Páginas do tempo

Data de publicação: 19/09/2017

Por Madalena Costa

    Das maravilhas criadas pelo talento da humanidade, algumas resistiram ao passar dos capítulos da História. Agora, quando as maiores bibliotecas do mundo estão sendo digitalizadas, podem ser conhecidos milhões de páginas de todas as épocas e línguas, portadoras da maior maravilha de todos os tempos, a única a conquistar status de arte dos deuses, a escrita.

A vida em letras
A honra ao mérito da escrita como atividade do espírito humano é prestada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em 23 de abril, Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais. Felizes os escritores! São partes de uma corrente contínua, presa ao elo que ligou o pensamento a uma representação simbólica, no mais profundo dos tempos. Quando os primeiros lampejos de inteligência brilharam na terra, os seres privilegiados inventaram instrumentos capazes de aumentar o alcance do corpo nas lidas de sobrevivência. O registro de ideias, no entanto, foi o par de asas que potencializou a memória, a imaginação e o sonho, projetando os humanos na história e no futuro. Por isso, a escrita é a certidão de nascimento das civilizações.
As bibliotecas, muitas delas, verdadeiras obras de arte, como a da abadia beneditina de Admont, nos alpes austríacos, são recintos sagrados onde livros raros e antigos manuscritos são protegidos há séculos. É difícil dizer onde foi montada a primeira biblioteca no mundo. Os chineses, os persas, os egípcios, os assírios, os babilônios já reuniam escritos gravados em argila, pedra, bambu, cânhamo, madeira, papiro e pergaminho. E a mais antiga biblioteca conhecida é a de Nínive, capital do Império Assírio (atual Iraque), reunida pelo rei Assurbanipal no século 7º a.C. (antes da Era Comum ou Era Cristã). Guardava milhares de escritos em argila, referentes a religião, magia, história, astronomia, botânica, zoologia, medicina e mapas.

O Brasil em páginas
As primeiras bibliotecas brasileiras pertenceram aos mosteiros e conventos coloniais, sendo a pioneira, a do Mosteiro de São Bento, em Salvador (BA), fundada em 1582. Com o acervo atual de mais de 100 mil livros, guarda cerca de 13 mil obras raras, algumas do começo do século 16. Reservados ao uso das comunidades religiosas e a poucos estudiosos, os livros não eram desfrutados pelo público, isso só começou com a vinda da família real portuguesa, no começo do século 19, quando o povo brasileiro, melhor dizendo, os cariocas, puderam ver de perto as grandes obras da Real Biblioteca, trazida de Lisboa. 
A Biblioteca Nacional do Brasil integra a Fundação Biblioteca Nacional e é classificada pela Unesco entre as dez maiores bibliotecas nacionais do mundo, com mais de 9 milhões de peças. Originada da família real, parte dela veio na mudança de Portugal para o Brasil, em 1808; outra parte, contida em 87 baús, ficou esquecida no porto, na pressa da viagem, sendo depois embarcada em remessas sucessivas, em 1910 e 1911.

 Memorial da Biblioteca
1808 – Chegam ao Rio de Janeiro 60 mil peças entre livros, manuscritos, mapas, estampas, moedas, medalhas e instrumentos de matemática e física.
1810 – Dom João VI inaugura a Real Biblioteca a 29 de outubro, sendo o acervo organizado nos porões do hospital da Ordem Terceira do Carmo.
1811 – Vem de Portugal o bibliotecário Luís Joaquim dos Santos Marrocos, trazendo os baús esquecidos.
1814 – A biblioteca é aberta à consulta pública.
1821 – A família real volta para Portugal e repatria boa parte do acervo.
1822 – Com a Independência do Brasil, a biblioteca passa a se chamar Biblioteca Imperial e Pública.
1825 – O Brasil paga a Portugal 800 contos de réis pelo acervo, quantia considerada exorbitante.
1855 – A biblioteca é transferida para o prédio da Rua da Lapa, hoje sede da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
1881 – É publicado um catálogo de grande precisão, com 1.758 páginas de texto e 98 de índices, até hoje consultado por pesquisadores de várias áreas do saber.
1885 – Os lampiões a gás do prédio dão lugar à luz elétrica. Os livros são contados e somam 140 mil, sem incluir manuscritos e ilustrações.
1891 – Com a República, o casal imperial é exilado e, após a morte da imperatriz, dom Pedro II doa sua biblioteca pessoal ao patrimônio público.
1895 – Novo inventário é feito e resulta em 231.132 livros impressos, 23.516 manuscritos biográficos, 23.519 manuscritos históricos, 115.513 códices encadernados, 22.863 moedas e medalhas, num total de 416.543 peças.
1900 – O último relatório do século mostra o prestígio da biblioteca. Em uma população de 50 mil pessoas, na maioria, analfabeta, a média de leitores é de 74 por dia.
1902 – A máquina de escrever chega aos escritórios da biblioteca.
1903 – É inaugurada a oficina tipográfica no primeiro andar.
1909 – O telefone é instalado, com 18 aparelhos e linhas internas.
1910 – Em seu centenário, a biblioteca é transferida para o prédio atual, dentro das normas técnicas da época nas maiores bibliotecas do mundo.
1946 – É adotado o revolucionário método de catálogo dicionário. No mesmo ano, é organizado o serviço especial de obras raras.
1960 – Nos 150 anos da biblioteca, são publicados, em fac-símile, alguns álbuns com textos originais e reproduções coloridas do acervo iconográfico.
1978 – A biblioteca passa a integrar o Comitê Internacional de Diretores de Bibliotecas; são implantados o sistema de catalogação internacional (ISBN), um terminal de processamento de dados, e a microfilmagem dos periódicos.
1998 – Os catálogos são publicados no site da biblioteca.
2006 – Surge a Biblioteca Nacional Digital (BNDigital), igual às maiores do mundo, no processo de digitalização, no acesso a obras de domínio público e nos serviços virtuais.
2010 – Em seus 200 anos, a biblioteca abre para o público o acervo de dom Pedro II, que ele mesmo dedicou à memória da esposa, com o título de Collecção Dona Thereza Christina Maria. São mais de 48 mil volumes entre livros, revistas literárias e científicas, estampas, fotos, partituras musicais e mapas impressos e manuscritos, muitos com dedicatórias autografadas dos autores para o imperador e a imperatriz. A coleção teve reconhecimento internacional em 2003, ao ser inscrita pela Unesco no Registro Internacional da Memória do Mundo.
A escrita, em suas mais diversas bases materiais e digitais, da argila à plataforma virtual, passa às páginas da História e registra o passado, o presente e o futuro da humanidade.

Mãos à obra
•    Consulte obras raras microfilmadas da biblioteca do Mosteiro de São Bento de Salvador: http://www.saobento.org/Biblioteca/biblioteca1.html
•    Conheça em pormenores o memorial da biblioteca Nacional: www.bn.br
•    Acesse as obras da Fundação Biblioteca Nacional e conheça o precioso legado de Dom Pedro II na Collecção Dona Thereza Christina Maria: www.bndigital.bn.br/acervodigital.
 

Fonte: Edição Nº82 Abr/Jun 2016
Postado por: Diálogo




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