Religião não se discute (?)

Data de publicação: 15/08/2017

Religião não se discute (?)
Devison Amorim do Nascimento *

     Religião não se discute, quando a discussão é sinônimo de rivalidade, exclusão e desentendimento. Religião se dialoga, se explica, se conhece, se escuta, se admira, se interroga, se respeita e se quer conhecer melhor.
     Foi exatamente isso que aconteceu em uma turma da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Escola de Aplicação da Universidade Federal do Pará (EAUFPA), em Belém (PA). Uma iniciativa inovadora e muito bem-sucedida, idealizada por uma equipe docente interdisciplinar, que vem obtendo ótimos resultados.  

Ensino Religioso na EJA
     A Escola de Aplicação da Universidade Federal do Pará tem como objetivo subsidiar a Educação Básica e a Educação de Jovens e Adultos para a comunidade; ao mesmo tempo em que é campo de estágio para discentes dos cursos de graduação da Universidade Federal do Pará (UFPA). Ao longo de 53 anos a escola vem desenvolvendo trabalhos diversos de ensino, pesquisa e extensão, com vista a possibilitar a formação de cidadãos críticos e reflexivos, capazes de contribuir com a transformação da sociedade em que vivem.
     O Ensino Religioso faz parte do currículo do Ensino Fundamental da EAUFPA, conforme a legislação brasileira. Já o Projeto Ensino Religioso na Educação de Jovens e Adultos teve início em 2014, como parte do Programa de Apoio a Projetos de Intervenção Metodológica, da Pró-Reitoria de Ensino de Graduação da Universidade Federal do Pará. A experiência vem alcançando os objetivos previstos, e o sucesso deve-se à clareza dos conteúdos e da metodologia adotados.
     Com intenção de promover novos processos de ensino e aprendizagem, agregando valores às disciplinas do currículo da EJA, houve no projeto palestras sobre Ciências da Religião e Ensino Religioso e a apresentação do panorama diversificado das manifestações religiosas amazônicas e suas implicações nos acontecimentos sociais de ontem e de hoje. Uma reflexão que contribuiu para o diálogo e o respeito à diversidade religiosa da Amazônia e do Brasil.
     Uma vez por semana, juntaram-se as várias turmas no auditório da escola, com a presença de cerca de 150 discentes, que foram brindados com palestras proferidas por docentes vindos de outras instituições de Ensino Superior do Pará, nas quais foram desenvolvidos os seguintes temas: 
O Curso de Ciências da Religião da Universidade Estadual do Pará (Uepa).
Breve histórico sobre o Ensino Religioso no Brasil.
Religião e arte na Amazônia.
Religião, religiosidade e pluralismo religioso.
Diálogo inter-religioso e Cultura de Paz.
Religiões de matriz africana: o tambor de mina em Belém (PA).
Protestantismos.
A doutrina espírita.
Direito Canônico.

     Uma vez que o público-alvo das ações foi a EJA, procuramos tratar dos temas de maneira clara e objetiva, sendo que cada palestrante, no fim de sua exposição, abriu espaço para os questionamentos sobre os assuntos abordados, que, por sua vez, deram motivo para calorosos debates. Exibição de vídeos, rodas de conversas e mesas- redondas também fazem parte da metodologia.

Ressonâncias da iniciativa
     O projeto teve boa aceitação da comunidade escolar, tanto por parte dos docentes quanto dos discentes, uma vez que foi considerado como uma ação inovadora para a Educação de Jovens e Adultos. A EJA enfrenta sérias dificuldades, e uma delas é o grande número de evasão, já que a maior parte de seu público é formada por pessoas que trabalham durante o dia e se esforçam muito para dar continuidade aos estudos no período noturno. Assim, novas metodologias de ensino e estratégias para motivar os discentes e conter a desistência são sempre muito bem-vindas!
Bem-vindas e eficazes, uma vez que a avaliação das atividades do primeiro semestre, feita por meio de um questionário, revelou ótimos resultados, como os que se destacam no posicionamento de alguns alunos:
     “Entendi, através das palestras que devemos respeitar os colegas e os amigos, independentemente de sua religião, e que todos somos iguais, seja pobre, rico, negro ou branco. Se pedirmos a um negro ou a um branco que pegue nas alças de uma panela quente, os dois sentirão a mesma dor. Portanto, não deveríamos tratar nossos irmãos com diferenças. Devemos amá-los e respeitá-los, assim como queremos ser respeitados”. Daniella Costa, 34 anos.
    “Espero que haja outras palestras, para que as pessoas possam interagir mais”. Eliane Lopes, 33 anos.
    “O projeto pode trazer mais assuntos sobre religião, para o nosso compreendimento ficar melhor”.  Ítalo Gurjão, 20 anos

