Ecologia de saberes

Data de publicação: 13/09/2017

Por Elizabete Oliveira *

“Nossas palavras se ajuntavam uma na outra era por amor e não por sintaxe”.
Manoel de Barros

Ao enveredarmos por entre as trilhas da poesia de Manoel de Barros, temos a percepção de que tudo que abordarmos a respeito da produção desse poeta ainda se trata de olhares de principiante, pois, tal qual uma fonte inesgotável de águas corredeiras, as despalavras desse pantaneiro mato-grossense nos surpreendem sempre com novas imagens, que, por sua vez, gestam outros sentidos.

Delírios verbais do poeta
A visão crianceira de Manoel de Barros é a responsável por seus delírios verbais, que, por intermédio de um olhar destituído de normas e convenções, sempre e, por inúmeras vezes, se percebe como a novidade presente no mundo. E, nessa cosmovisão, nos permite compreendermos que antes de nos deparar com um mundo regido por normas e convenções sociais, já fizemos parte de um uni-verso pautado nas percepções sensoriais. Diz o poeta no livro Poesia Completa, p. 383:

Despalavra 
Hoje eu atingi o reino das imagens, o reino da despalavra.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades humanas.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades de pássaros.
Daqui vem que todas as pedras podem ter qualidade de sapo.
Daqui vem que todos os poetas podem ter qualidades de árvore.
Daqui vem que os poetas podem arborizar os pássaros.
Daqui vem que todos os poetas podem humanizar as águas.
Daqui vem que os poetas devem aumentar o mundo com suas metáforas.
Que os poetas podem pré -coisas, pré-vermes, podem pré-musgos.
Daqui vem que os poetas podem comprender o mundo sem conceitos.
Que os poetas podem refazer o mundo por imagens, por eflúvios, por afeto.


O vocábulo despalavra tem o prefixo des, utilizado para mostrar que não se trata de palavras utilizadas na acepção convencional, mas de outras que assaltam o sentido originário. Portanto, neste mundo onde as coisas da natureza se apresentam destituídas de convenções, o poeta nos presenteia com uma percepção ética e estética do mundo.
Palavras, do livro Poesia Completa, de Manoel de Barros, as p. 392-393: “Veio me dizer que eu desestruturo a linguagem. Eu desestruturo a linguagem? Vejamos: eu estou bem sentado num lugar. Vem uma palavra e tira o lugar debaixo de mim. Tira o lugar em que eu estava sentado. Eu não fazia nada para que uma palavra me desalojasse daquele lugar. E eu nem atrapalhava a passagem de ninguém. Ao retirar debaixo de mim o lugar, eu desaprumei. Ali só havia um grilo com sua flauta de couro. O grilo feridava o silêncio. Os moradores do lugar se queixam do grilo. Veio uma palavra e retirou o grilo da flauta. Agora eu pergunto: quem desestruturou a linguagem? Fui eu ou foram as palavras? E o lugar que retiraram debaixo de mim? Não era para terem retirado a mim do lugar? Foram as palavras, pois, que desestruturaram a linguagem. E não eu”.
O poeta, ao levantar as pequenas coisas do chão, apresenta teias de aprendizagens que permitem ao ser humano se perceber como integrante do meio em que vive, compreendendo-se entrelaçado à dinâmica global. É com essa arte/brincadeira, com seus delírios verbais, que ele embevece o leitor e o emaranha ao seu enredo gestador de sentidos. Assim, se são as palavras que assaltam o poeta, elas devem ser percebidas por suas disfunções e não por sua ação inflexível de significar.

Palavra em estado puro
Cada vez que nos servimos das palavras, as mutilamos. O poeta, porém, não se serve de palavras. É seu servo. Ao servi-las, devolve-as à sua plena natureza, fá-las recuperar seu ser. Graças à poesia, a linguagem reconquista seu estado original. Primeiramente, seus valores plásticos e sonoros, em geral desdenhados pelo pensamento; em seguida, os afetivos; por fim, os significativos. Segundo o Prêmio Nobel de Literatura, Octavio Paz, no livro A Arca e a Lira, à p. 58, “purificar a linguagem”, tarefa do poeta, significa devolver-lhe sua natureza original.
Ao transformar a natureza em palavras, o poeta devolve-lhe o seu estado original, onde esta não mais é concebida ao usufruto do ser humano. Ao contrário, é vista como ele próprio, ser humano/mundo, aliado à procura incessante pelo bem viver em comunhão com o outro. Visto sobre esse ângulo, o poeta se apresenta como um ser humano rebelde, que, ao invés de contaminar a natureza com conceitos prévios, se deixa contaminar por ela, fazendo transparecer pela linguagem a gênese fecunda e promíscua da ecologia presente no mundo.

