanos e seus direitos

Data de publicação: 20/07/2017

“A sociedade é hipócrita, há quem declara ao que vive na rua: ‘Deus te ama’.
 Mas não se aproxima, tem medo da pessoa. Que deus é esse?


“Os humanos estão aqui. Mas onde estão os direitos?”, pergunta Robson César Correia de Mendonça, 65 anos, presidente do Movimento Estadual da População de Rua de São Paulo, ao secretário municipal dos Direitos Humanos da capital. Ao lado de colegas, uns em situação de rua e outros militantes da causa, ele foi à secretaria solicitar água e sanitários públicos, direitos negados aos cidadãos sem moradia. Tais ações são a rotina do líder motivado por uma certeza: “Ninguém fará o que a gente tem que fazer”.

A vida é assim
Pecuarista bem-sucedido, Robson vendeu tudo em Alegrete (RS) e viajou a São Paulo (SP) em 1998, para comprar uma casa e preparar a chegada da família. Ele e a esposa sonhavam garantir o futuro do casal de filhos, fazendo-os estudar na metrópole. Ao chegar à cidade, foi assaltado e, não satisfeitos com a alta soma em dinheiro e o talão de cheques que ele trazia na carteira, os ladrões o fizeram sacar todo o capital que tinha no banco. Privado até dos documentos, ele passou a perambular desorientado, sem conseguir sequer falar com a família. “Tentei entrar na Câmara Municipal para dar um telefonema, mas fui mal recebido”, explica. Procurou a polícia e foi simplesmente levado a um albergue. Passados dois anos nas ruas, Robson, um dia, vendo televisão na vitrine de uma loja, soube da notícia da morte de sua família, que sofreu um acidente de carro, e chegou à beira do desespero e da loucura. “Mas o que nós temos que passar ninguém passa em nosso lugar” – conclui agora, encerrando o relato com sua frase peculiar: “A vida é assim”.
Antes de conhecer a decidida personalidade do pecuarista reduzido a vendedor ambulante, pode-se tomá-lo por conformista, mas a ideia muda quando se descobre sua superação. O choque da perda da família despertou nele a luta pela resgate da dignidade, da autoestima e dos direitos das pessoas em situação de rua. Mesmo nada possuindo, ele exerce uma liderança ousada, criativa e incansável, porque “ao analisar a minha vida e escolher entre vegetar e viver, eu resolvi viver”, revela com modéstia sem par.   

Resolvi viver
 “A vida é assim! Graças a Deus, enquanto eu estiver respirando tenho que dar graças por cada dia que vivo na terra (Robson tem só 20% da capacidade pulmonar); o mais, é ver o que pode ser feito e como pode ser feito. A gente, graças a Deus, vai atuando, e a coisa toda vai andando. Eu não sei se é bom ou ruim depois da morte, só sei que preciso pensar no que tenho a fazer hoje, agora, porque o amanhã a Deus pertence. Não preciso me preocupar, o mistério divino é aquela essência: amanhã você será compensado por isso ou por aquilo. Eu comia do lixo e hoje eu faço um risoto para 300, 600 pessoas. Não tenho salário ou aposentadoria nem recebo um só tostão do governo. É o que a Bíblia diz: ‘O pássaro não semeia e não colhe, mas se alimenta’ (cf. Mt 6, 26). Isso é fato!” – lembra.
“As pessoas, vendo o meu trabalho, me ajudam”, é a conclusão serena e confiante do presidente do Movimento Estadual da População de Rua de São Paulo. Cargo que lhe traz muito trabalho e nenhum benefício, a não ser a felicidade de ser chamado de Pai e de amar as quase 23 mil pessoas que vivem em situação de rua na cidade de São Paulo, das quais ele fala como se cada um fosse seu filho. Interrogado sobre o que é amar, responde com os olhos iluminados: “É olhar na bolinha do olho da pessoa e dizer ‘eu sou igual a você’”. Robson nem sempre se sentiu igual às pessoas em situação de rua. Quando era fazendeiro, imaginava-os indignos de amizade, só depois de ter passado por todas as humilhações e privações possíveis, ele pode afirmar: “A sociedade pensa que o morador de rua não quer tomar banho, é drogado, é vagabundo. Eles são humilhados, o caminhão pipa molha as ruas pela manhã e os obriga a sair do local onde dormem, não há banheiro público nem água para o banho e a lavagem de roupas”.
E denuncia: “Temos um projeto na Câmara de Vereadores, para a abertura dos banheiros desativados e o cuidado das praças pelos próprios moradores de rua, que, com isso, teriam um trabalho, mas não há interesse do poder público. A indústria da miséria gera muito recurso e voto”. O olhar realista vê longe: “O morador de rua não precisa ser inserido na sociedade, ele já está inserido no papel de entrave, de tropeço que transtorna e enfeia o espaço público. Ele deve ser inserido na comunidade, porque a comunidade pensa no semelhante, no ser que precisa ser resgatado em sua autoestima. A sociedade criou a política partidária, a comunidade criou a política organizativa”.

