Propostas educativas de Lutero

Data de publicação: 20/09/2017

Elcio Cecchetti *

Conhecido como um dos principais protagonistas da Reforma desencadeada na Alemanha no século 16, Martinho Lutero (1483-1546) também dedicou parte de seu tempo à proposição de outra organização para o sistema escolar. Diante da necessidade de possibilitar o acesso às Escrituras Sagradas para toda a população, Lutero procurou descentralizar o monopólio da Igreja sobre o ensino, que até então se destinava à formação do clero.
Embora se encontrem comentários sobre a temática da educação na obra de Lutero, é especificamente em dois textos que ele expõe sua posição sobre questões voltadas ao ensino. O primeiro, intitulado Aos conselhos de todas as cidades da Alemanha para que criem e mantenham escolas cristãs, trata-se de uma carta produzida em 1524 destinada aos prefeitos e câmaras municipais e, o segundo, Uma prédica para que se mandem os filhos à escola, refere-se a um sermão escrito em 1530.

Responsabilidade dos pais e do Estado
Lutero tratou de atacar o desinteresse dos pais em proporcionar o ensino aos filhos. O descaso com a educação constituía uma obra maligna, já que negligenciava o futuro dos filhos e da juventude provocando a ruína da sociedade. “Nenhum pecado exterior pesa tanto sobre o mundo perante Deus e nenhum merece maior castigo do que justamente o pecado que cometemos contra as crianças, quando não as educamos”, afirmava Lutero, (Aos conselhos de todas as cidades da Alemanha..., p. 307).
Além de apelar aos pais para que enviassem seus filhos à escola, ele solicitava doações para o sustento financeiro da educação, “pois um cristão verdadeiro é melhor e mais útil do que todos os seres humanos na terra” p. 305. Propunha que as autoridades assumissem as escolas até porque, o Estado, anualmente, levantava grandes somas para comprar armas, construir estradas, pontes, dique..., mas, “por que não levantar igual soma para a pobre juventude necessitada, sustentando um ou dois homens competentes como professores?”, p. 305.
Com esse argumento, Lutero objetivava responsabilizar as autoridades políticas e as famílias locais pelos encargos da educação escolar, que deveria ser assumida como função própria do Estado, para que se tornasse pública e obrigatória para todos. “Todos os meninos deveriam ser encaminhados aos estudos, especialmente os filhos da gente pobre, pois para essa finalidade foram instituídas as prebendas e os tributos de todas as fundações e conventos”, (Uma prédica para que se mandem os filhos à escola, p. 342).
A demanda da alfabetização para leitura e compreensão da Bíblia fez com que Lutero propusesse a organização de um sistema escolar de responsabilidade do Estado, o qual deveria custear a ampliação das escolas e a contratação de seus professores, já que a ele caberia educar tanto para a vida civil (dimensão secular), quanto para a vida religiosa (dimensão espiritual). Para bem educar as crianças, “precisa-se de gente especializada”, p. 308, já que a maioria das pessoas mais velhas não possuía aptidão para tal empreendimento, o que justificava a formação de educadores.

Ensino de línguas e o estudo da Bíblia
Lutero defendeu a criação de escolas públicas que tomassem a Bíblia como centro do ensino e que formassem bons cristãos. Por isso, além de responsabilidade dos pais, era dever dos governantes obrigar que seus súditos enviassem os filhos à escola. Ao adotar a Bíblia como texto-base de estudo, Lutero defende o ensino das línguas antigas para melhor estudá-la. Na Carta Aos Conselhos da Alemanha, apresenta vários argumentos sobre a importância do ensino do hebraico, grego e latim.
O conhecimento das línguas nas escolas cristãs era uma necessidade para alimentar a vida espiritual e a salvação das almas, pois a falta de conhecimentos linguísticos levaria ao tratamento inadequado das Escrituras. O estudo das línguas produziria, ainda, outro benefício aos cristãos: o estudo individual da Bíblia, sem a necessidade de mediação, o que garantiria maior autonomia, liberdade e a ampliação dos conhecimentos, pois “compete ao cristão ler a Sagrada Escritura como seu livro próprio e único, e visto que é pecado e vergonha quando não entendemos nosso próprio livro e não conhecemos a linguagem e a palavra de nosso Deus”, p. 315.

