A resistência dos Guarani-Kaiowá

Data de publicação: 20/09/2017

Por Karla Maria

Retomar é verbo transitivo direto que significa tornar a tomar, seja algo concreto ou abstrato, algo que se perdeu; recuperar, reaver. Eis o verbo que os Guarani-Kaiowá mais têm conjugado no estado do Mato Grosso do Sul, e aqui no sentido de retomar algo bem concreto: suas terras.
Antes das retomadas de terra, rezadores locais costumam realizar um ritual religioso, o jeroky, que acontece na casa de reza, o coração da aldeia. Quando os m’barakás (espécie de chocalhos) se agitam as energias ruins vão embora. Ali, a natureza é a base da religião. Ñane Ramõi é Deus. E é a ele que os indígenas recorrem para liderar suas retomadas, pedindo acompanhamento espiritual e proteção.
Os rituais – jeroky – e as rezas – ñengary – não são iguais e não têm as mesmas funções, explica o indígena Adão Ferreira Benites, graduado em Licenciatura Indígena Teko Arandu, na Universidade Federal da Grande Dourados. “Há diferentes tipos de rituais: cada reza e ritual é realizado para resolver um determinado problema específico do indivíduo e do coletivo”.

Lideranças indígenas ameaçadas de morte
O problema dos Guarani-Kaiowá é coletivo. Segundo o Censo 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), eles somam cerca de 80 mil habitantes no estado sul-mato-grossense, sendo o 2o maior número absoluto de habitantes indígenas do Brasil. Representam 9% da população indígena de todo o País.
Eliseu Lopes é um destes habitantes. Tem 39 anos de idade, é uma liderança dos Guarani-Kaiowá e membro do Conselho da Aty Guasu. Eliseu está ameaçado de morte por denunciar o sufoco que vivem os indígenas naquele estado há mais de três décadas.
“As lideranças porta-vozes das causas dos indígenas e que realmente fazem parte da grande Assembleia Aty Guasu, onde todos os Guarani congregam, estão ameaçadas porque estamos denunciando o que vem acontecendo com os Guarani-Kaiowá aqui no Mato Grosso do Sul. A gente não esconde a situação e por isso estamos sendo ameaçados pelos fazendeiros e pecuaristas”, desabafou Eliseu.
Para ele, esta é uma situação de guerra, a qual o povo indígena não tem mais esperança de que governo nenhum resolva. “O fazendeiro quer que o indígena pare de fazer a retomada. Mas nossa comunidade de mais de 40 mil indígenas divididos em diversos municípios está decidida a permanecer nas terras já retomadas”.
A guerra se revela em números. Segundo o relatório Violência Contra Indígenas no Brasil, feito pelo o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) em 2015, 41 pessoas foram mortas, ou 29% dos casos em todo o país. Destes, 68% das vítimas eram do sexo masculino e 32% do feminino. “A faixa etária com maior incidência de vítimas foi a de 20 a 29 anos (32%). Também preocupa o registro de assassinatos na faixa etária de dez a 14 anos (12% dos casos). Dourados foi o município com o maior número de casos (40%), seguido de Amambai (34%)”.

Conflitos por falta de demarcação de terras
“Até hoje o Estado brasileiro não resolveu essa questão (demarcação de terras) nem para o lado dos indígenas nem para o lado dos fazendeiros, e por conta disso tem essa disputa de terra, essa violência. Estamos sob uma série de ataques dos jagunços, e por isso nós, indígenas, estamos retomando as terras tradicionais e eles (fazendeiros) alegam que têm documentos que comprovam que governos anteriores lhes deram os títulos de terras, então há esse conflito e cabe ao governo definir essa situação”, esclarece Eliseu.
Os conflitos acerca da demarcação de terras Guarani-Kaiowá têm aumentado com a morosidade do Estado brasileiro em encaminhar estudos e fazer as demarcações e homologações. Atualmente 69 territórios indígenas dos Guarani-Kaiowá já foram declarados, mas aguardam demarcação; 44 estão identificadas (já foram analisadas por grupos técnicos da Funai e aguardam decisão do ministro da Justiça); 175 a identificar (estão incluídas na programação da Funai para identificação futura); 398 estão registradas (tiveram a demarcação concluída e registrada no Cartório de Registro de Imóveis da Comarca e/ou no Serviço do Patrimônio da União) e outras 352 estão sem providências.
Segundo o Cimi, se todas as demarcações que os indígenas exigem fossem de fato realizadas, a extensão destes territórios significaria menos do que 2,5% das terras do Estado de Mato Grosso do Sul. “São apenas migalhas do roubo histórico de nossos territórios que continuam nos dando, enquanto os ruralistas se aproveitam da paralisação das demarcações”, denunciam os membros do Grande Conselho Guarani e Kaiowá, em carta destinada às autoridades públicas e à sociedade brasileira.
Sem proteção e demarcação, os indígenas buscam por suas mãos e suor o cumprimento de direitos garantidos pela Constituição Federal de 1988 e, nessa batalha “silenciosa”, distante dos holofotes da grande mídia brasileira e dos cenários político e econômico, comunidades indígenas são invadidas e lideranças assassinadas.