Primeiros frutos

     O Projeto Ensino Religioso na Educação de Jovens e Adultos, realizado na Escola de Aplicação da Universidade Federal do Pará, deu origem a outras ações, como: a socialização com os professores e pesquisadores que participaram do XIII Seminário Nacional de Formação de Professores para o Ensino Religioso, realizado em novembro de 2014, em Belém, e com os componentes do II Simpósio Regional de História da Religião e das Religiosidades, promovido pela Associação Nacional de História (ANPUH), no Rio de Janeiro, em 2014.
     Além dessas comunicações em eventos acadêmicos, outros frutos permanentes já foram colhidos. Dentre eles, a publicação de três obras escritas pelos idealizadores do projeto, especificamente para os discentes da EAUFPA: o livro Valores da Vida, com foco nos estudantes do 1º ao 4º ano, o qual trabalha os valores básicos da convivência em sociedade (Família, Amizade, Meio Ambiente e Respeito às Diferenças); o Minidicionário de Ensino Religioso, voltado aos alunos do 5º ao 9º ano, que contém explicações básicas sobre algumas religiões (cristianismo, espiritismo, budismo e religiões afro-brasileiras) e palavras específicas de cada uma delas; e o Caderno de Artigos do Projeto, com foco no Ensino Médio e na EJA, que reúne os artigos dos palestrantes. Por fim, o blog, que socializa as ações mencionadas por meio de fotos, textos, apresentações em powerpoint e outros materiais.

Idealizadores do projeto
     Devison Amorim do Nascimento. É licenciado pleno em Ciências da Religião e especialista em Docência da Educação Superior pela Universidade do Estado do Pará (Uepa). Atua como professor de Ensino Religioso na Secretaria de Estado de Educação  e como técnico em assuntos educacionais na Universidade Federal do Pará (UFPA). dan@ufpa.br
     Silvia Danielle da Cunha Smith. É licenciada plena e mestra em Matemática pela Universidade Federal do Pará. Atua como professora da Escola de Aplicação da UFPA. dsmith@ufpa.br
     Maria Divanete Sousa da Silva. É pedagoga, especialista em Docência da Educação Superior e mestra em Serviço Social pela Universidade Federal do Pará. Atua como pedagoga da Escola de Aplicação da UFPA. divaped@bol.com.br
     Vera Lúcia da Rocha Pereira. É licenciada plena em Geografia pela UFPA, mestra em Ciências Florestais e Meio Ambiente pela Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) e doutora em Geociências pela UFPA. Atua como professora da Escola de Aplicação da Universidade Federal do Pará. vera@ufpa.br

Fonte: Dia-Edição 80 - Out/Dez 2016
Postado por: Diálogo




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

PAPEL DA LIDERANÇA no desenvolvimento humano
Na atualidade, constata-se uma fragilidade de lideranças que sejam referenciais, pois os parâmetros de conduta são estipulados por interesses alheios, especialmente por aqueles que se arrogam o direito de dirigir e controlar o agir do outro.
Símbolos religiosos
símbolos religiosos e a construção de saberes desenvolvidos na Classe Especial
Violência e indisciplina no ambiente escolar
Nas duas últimas décadas, verifica-se significativo avanço da violência no contexto internacional e brasileiro, desvelando um cenário que se manifesta em diferentes espaços e contextos.
Hoje não tem prova, tem jogo
A educação atual passa por uma crise de valores, práticas pedagógicas e formação docente, o que causa nos professores um enorme desgaste emocional.
Sintonia escola família
Um dos principais desafios enfrentados pelo Ensino Religioso é a falta de conhecimento claro de sua identidade e objetivo, por parte dos familiares dos alunos que, não raro, temem ver seus filhos alvos de discriminação ou de proselitismo.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados