Um planeta e vários mundos

Data de publicação: 13/09/2017

A expansão da tecnologia fez do planeta uma imensa rede de comunicação e de informação. Os negros loiros do Sul do Oceano Pacífico vivem lá há milênios e só agora podem ser conhecidos. Enquanto se multiplicam satélites e antenas por todos os pontos da Terra, algumas comunidades tradicionais ainda cultivam crenças e costumes seculares, garantindo assim que a vida urbana e midiática não é o único modelo cultural do mundo. 

Ouro e bronze na corrida genética   
As cores da pele e dos cabelos variam entre as populações da Terra, e um dos casos mais surpreendentes ocorre entre os melanésios das Ilhas Salomão, ao sul do Oceano Pacífico, os únicos possuidores de uma característica genética responsável pela combinação de pele cor de bronze e cabelos de ouro.
Os negros loiros intrigaram os especialistas em genética durante anos e até pouco tempo eles atribuíram essa peculiaridade à herança dos britânicos, alemães e anglo-australianos que colonizaram as ilhas nos últimos séculos. Recentemente, essas hipóteses foram superadas por pesquisadores da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, e pela Universidade de Bristol, na Inglaterra, que publicaram na revista Science, em maio de 2013, um artigo no qual explicam a variante genética responsável pelas cabeças douradas dessas comunidades negras. 
Os cientistas identificaram, no gene TYRP1, conhecido por influenciar a pigmentação humana, uma variante que não se verifica no genoma das pessoas loiras de outras partes da Terra. Estudos anteriores já mostravam que os pigmentos são, em grande parte, hereditários, mas que também evoluem e se adaptam à ação da luz solar ultravioleta, por isso as populações próximas da linha do Equador possuem a pele e o cabelo mais escuros. No entanto, os habitantes das Ilhas Salomão diferenciam-se dessa tendência. Uma mudança microscópica de apenas uma parte no código genético conseguiu produzir a singularidade dos cabelos dessa população. Somente um aminoácido é diferente (a arginina é substituída pela cisteína).
Foi também reveladora a descoberta de que cada pessoa das Ilhas Salomão possui duas cópias do gene mutante recessivo. Isso significa que os loiros poderiam ter herdado a cor tanto do pai quanto da mãe, e uma das hipóteses do estudo é a de que a mutação provavelmente surgiu por acaso em um indivíduo e se repetiu como herança genética nos descendentes. Sendo aquela população muito pequena, na época do fato, o resultado foi uma alta porcentagem de incidência com o passar das gerações, sendo que sobre os mais de 600 mil habitantes atuais do país, quase 25% são negros loiros. Os cientistas traçaram as origens do povo melanésio em um esforço para entender como funciona o gene mutante e compreenderam que, enquanto todos os seres humanos pré-históricos que saíram da África tiveram sua carga genética transmitida pelo Homem de Neandertal, os melanésios herdaram uma ancestralidade diferente, ainda em estudos.
Mãos à obra
Refletir e trocar ideias:
•    Quais sentimentos e pensamentos a existência de negros loiros causa em nós?
•    De onde vieram os nossos padrões de normalidade e beleza?
•    Esses padrões podem se tornar causa de preconceito e exclusão?
•    O que podemos aprender com a descoberta genética sobre o povo das Ilhas Salomão?     
  

Estranha vida em família
O arquipélago da Indonésia, na Oceania, é um mosaico de ilhas, algumas minúsculas e inabitadas, outras grandes e atraentes por suas culturas primordiais. Nessa categoria, talvez a mais notável seja a ilha Célebes ou Sulawesi, pátria do povo Toradja.
A hipótese da origem dos Toradja diz terem sido eles desbravadores do mar, vindos, talvez, da Índia, que aportaram em Sulawesi e foram hostilizados pelos malaios que já habitavam a costa. Por segurança, desapareceram na floresta e foram esquecidos por tempos incalculáveis. A Holanda controlou o arquipélago como ponto de parada dos navios da Companhia das Índias Orientais, desde o século 17, mas foi apenas em 1909 que o governo colonial holandês reconheceu a existência de habitantes no interior da ilha Sulawesi.
Isolados por séculos em uma região bem irrigada, os Toradja adotaram  o cultivo de arroz, com o auxílio da força dos búfalos nativos, e, resolvida a necessidade material, puderam ocupar-se com os significados existenciais e os ritos da vida em comunidade. Em primeiro lugar, a memória de uma remota chegada marítima foi recriada em forma de saga de um herói ancestral que teria vindo do céu, navegando em um barco. A principal perpetuação desse mito de origem é a magistral técnica de construção das casas, cobertas por um teto em forma de barco. Todas feitas em bambu e palha artisticamente trançados e amarrados, elas abrigam as famílias, sem sucumbir a qualquer espécie de intempérie, nem mesmo aos tremores de terra.
A casa é chamada de tongkona, do verbo tongkon, “sentar-se”. Na compreensão toradja, é o lugar seguro onde a família se reúne e se senta para descansar do trabalho e conviver. Em cada aldeia, uma das tongkonas se evidencia pela abundância de esculturas ornamentais em madeira e pelas formas e cores das paredes. São as expressões plásticas dos princípios sociais e religiosos dos Toradja, eles chamam essa arte de pa'ssura, o que corresponde ao conceito de escrita, porque seu objetivo é perpetuar os conhecimentos sagrados do povo. Essa tongkona mais elaborada é o centro simbólico da aldeia e representa o ponto de encontro da linhagem que engloba os vivos, os antepassados e os que nascerão no futuro.
Palco das celebrações graves e solenes, a tongkona é lugar do rito funerário, de onde a pessoa morta e deposta no esquife é conduzida em cortejo até uma gruta escavada na rocha, onde é sepultada. A seguir, sua estátua esculpida em madeira vai se juntar aos outros antepassados que vigiam, em pé, junto das tumbas, virados para a aldeia, como sentinelas dos descendentes. A cada verão é feita a cerimônia de Mai Nene ou a volta dos espíritos para casa. Os falecidos, no prazo de um ano, são retirados dos caixões, vestidos com roupas novas e cercados de atenção e companhia pela família. Nesse dia é feita a cerimônia fúnebre coletiva, quando búfalos e suínos são sacrificados e os vivos consomem a carne festivamente. Diz a mitologia toradja que o búfalo sustenta o mundo, portanto, matá-lo fora da cerimônia ritual seria um grave risco para todo o cosmos.
O sistema de crenças toradja é chamado aluk, o caminho ou a lei, que rege os seres humanos. Conforme o mito cosmológico do aluk, o criador, Puang Matua, fez o mundo de acordo com certas normas e cabe ao povo mantê-lo em equilíbrio observando as leis naturais. No início, tudo era treva, quando então, o céu e a terra casaram-se e geraram a luz, que tudo separou, ficando a terra para a humanidade e o céu para as divindades. Por isso o primeiro toradja que chegou à ilha, em uma barca, logo construiu a primeira tongkona, imitando as habitações do céu. Lá moram, Pong Bangai, deus da terra, e Pong Lalondong, deus da morte. Isso explica o convívio natural dos vivos com os cadáveres na tongkona, em todas as aldeias toradja.
O aluk não é apenas um sistema de crenças, é uma combinação de religião, ética e cultura que direciona a vida social e familiar, as práticas agrícolas e as relações com os ancestrais. Em 1969, foi legalmente reconhecido, como integrante do hinduísmo, uma das religiões oficiais da República Indonésia.
Mãos à obra
Refletir e trocar ideias:
•    O que é mais impactante nos costumes religiosos e familiares do povo toradja?
•    Como lidamos com a morte na sociedade urbana atual?
•    A cultura tradicional toradja conserva algum valor ainda válido para a vida moderna?

Fonte: Dia-Edição 81 - Jan/Mar 2016
Postado por: Diálogo




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