Natureza é uma força que inunda como os desertos.
Que me enche de flores, calores, insetos,
e me entorpece até a paradeza total dos reatores.
Então eu apodreço para a poesia... 
                                                                                              (Barros, 2010, p.179)

Ao emprenhar o poeta, as palavras corrompem os veios da linguagem, assim com sua alma de menino. Ao sair da sua concha e brincar com as palavras, Barros desestrutura a linguagem, e a metamorfose acontece – é poesia. Nesse espaço não se permitem hierarquias, não há poder classificador, as palavras se tornam essências, adubo fértil na composição de existências. Ainda na obra Poesia Completa, à p.7, Manoel de Barros diz: “A poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades”.
O nada visto pela lente do poeta torna-se instituinte, carregado de significâncias.  O poeta reforça, em inúmeros momentos, que, com suas despalavras, nunca quis dizer nada, apenas construir brinquedos ou, quem sabe, transformar-se em palavras para germinar esperanças. Acredito que o poeta, na sua grandeza existencial, talvez queira apenas incitar que percebamos o nosso nada mais profundo e, tal qual Martin Buber, no livro Eu e Tu, p. 69, diz: “Não tenho ensinamentos a transmitir. (...) Tomo aquele que me ouve pela mão e o levo até a janela. Abro-a e aponto para fora. Não tenho ensinamento algum, mas conduzo um diálogo”.
Acima das convenções
As palavras que desacomodam o poeta e que desestruturam a linguagem são aquelas que foram abandonadas pelo mundo das convenções, deixadas na sarjeta. Elas nos convidam a criar sentidos, a perceber que, “só existe saber na invenção, na reinvenção, na busca inquieta, impaciente, permanente que os homens fazem no mundo, com o mundo e com os outros” (Paulo Freire, no livro Pedagogia do Oprimido, p. 58).

A maior riqueza do homem é
a sua incompletude.

Nesse ponto sou abastado.

Palavras que me aceitam como sou

eu não aceito.

Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas,

que puxa válvulas, que olha o relógio,

que compra pão às 6 horas da tarde,

que vai lá fora,

que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.

Perdoai.

Mas eu preciso ser Outros.

Eu penso renovar o homem usando borboletas.

                                                           (Barros, 2010, p.374)


Manoel declara que seu intento maior é transformar a natureza em palavras, que é assaltado por elas de tal modo que se torna impossível não lhes dar ouvido (cf. carta endereçada à autora, julho de 2010). Longe de apresentar uma linguagem simplista ou palavras ingênuas, trata-se, o poeta, de um ser humano composto por palavras, que com suas andarilhagens pelo mundo saiu da concha (pantanal de Mato Grosso) a semear despalavras, das quais brotaram aves, passarinhos, árvores, gentes... e coisas. É a natureza e o ser humano vistos de maneira indissociável, transformados em palavras. Os nadas manoelinos que levantam a pó-ética do/no mundo.
* Elizabete Oliveira
Graduada em Letras e especialista em Língua Portuguesa e suas literaturas, pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), mestra em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários pela Unemat. É integrante do grupo de pesquisa: Maria de Arruda Müller e Dunga Rodrigues, agentes culturais pioneiras em Mato Grosso, e autora do livro A Educação Ambiental & Manoel de Barros – Diálogos Poéticos (veja anúncio na 4ª capa). Contato: elizabte@gmail.com.

Referências
BARROS, Manoel. Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2010.
BUBER, Martin. Eu e Tu. São Paulo: Cortez & Moraes, 1977.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. São Paulo: Cortez, 1987.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
PAZ, Octavio. O Arco e a Lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

Fonte: Dia-Edição 81 - Jan/Mar 2016
Postado por: Diálogo




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