Que deus é esse?
“A sociedade é hipócrita, há quem declara ao que vive na rua: ‘Deus te ama’. Mas não se aproxima, tem medo da pessoa. Que deus é esse? Os moradores de rua são enxotados da catedral de São Paulo, enquanto, na vizinha Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, ninguém os agride e podem até descansar nos bancos. Qual das duas igrejas é casa de Deus? Aí está a diferença de um deus para o outro”, analisa Robson, justificando sua indignação: “Essas coisas, eu sou assim, meio enérgico para dizer. Essa é a minha vida”. E dá outro exemplo: “Eu vi na televisão um repórter rindo enquanto alguém jogava água gelada em um homem que dormia na porta de um restaurante. Se eu reconheço que o ser humano é imagem e semelhança de Deus, posso dizer que o homem é um deus, é capaz de amar e de construir; mas ele é também capaz de odiar e rejeitar”.
Na opinião de Robson, as pessoas em situação de rua procuram Deus; muitas, porém, pensam que ele as abandonou e o imaginam como mau e interesseiro, pois só ajudará se receber algo de valor em troca. Mesmo assim, a compaixão e a solidariedade delas ultrapassam às de muita gente que tem conforto e isso, “não há como explicar”, diz ele, enquanto lembra que os moradores de rua repartem até o jornal que têm para dormir. O princípio “se os outros me dão eu também posso dar alguma coisa”, os inspira, como no caso noticiado há pouco: em frente a uma pizzaria da Avenida Paulista, um morador de rua ganhou uma pizza quentinha e não fez objeção em reparti-la com um jovem bem vestido que alegou estar com fome. Outro caso lembrado por ele foi o do homem que recusou uma oferta de 2 mil reais pelo cão que o acompanhava, preferindo ficar com o animal. Em mais de 17 anos de convívio, Robson conhece segredos dos seres humanos que vivem escondidos e silenciados sob os andrajos que, muitas vezes, os expõem de modo a serem tratados pior que bichos.

Revolução dos bichos
“Se um morador de rua causa uma confusão, isso é sempre divulgado, mas quando um deles passou no concurso do Banco do Brasil e outro se formou e foi aprovado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), isso não virou notícia”, protesta o Advogado dos Mendigos, rótulo dado a Robson por policiais e funcionários públicos que ouvem suas denúncias de injustiças e atrocidades contra a população em situação de rua. Essa coragem foi despertada quando ele leu o livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell, e pensou: “Se os animais irracionais podem mudar suas vidas, por que nós, racionais, não podemos?”.
Dito e feito, no ano 2000, Robson criou, com alguns amigos, o Movimento de Pessoas em Situação de Rua, para “brigar” na Assembleia Legislativa e no Ministério Público. Na época, recolhia material reciclável e “só tomava café da manhã e comia à noite, mas não sempre”, lembra ele. Nas horas de folga, sentava-se a uma mesa de leitura da Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo, e as pessoas se afastavam dele; não podia retirar livros por falta de endereço fixo, assim, gerou o sonho de levar os livros para a rua. Acalentado por anos, o projeto se realizou em 2011, com a ajuda de amigos e a inauguração da primeira Bicicloteca, uma biblioteca sobre rodas, hoje multiplicada em outras cidades. Cada dia em uma praça, a novidade atrai em média 80 leitores diários, a maior parte pessoas em situação de rua.
“Vai tu beber, eu vou pegar livros e estudar, porque não quero morrer na rua”, foi a decisão que Robson presenciou ao abrir as portas da Bicicloteca. O jovem que disse isso ao colega retomou o curso de Direito, que havia abandonado. Outro estudante se formou em Direito com os livros que Robson negociava para ele nos sebos da cidade. Um caso comovente de sucesso dos “filhos” foi um jovem analfabeto que pegava livros para aprender a ler, ajudado por um colega, na rua; dali foi à escola, reconciliou-se com a família e voltou para casa. “São exemplos de que a cultura muda as pessoas”, afirma ele, com orgulho. 

“Me chamam de Pai”
A perda dos filhos partiu o coração de um pai e, pela fenda aberta, entrou  a multidão que ele agora chama de “minha família”. A Bicicloteca é a mais conhecida conquista, mas há outras também decisivas na vida dessa população, invisível para a rotina cultural da cidade. O Concurso Caça Talentos, já na 13ª edição, premia artistas da rua, desde cantor, músico, cover, poeta, dançarino, transformista, mágico, repentista, desenhista, inventor, ator, palhaço, malabarista, até paranormal. O evento, sem nenhum patrocínio ou cobertura da mídia, recompensa o esforço pelos aplausos, o troféu artesanal feito de madeira e vidro e o certificado com os nomes dos vencedores cuidadosamente impressos no computador.
A mais recente novidade do talento inventivo de Robson é o Biciclotáxi, um roteiro cultural pelo centro histórico de São Paulo em bicicletas adaptadas para dois passageiros e conduzidas por ex-internos da Fundação Casa. A taxa paga pelos turistas é um incentivo aos jovens no esforço de inserção no mercado de trabalho. Vários deles não têm para onde ir, e o idealizador do projeto os acolhe em sua moradia improvisada no hall de um antigo edifício, com aluguel pago por um amigo. “Me chamam de Pai”, diz, justificando a acolhida, e conclui: “Como é que uma pessoa pode sustentar tudo isso sem recurso? É porque, quando alguém me pede um prato de comida eu dou e, amanhã ou depois, ele volta e me diz: “Você me deu um prato de comida, e eu agora vou lhe dar dois. É assim a minha vida”.

Fonte: Dia-Edição 79 - Ago/Set 2015
Postado por: Diálogo




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