Estudo da História, das Ciências e das Artes Liberais
Além das línguas, Lutero recomendou o estudo das Ciências, das Artes Liberais e de outras disciplinas, principalmente a História, que serviria como uma orientação para posicionamento das crianças dentro do curso do mundo: “A História os tornaria prudentes e sábios, para saberem o que vale a pena perseguir e o que deve ser evitado nesta vida exterior, e para poderem aconselhar e governar a outros de acordo com estas experiências”, p. 319.
Reconhecendo que a juventude gostava de pular e dançar, Lutero sugere que nas escolas também se ofereçam essas atividades. Para ele, tudo deveria estar favorável para que as crianças estudassem com prazer. Na proposição de novos métodos, Lutero opõe-se ao antigo sistema escolar baseado em punições físicas e pressões psicológicas. Questiona inclusive a disciplina rígida com que os pais educavam os filhos: “Quando a disciplina é aplicada com maior rigor e tem algum resultado, o máximo que se alcança é um comportamento forçado ou de respeito; no mais continuam sendo meras toras, que não têm conhecimento nem nesta nem naquela área, não sabem responder nem ajudar ninguém”, p. 319.
Quanto aos livros didáticos, Lutero recomenda aos que se interessam pela criação e manutenção das escolas e do estudo das línguas na Alemanha, que “não poupem esforços nem dinheiro para a instalação de livrarias ou bibliotecas, especialmente nas grandes cidades que tenham condições para tanto”, p. 322. Para que o Evangelho e todas as artes fossem conservados, seria necessário registrá-los por escrito em livros e guardados nas bibliotecas, isso não somente para que os líderes espirituais e seculares tivessem literatura para ler, mas também “para que os livros bons sejam preservados e não se percam juntamente com as artes e línguas que agora temos pela graça de Deus”, p. 322.

Educação para todos
Em relação ao tempo dedicado ao estudo, Lutero sugere que os meninos sejam enviados às escolas diariamente, por uma ou duas horas, para que, ao mesmo tempo, possam fazer o serviço de casa e aprender um ofício. O mesmo recomenda às meninas, que podem frequentar as aulas e cumprir suas tarefas domésticas.
Os melhores alunos deveriam ser qualificados para o cargo de professores, pregadores e outros cargos clericais, oferecendo-lhes um estudo intensivo, até destiná-los exclusivamente ao estudo. Por isso, denuncia o fato de as pessoas simples muitas vezes se preocuparem apenas em instruir os filhos quanto a um ofício para que possam contribuir financeiramente com o rendimento da família, prejudicando-os por não os enviarem à escola.
Como vimos, Lutero defende que a responsabilidade pela educação escolar, enquanto direito e dever de todos, deveria ser transferida do âmbito da Igreja para o Estado, especificamente para as autoridades municipais. Essas instâncias locais deveriam ser as responsáveis pela criação, manutenção e financiamento das escolas e pela supervisão dos pais, garantindo que eles enviassem de fato os filhos à escola. “Será da competência do conselho e das autoridades dedicar o maior cuidado e o máximo empenho à juventude (...) o melhor e o mais rico progresso para uma cidade é quando possui muitos homens bem instruídos, muitos cidadãos ajuizados, honestos e bem-educados”, p.309
A proposta de Lutero em relação às escolas é a de que elas sejam cristãs e atendam a todos, pois dela dependia a preparação de ministros e de bons administradores da casa, dos filhos, dos municípios e de suas próprias vidas. Da instrução, dependia também a continuidade de existência do ministério e do estado eclesiástico, o que faz Lutero apelar para que os pais enviem seus filhos para a escola.
Portanto, Lutero foi um grande defensor de uma escola pública e cristã. Os textos de 1524 e 1530 evidenciam uma nova proposta para a organização do ensino, de frequência obrigatória, financiada pelas autoridades locais. Sem explicitar programas curriculares, ele contribuiu para a valorização do ensino das línguas – imprescindíveis à leitura da Bíblia – para a constituição de boas bibliotecas, para a ampliação da qualidade do ensino, inclusive através do recrutamento de gente especializada. Mais ainda, defendeu que a instrução se libertasse do monopólio da Igreja, acessível apenas a alguns, e adquirisse o caráter de direito público. Suas propostas foram fundamentais para que a educação escolar tenha se tornado um serviço essencial à sociedade.

Referências
LUTERO, M. Aos conselhos de todas as cidades da Alemanha para que criem e mantenham escolas cristãs. In: _____. Martinho Lutero: Obras selecionadas. São Leopoldo: Comissão Interluterana de Literatura, 1995, v. 5, pp. 302-325.
_____. Uma prédica para que se mandem os filhos à escola. In: _____. Martinho Lutero: Obras selecionadas. São Leopoldo: Comissão Interluterana de Literatura, 1995, v. 5, pp. 326-363.
* Elcio Cecchetti.
   Doutor e mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Técnico da Secretaria de Estado da Educação de Santa e coordenador do Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso (Fonaper).


Fonte: Edição Nº87 Jul/Set 2017
Postado por: Diálogo




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