Suicídio de jovens indígenas
Na mesma carta, o Grande Conselho Guarani e Kaiowá da Aty Guasu, do qual Eliseu faz parte, lembrou suas origens e agora seus temores. “Antigamente vivíamos do Rio Brilhante ao Rio Paraná. Éramos livres, sonhávamos, rezávamos, dançávamos e caminhávamos. Éramos felizes de nosso nascimento até o dia de nossa morte. Agora não ocupamos nem sequer 0,2% de todas as terras do Mato Grosso do Sul. Genocídio e etnocídio!”, denunciam.
Sobre o futuro questionam a qualidade de vida de suas crianças e o que lhes espera. “Neste confinamento nossas crianças têm os rostos tristes, sorriem cada vez menos”.
Relatório do Ministério da Saúde revela que, de 2000 a 2013, 662 indígenas se suicidaram no Mato Grosso do Sul. Esse número é mais concentrado entre a juventude indígena. "Tivemos, em 2015, 45 casos de suicídio no Mato Grosso do Sul. Setenta e três por cento são do sexo masculino e 27% do feminino. Os maiores índices ocorrem entre jovens de dez a 19 anos. Essa faixa etária corresponde a 61% de todos os casos de suicídio indígena", disse Fabiane Vick, representante da Secretaria Especial de Saúde Indígena, órgão ligado ao Ministério da Saúde, durante Fórum Permanente da ONU sobre Questões Indígenas.
Segundo Vick, há registros sobre crianças de até dez anos que também tiraram a própria vida. "A questão do choque cultural é um fator que contribui bastante, a falta de perspectiva de vida nesses jovens. Essas aldeias, especificamente no Mato Grosso do Sul, estão muito próximas dos centros urbanos. Além da questão da pobreza que, infelizmente, tem impacto direto porque as famílias entram em crise".
Para Eliseu Lopes, o suicídio não é uma questão cultural. “Muita gente fica dizendo que o suicídio no meu povo sempre foi assim, faz parte da cultura da gente. Não é verdade. Isso começou forte depois que passamos a ser expulsos das nossas terras, vivendo confinados em reservas, sem perspectiva, na beira de estradas”, declarou Eliseu na ocasião do encontro da Relatoria Especial para os Direitos dos Povos Indígenas das Nações Unidas, em Nova York.
Ele, que é pai, afirma que a falta de oportunidades e a situação de violência em que vivem leva alguns jovens e crianças ao desespero. “Os jovens aqui não têm oportunidade para o estudo, para o lazer com as suas famílias. Aqui a gente não tem nada, e os jovens passam por isso, por desespero e falta de perspectiva”, conclui o líder.

Resistência e esperança dos jovens
Na fronteira com o Paraguai, na cidade de Paranhos, ainda no Mato Grosso do Sul, cerca de 300 jovens indígenas se reuniram entre os dias 21 e 24 e julho no tekoha Takuaraty/Yvykuarusu para realizar a Retomada da Aty Jovem (RAJ).
Ali, 90% dos jovens falavam Guarani, uma incógnita para os não indígenas, e entre os participantes estavam filhos, netos e sobrinhos das lideranças assassinadas no contexto da luta pela terra – como os netos de Nízio Gomes, morto em 2011.
São jovens que vivem na "zona de transição" interétnica entre os Guarani e Kaiowá e os não indígenas. Vão à escola na cidade, consomem no comércio local, trabalham em fazendas e frigoríficos, vão ao banco, ao hospital, à universidade. Fazem rap, aprendem a rezar para ser ñanderu e ñandesy. Mantêm-se ligados ao fermento Kaiowá e Guarani: a retomada dos tekoha, os lugares sagrados onde vivem seus antepassados.
A seguir um trecho da carta desses jovens à sociedade brasileira. Uma carta de resistência e esperança:

“Não somos mais as crianças indígenas de olhar assustado após cada despejo e cada ataque como já fomos. Não somos mais pequenos com falta de esperança, com nossas mãos pequenas cortando cana, como muitos de nós fomos. Não somos mais aqueles que tiraram a própria vida como muitos de nossos irmãos fizeram.O destino nos vestiu diferente, nos vestiu com a luta e com a resistência de nossas lideranças e de nossos antepassados. Por isso afirmamos que hoje nosso hip hop continua sendo marcado pelo som de nossos mbaraka e do taquapy. Que, mesmo acessando estudo, tecnologia, espaços e cidades, bate dentro de cada peito um coração originário [...] Mas acima de tudo lutaremos pelas nossas terras, pois somos filhos delas.”

Fonte: Edição Nº84 Out/Dez 2016
Postado por: Diálogo




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