A morte (por quem) tem uma vida pela frente

Data de publicação: 03/10/2017


Amarildo Vieira de Souza *

Vivo, e não sei quanto; morro, e não sei quando.
Ando, e não sei para onde; Admiro-me de estar tão alegre.
Antiga poesia alemã

     Quando ouvimos alguém dizer, “a vida tá dura”, “a vida não é fácil”, “a vida cansa”, não quer dizer, automaticamente, que se anseia pela morte. Viver não é complicado, viver é complexo, e, quanto mais experiências temos, mais sentimos que esse processo, chamado ‘vida’, é a grande riqueza do ser humano, mesmo sendo um mistério. Na jornada temporal, que é a vida, onde nos relacionamos, decidimos, organizamos e até temos um certo controle sobre as coisas, já é difícil entender e explicar o que é viver, imagine entender o que é morrer. Pois bem, para acrescentar um ingrediente mais reflexivo, pense numa pessoa em formação, que vê o futuro (muito) ao longe, o presente como grande potência e um passado tão recém- constituído. Falar de morte é como falar de aposentadoria, a expressão que se ouvirá: “vixe’, tá longe!”.
     Consultando um grupo de alunos de Ensino Médio sobre o tema, percebi que algumas ideias são recorrentes. Falar sobre esse fenômeno, próprio de todo ser vivo, é motivo de desvio de assunto. Alguns pontos, porém, chamam a atenção.

A natureza da morte

    A juventude tem a percepção de que a morte é uma realidade inevitável, questiona-se sobre o que vem depois, e muitos não têm preocupação com aquilo que é tradição de diversas religiões, ou seja, atrelar comportamento, postura ou crença a um destino que seja melhor ou pior (céu ou inferno), de permanência ou retorno (ressurreição ou reencarnação). Há uma clara demonstração de que ‘o hoje’, ‘o agora’, não tem importância; deve haver um lugar bom para todos. Por ser inevitável, a preocupação maior é com o tempo de vida.
     Não parece que o verbo morrer tenha espaço na conjugação em primeira pessoa, no presente e no futuro. Os perigos são desafiados de maneira destemida, como se houvesse uma proteção contra qualquer risco, e ainda, se houver risco, tudo estará sob controle. O fato de se ter vigor físico alimenta a impressão de que a realidade da morte atinge apenas os frágeis (crianças e idosos). Aliando-se a isso a proteção grupal, que geralmente caracteriza essa faixa etária, cresce a impressão de que a vida está resguardada. Logo, a morte “vai ter de esperar”. Além do que há uma representação criada e alimentada, nessa fase da vida, que é a de ser um herói imbatível e imortal. O temor sobre essa ilustre “(des)conhecida”, nos faz lembrar do filósofo Epicuro quando escreve a Meneceu (Carta sobre a Felicidade).
(...) o mais terrível de todos os males, a morte, não significa nada para nós, justamente porque, quando estamos vivos, é a morte que não está presente; ao contrário, quando a morte está presente, nós é que não estamos.A morte, portanto, não é nada, nem para os vivos, nem para os mortos, já que para aqueles ela não existe, ao passo que estes não estão mais aqui. (...)

Fé nos projetos de vida
     Um outro dado relevante é o fato de que, neste período da vida, a juventude, os projetos se concretizarão dentro de um tempo garantido pela idade. Não creem que todo esforço em pensar na profissão e se preparar para ela, pensar os projetos pessoais e se preparar para eles ou construir uma identidade e viver para ela vá resultar numa surpresa desagradável e injusta, que é a morte. Por isso, muitas vezes, não se conformam com a morte de amigos. “A vida não tem o direito de cercear o tempo daqueles que ainda não ‘viveram tudo,.” Por isso, revoltam-se, de forma radical, e a expressão é clara quando ocorre a perda de algum amigo. Ficam inconsoláveis. Em todo projeto, de presente e de futuro, esse rito de passagem chamado morte não encontra espaço. É compreensível, afinal, seria anormal apostar num sonho de realizações, considerando o pesadelo de uma interrupção.
     Uma instituição que oferece estágio a jovens de 15 a 26 anos fez uma consulta a aproximadamente 7.800 deles aplicando uma pergunta: “Como você vê a morte?”. Ao lado vemos as respostas mais frequentes.
 
    (...) dentre as opções disponíveis, o resultado evidenciou a ampla reflexão da maioria sobre esse polêmico assunto: 55,07% escolheram “Com naturalidade, pois todos iremos morrer”. Já na sequência, 29,21% optaram por “Não pensar nisso e viver cada dia intensamente”, e ainda “Eu tenho muito medo de morrer sem realizar meus sonhos”, 12,68%.
    (Disponível em: https://www.nube.com.br/imprensa/noticia?id_noticias=9803#.V79RZfkrLIU)

A morte evidencia coragem e medo
     Se o assunto é tratado de “peito aberto” em relação a si, já não o é em relação aos próximos que amam. Quando a juventude precisa discutir, refletir ou enfrentar essa realidade, o medo aparece. Perder um ente querido é algo de difícil entendimento ou aceitação. O mistério do desconhecido, a incerteza do reencontro, a ausência presente no dia a dia deixam o jovem sem prumo. As frases comuns são “nem quero pensar nisso”, “que isso nunca aconteça”, “meu coração já fica apertado de saudade”. Pensar na perda das referências afetivas levam a uma reflexão muito rica, seja na direção da própria vida ou ainda na qualidade das relações estabelecidas. Nesse momento, aflora o valor da crença religiosa, pois, aqui, o conforto (explicação) e a esperança (fé) ajudam a enfrentar e superar a dificuldade da separação.
     Mesmo que num primeiro momento haja uma revolta contra tudo. Com o passar do tempo, o pensamento decanta, e fica a certeza de que “um dia nos encontraremos”. A juventude é isso, um emaranhado de sentimentos frente a tudo que vive, a tudo que experimenta. A morte, numa sociedade hedonista, não cumpre seu papel de refletir sobre a vida. O afastamento da juventude nos momentos de velório, de despedida, tira a oportunidade de perceber, na realidade, a finitude humana. Vale a pena relembrar o que disse Rubem Alves, em sua obra, O Médico.
     Houve um tempo em que nosso poder perante a morte era muito pequeno. E por isso, os homens e as mulheres dedicavam-se a ouvir a sua voz e podiam tornar-se sábios na arte de viver. Hoje o nosso poder aumentado, a morte foi definida como a inimiga a ser derrotada, fomos possuídos pela fantasia onipotente de nos livrarmos de seu toque. Com isso, nós nos tornamos surdos às lições que ela pode nos ensinar. E nos encontramos diante do perigo de que, quanto mais poderosos formos perante ela (inutilmente, porque só podemos adiar...) mais tolos nos tornamos na arte de viver.
     Quem trabalha sobre a morte com a juventude precisa ter coragem e tato para não deixar que esse tema caia no esquecimento. Embora tal tema tenha limites de abordagens, a partir da faixa etária de cada grupo, esses limites não podem ser a exclusão ou a indiferença. A morte tem sido banalizada, e, cada vez mais, o índice de mortalidade entre a juventude tem crescido. Não será o medo de morrer que fará os jovens tomarem mais cuidado, mas será a alegria, o prazer de viver, que os tornará mais apaixonados pela vida.

* Amarildo Vieira de Souza
Mestre em Educação, professor de Ensino Religioso e coordenador do curso de Formação de Professores de Ensino Religioso nas Faculdades Salesianas de São Paulo (SP).

Fonte: Edição Nº85 Out/Dez 2016
Postado por: Diálogo




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