Reflexos do deserto

Data de publicação: 21/08/2017



O cerrado é o segundo maior bioma brasileiro e esconde locais que inspiram mistério e transcendência, alguns já conhecidos por serem cenários de ecoturismo, de filmes, novelas e minisséries de televisão; outros, ainda resguardados pelas brumas da distância e do difícil acesso, o que contribui para a preservação original de seus recursos e maravilhas. Um destes, o Parque Estadual do Jalapão, é único e surpreendente. 

Santuário natural

Situada no centro-leste do Tocantins, com 34 mil quilômetros quadrados, distante 300 quilômetros sem asfalto da capital, Palmas, a área tem menos de um habitante por quilômetro quadrado, justificando assim a ideia de deserto, confirmada pelas dunas de areia dourada com mais de 30 metros de altura, fenômeno raríssimo, quando distante do mar.
O silêncio engrandece o cantar de um pássaro, o voo de um inseto e o ruído do vento no buriti, enquanto, do alto de uma duna, se contempla a Serra do Espírito Santo, em sua rocha arenosa moldada pelo vento há milhões de anos. O céu mergulha seu azul intenso em um rio de água límpida como vidro que desliza entre as dunas, deixando que o sol pontilhe o seu leito de areia com um brilho de diamantes. Outro rio entra em terrenos irregulares e eleva a cantiga das águas em quedas e cachoeiras escondidas na vegetação do cerrado. E, como se não bastasse tanta harmonia para encher de simbolismos esse espaço grandioso, os rios subterrâneos se revelam nas nascentes borbulhantes de águas termais cor de esmeralda, os populares fervedouros.          
Tantas e tão originais maravilhas são coroadas pelo brilho do mais famoso elemento natural da região, o capim dourado, Syngonanthus nitens. Trata-se de uma planta nativa das veredas úmidas do cerrado, matéria-prima para o artesanato, que é símbolo da arte do Tocantins e responsável por fazer o deserto-santuário do Parque Estadual do Jalapão conhecido no Brasil e no exterior. 

Povo e cultura  

Habitado por descendentes de africanos e de indígenas, o parque abriga comunidades rurais quilombolas há mais de 150 anos, é o caso do povoado Mumbuca, do município de Mateiros. Conforme teses de pesquisadores que registraram as memórias dos habitantes, o lugarejo se originou da chegada de escravos que fugiram da fome e da morte, ao serem expulsos das fazendas baianas por ocasião da Lei Áurea. No convívio com os índios Xerentes e na troca de saberes e técnicas de convivência com os recursos naturais, os negros aprenderam a trançar o capim dourado e costurá-lo com fios da folha do buriti, na produção de peças para uso doméstico. Os mais velhos da comunidade contam que seus pais e tios trocavam o excedente por mercadorias, nas cidades vizinhas, mas as peças só foram valorizadas como arte em 2001, quando a região foi feita área de preservação ambiental, pela lei que criou o Parque Estadual do Jalapão. 
O povoado de Mumbuca, com sua lojinha de artesanato em capim dourado,  integra os roteiros de ecoturismo do parque e é frequentado por brasileiros e estrangeiros. Ainda que em permanente contato com elementos da cultura urbana, a comunidade conserva as raízes culturais indígenas e africanas: o trabalho de trançar e costurar as peças de capim dourado é feminino e coletivo; quando está frio, as artesãs se reúnem em volta da fogueira; no calor, sentam-se à sombra das árvores onde as crianças brincam perto das mães; cantigas, memórias, causos, lendas e livusias (assombrações), divertem e dinamizam o patrimônio cultural da comunidade durante o trabalho criativo manual; os homens, antes se dedicavam à roça e agora ajudam as esposas em tarefas diárias, para que elas se dediquem mais à criação das joias de capim dourado, tão apreciadas nos mercados brasileiro e externo. 

Conquista e ameaças  
Durante mais de um século, as famílias de Mumbuca tiveram a rotina de qualquer comunidade quilombola ou indígena isolada da cultura urbana: plantar e colher no roçado, extrair frutos da natureza, caçar e pescar, criar animais, tecer roupas de algodão cru, levantar casas de taipa e palha, acender candeeiros, carregar água do córrego e produzir utensílios de cerâmica e de palha. Essa paz foi abalada quando a área passou a ser reserva ambiental, em 2001, e os técnicos do governo estadual mapearam os habitantes com o objetivo de removê-los.
Naquele período, os nativos passaram a ser tratados como intrusos e predadores do meio ambiente e as proibições coibiram a agricultura, a pecuária e o extrativismo de sobrevivência. Os fiscais, por ignorarem os costumes de uma comunidade tradicional, aplicavam multas exorbitantes a pessoas que não possuíam nenhuma fonte de renda. Passaram-se cinco anos nessa luta, incerteza e angústia, até a Fundação Cultural Palmares emitir, em 2006, o Certificado de Reconhecimento da Comunidade Mumbuca, com outros dez povoados do parque, como remanescente de quilombo.
Tendo conquistado o direito de viver na reserva ambiental, os artesãos enfrentaram outras barreiras. Por terem direito ao extrativismo do capim dourado e à renda do comércio de artesanato, eles foram impedidos de praticar a agricultura, a pecuária, a caça e a pesca como fontes de recursos alimentares, o que obrigou as famílias a viverem em grande dificuldade. Formaram então uma associação de artesãos, unindo forças para que os produtos fossem reconhecidos e valorizados. O governo do estado respondeu apenas em 2011, criando o selo de Identificação Geográfica, que protegeu a autenticidade dos produtos do Jalapão frente às falsificações e proibiu a colheita predatória e o contrabando de capim dourado para produção de peças em outros locais.  
Antes da fundação do parque, quando a comunidade colhia hastes de capim para fabricar utensílios domésticos, todos sabiam que um fogo rápido sobre o campo seco ajudaria o capim a nascer mais forte no ano seguinte. Com a proibição dessa prática tradicional, a espécie nativa não renasce e está, a cada dia, mais rara e distante, o que faz os artesãos temerem pelo futuro da produção que hoje sustenta suas famílias.  Além dessa ameaça, a crescente procura dos roteiros turísticos que tirou o parque da invisibilidade é uma faca de dois gumes: se os hóspedes pagam pelo artesanato, pela pousada e pela boa comida, também cometem ações predatórias como o incêndio acidental que dizimou o capim dourado antes da colheita, no ano de 2013. A cobiça do agronegócio, que avança com campos de soja cada vez mais próximos do parque, é outra apreensão para essas famílias, que, como boa parte dos brasileiros, lutam pelo pão cotidiano com um sorriso nos lábios e recebem com confiança e simplicidade a todos os que as visitam.

Fonte: Edição Ago/Set 2015 - Nº79
Postado por: Diálogo




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