Coração de Cristal

Data de publicação: 13/09/2017

Por Pedro Rivaroli


“As praias do Brasil ensolaradas; o chão onde o país se elevou; a mão de Deus abençoou”, cantou a Jovem Guarda, lá pelo tempo da ditadura militar. Lamentavelmente a música Eu te Amo Meu Brasil, de Eustáquio Gomes de Farias, o Dom da dupla Dom & Ravel, fez um sucesso dúbio, quando as forças repressoras a manipularam para propaganda ideológica.

A chapada

Que a mão de Deus abençoou é sabido de todos. Já, dizer que o país se elevou das praias do litoral pode ser um recurso poético do artista, situado na história para cá do ano de 1500. A questão interdisciplinar “de onde o país se elevou?” teria dezenas de soluções, e uma delas é a da geocronologia, ciência que explica as eras e as idades da formação do relevo. Nesse caso, foi, provavelmente no Centro-Oeste, onde as rochas sedimentares calculadas pela datação radioativa revelaram 1,5 bilhão de primaveras, a terça parte da idade da Terra ,que tem pouco mais de 4,5 bilhões de anos.
O Centro-Oeste do Brasil está em movimento há mais de 1 bilhão de anos, quando grandes fendas foram aterradas pela erosão das montanhas, dando origem a uma bacia sedimentar do tipo que pode evoluir para a abertura oceânica, como a que ocorreu na evolução do Oceano Atlântico, quando o bloco das Américas se deslocou da África. O caso do Brasil não chegou a tanto, e a região não foi inundada, por isso as bases das antigas montanhas que sacrificaram seus cumes à erosão podem ser contempladas na Chapada dos Veadeiros. A análise das rochas com o método radioativo, que avalia os eventos geológicos, permite datar esses fenômenos em idades relativamente precisas, e isso tem sido feito pela equipe de cientistas do Instituto de Geociências da Unb (Universidade de Brasília).
A geocronologia tem aliados involuntários de grande valor nos seres vivos fósseis, muitas vezes encontrados nas rochas, aliás, bem frequentes em diversas regiões do Brasil. Tratando-se, porém, de material de idades tão recuadas como as do Brasil central, as formas de vida eram ainda microbianas e, por isso, identificar fósseis nas rochas arenosas é quase impossível.
Durante os movimentos tectônicos da Terra, enquanto fraturas eram aterradas, originando depressões, outras eram abertas, e por elas fluíam águas quentes ricas em sílica dissolvida, os ditos fluídos hidrotermais responsáveis pela formação dos veios de cristal de quartzo com alto nível de pureza, presentes na região. Durante séculos, o cristal quartzo tornou-se alvo do garimpo artesanal, atividade que foi encerrada e deu lugar ao ecoturismo, abrindo para os ex-garimpeiros, exímios conhecedores da chapada, as portas de uma profissão mais promissora, a de guia turístico. 

Energia
“Eu te amo, meu Brasil, eu te amo. Meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil”, cantavam os fãs da dupla Dom & Ravel. Esse coração tem a energia dos cristais que flui também nos corações dos ecoturistas diante das maravilhas e mistérios do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, uma reserva ecológica de 600 quilômetros quadrados situada no município de Alto Paraíso de Goiás (GO), coração pulsante do velho Centro-Oeste brasileiro, distante 250 quilômetros de Brasília (DF) e 500 quilômetros de Goiânia (GO).
Os cristais de rocha afloram do solo, no parque, e os adeptos de uma espiritualidade holística acreditam que o território, rico em quartzo, é um ponto de convergência da energia do planeta. Energia essa, exuberante na flora do cerrado, rica em matas ciliares, campos e florestas de galeria, onde podem ser vistas mais de 25 espécies de orquídeas, além de árvores nativas de rara beleza, como o pau-d’arco roxo, a copaíba, a aroeira, a tamanqueira, o jerivá, o buriti e o babaçu. Caminhadas pelas trilhas antigas do garimpo e banhos nas cachoeiras mornas de águas límpidas são também atrativos para os amantes da mística que a natureza do lugar comunica. 

O Vale da Lua
O dito popular “água mole em pedra dura tanto bate até que fura” é a melhor definição do Vale da Lua, um enorme lajedo na cor cinza esbranquiçada que as águas azuladas do estreito córrego São Miguel vêm esculpindo dia e noite durante 600 milhões de anos.
Dentre os atrativos da Chapada dos Veadeiros, o vale é o mais fascinante e intrigante. Em primeiro lugar, pelo barulho intenso de água caindo com grande força, que atrai o olhar para todos os lados, à procura de uma enorme cachoeira, que não existe. Depois, o susto e o temor do visitante, quando vê que as corredeiras estão debaixo de seus próprios pés. A rocha, rica em carbonato, que os geólogos chamam de pseudocimento, sofre o atrito da água. Essa água vai lapidando-a, até formar belos ângulos, poços profundos, redemoinhos e funis assustadores, que permitem ver o riacho passando em fúria por verdadeiros túneis cavados na pedra ao longo de tempos sem fim.
Piscinas naturais aptas para o banho ao calor do sol completam a magia do Vale da Lua, que, no entanto, exige dos visitantes muita prudência e atenção às advertências dos guias, porque um passo em falso em um lugar perigoso pode ser fatal. Talvez justamente esse caráter traiçoeiro contribua para fazer do Vale da Lua um dos destinos  mais assustadores e fascinantes do ecoturismo brasileiro. 

Fonte: Dia-Edição 80 - Out/Dez 2016
Postado por: Diálogo




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