O pequeno Guardião das Florestas

Data de publicação: 18/09/2017

O pequeno Guardião das Florestas

O patrimônio cultural imaterial dos povos é como uma majestosa floresta, onde, em uma incontável diversidade, as tradições dependem umas das outras para existir, enraizadas no solo dos tempos e das culturas.
Os mitos, as lendas, as crenças e os costumes populares transmitidos entre gerações comprovam que o uso abusivo dos recursos naturais sempre foi visto como infração grave, por isso, a maioria dos povos possui, em seu conjunto de tradições orais, a descrição de seres míticos encarregados de disciplinar os malfeitores da natureza e proteger suas potenciais vítimas. É o caso do curupira, o guardião das matas brasileiras e uma das mais conhecidas figuras do nosso imaginário popular.

Traquinadas do bem
Conforme a interpretação do folclorista brasileiro Luís da Câmara Cascudo, no verbete Curupira do Dicionário do Folclore Brasileiro (São Paulo: Edições Melhoramentos, em convênio com o Instituto Nacional do Livro e o Ministério da Educação e Cultura, 1979 pp.273-274), o nome vem do tupi: curu, menino; e pira, corpo; Os índios Macuxi de Roraima o conhecem como Pocai; já os Pariqui do Amazonas o chamam Iuorocô. É um adolescente baixinho, de cabelos ruivos, extraordinária força física e pés invertidos e velozes, que o ajudam a estar quase em todos os lugares da mata ao mesmo tempo, sem que alguém possa seguir seus rastros. Em algumas regiões a crença acrescenta-lhe um companheiro, o porco-do-mato, que lhe serve de montaria. Ele não é mau, mas é maroto e prega peças em quem invade a floresta. Confunde os caçadores com assobios idênticos aos dos animais, troca o sentido dos caminhos, faz as pessoas se perderem e ainda torna a caça invisível para não ser capturada.
A figura do espírito guardião não é apenas brasileira. Sempre com variantes na aparência física e nos modos de advertir e punir os destruidores das matas, ele é conhecido nas tradições dos índios Guarani do Paraguai e da Argentina, que o chamam Curupi, enquanto na Venezuela seu nome é Máguare e na Colômbia, Selvage; no Peru, é conhecido como Chudiachaque, como Cauá pelos bolivianos e como Capitíu para os salvadorenhos. Tanta frequência leva os pesquisadores a concluir que ele tenha surgido da miscigenação das crenças religiosas indígenas em um espírito protetor das matas, com fragmentos de memórias sincréticas do mosaico popular europeu trazido pelos colonizadores. Estes lhe foram atribuindo peculiaridades físicas, provavelmente ausentes na mitologia indígena. Prova disso são as semelhanças com diversas figuras míticas descritas por autores da Antiguidade clássica, conforme descreve Luís da Câmara Cascudo na obra citada.

Zelo ecológico

O crescente empenho dos poderes públicos e de outras forças da sociedade em criar na população um pensamento de economia, cuidado e respeito em relação aos recursos naturais faz do Curupira uma figura simbólica atual. Ele reúne, ao mesmo tempo, vertentes culturais de passados remotos, evidentes na literatura antiga, e inspira sentimentos e atitudes de compromisso para com a natureza. O estado de São Paulo, desde 1970, o instituiu como símbolo da preservação da Mata Atlântica e da fauna nativa, com o título de Guardião das Florestas, e lhe dedicou um monumento no horto florestal da capital paulista.
Um personagem lendário é sempre perene, porque personifica vivências do ser humano repetidas em todos os tempos. Principalmente um protetor do ambiente natural, que pode ser visto como figura mítica primordial e também como símbolo da resistência frente aos riscos que a natureza enfrenta hoje, bem mais amplos, sem dúvida, do que todos os perigos do passado. 
Mãos à obra
  • Ler o texto com os estudantes ou explicá-lo com palavras mais acessíveis.
  • Salientar que o Guardião das Florestas não é um adulto, mas um menino, um adolescente.
  • Lembrar problemas ecológicos do momento, além da destruição das florestas e da extinção de espécies nativas.
  • Escolher algumas das canções relacionadas a seguir, lançadas duas ou três décadas atrás, e verificar se os problemas que apontam já foram solucionados ou se continuam graves.
  • Pedir que a turma identifique ações que possam ser assumidas na sala de aula, na escola, em casa e no meio ambiente.
  • Organizar as ações em forma de campanha ecológica, convocando as crianças e os adolescentes a darem bons exemplos aos adultos.
  • Ter o Curupira como personagem símbolo da campanha: criar título, slogan, música, cartaz etc.

Composições de Roberto Carlos e Erasmo Carlos com temas ecológicos

As Baleias – álbum Roberto Carlos – 1981
Amazônia - álbum Roberto Carlos – 1989
A montanha – álbum A Janela – 1972
O Progresso - álbum Roberto Carlos – 1976
Paz na Terra - álbum Roberto Carlos – 1985
Ano passado - álbum Roberto Carlos – 1979
A Guerra dos Meninos - álbum Roberto Carlos – 1980
Eu Quero Apenas – álbum Roberto Carlos – 1989

Fonte: Edição Nº82 - Abr/Jun 2016
Postado por: Diálogo




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