Antônio Conselheiro

Data de publicação: 05/10/2017

Pedro Lima Vasconcellos *

Ele já foi chamado um “messias de feira”, nos termos sempre venenosos de Euclides da Cunha, que também o entendeu como um profeta desvairado que anunciava o fim do mundo a uma massa de penitentes fanatizados e maltrapilhos. Assim ele foi “vendido” e imposto à consciência nacional, e mesmo um conjunto importante de investigações ocorridas desde meados do século passado não logrou redesenhar sua imagem perante ela. No entanto, esta é uma tarefa que urge. São vários os elementos que demandam uma reavaliação, não só da pessoa, mas dos termos em que ela se postou à frente de uma das mais expressivas manifestações da organização popular no Brasil. Estou falando de Belo Monte (BA), e seu líder Antonio Vicente Mendes Maciel (1830-1897), o Antonio Conselheiro. A comparação deste com outras figuras de proa dos movimentos de alternativas sociais e religiosas surgidos no âmbito do catolicismo popular (por exemplo, com os monges e videntes do Contestado) bem seria conveniente e iluminadora; mas me atenho, em vistas a um olhar mais detido, àquela que, nos primórdios da República, a fez tremer em seus mais altos escalões, bem como a Igreja Católica em suas mais distintas hierarquias.

A pergunta pelos vínculos

O sempre atento Machado de Assis, ao filtrar cuidadosamente o que lhe chegava pela imprensa, soube distanciar-se da quase unanimidade estabelecida em torno do que ocorria no arraial que chamavam Canudos. E, irônico, fazia uma pergunta decisiva, sobre os vínculos que prendiam “tão fortemente os fanáticos ao Conselheiro”. Aquele homem que em quase 20 anos de vida andarilha reuniu o povo em torno de rezas, construção de igrejas, cemitérios, pontes, açudes, polemizando aqui e ali com um delegado, superando não poucas vezes o prestígio dos padres. Sim, a gente sertaneja preferia ouvir o que lhe tinha a dizer aquele que diretamente partilhava a sua vida, atento às demandas daqueles a quem qualificava como “mal-aventurados”. Ele dizia mesmo que tinha de ir aonde estes o chamassem.
Quando, após rusgas advindas do “saco de maldades” sempre fértil que o “Brasil oficial”, agora republicano, tem para despejar sobre o “Brasil real” (nos termos da releitura que Suassuna faz de expressões do já citado Machado), Antonio Conselheiro decide fixar-se no velho arraial de Canudos, rebatizá-lo como Belo Monte e dotá-lo de condições que tanto viabilizem a vida aqui como preparem aquela do além, não estranhará que o vilarejo cresça enormemente. Abrigará contingentes recém-saídos da escravidão e agora sujeitos às truculências e desprezos dos que se tinham por seus senhores de seus corpos e/ou almas, e grupos indígenas sobreviventes após tantos séculos de selvagem colonização, fortes e sofridos, em luta com a terra ressequida que teimam em fazer fértil.
Dores e esperanças comuns fazem-se o eixo em torno e em função do qual Belo Monte foi concebido, e teceram vínculos “entre” seus moradores. Rezas em comum, o contato e a proteção dos santos, as curas e os ritos de pajés anônimos, as visitas do padre com seus sacramentos terão sido elementos poderosos na articulação da comunidade. O trabalho em mutirão, o “caixa-comum” e a partilha dos bens entre os habitantes não terão tido outro efeito. Por outro lado, os batismos fizeram surgir em grande número as figuras do compadre, do padrinho e do afilhado. E Antonio Conselheiro vê reforçada sua liderança no arraial, como padrinho de dezenas de crianças, assumindo o lugar que em geral costumava ser ocupado pelo coronel ou pelo fazendeiro; a madrinha, em geral, é Nossa Senhora. Emerge uma intrincada rede, que solidariza os belomontenses entre si e os distancia de outra, em cujo topo costumava figurar algum potentado regional. Em meio a tantos elementos desagregadores da cultura do sertão, com marcas profundas de uma violência historicamente inscrita, faz-se um empreendimento em que predominam os fatores de coesão e reforçam a certeza, nos indivíduos e famílias, de pertença ao grupo maior. Tal consciência, construída sobre dados objetivos da vida nele, explicará o grau de resistência que a quase totalidade dos belomontenses manifestou até o final da guerra de Canudos.

A palavra abençoada
Mas é no Conselheiro, certamente, que reside a especificidade mais profunda encontrada em Belo Monte. Disso dão testemunho todos os documentos, desde os que tomam a figura do Peregrino de forma depreciativa, como Os Sertões de Euclides da Cunha, passando por afirmações que não conseguem esconder a admiração, até os depoimentos da gente que com ele tratou de viabilizar Belo Monte.
O Conselheiro não é padre, não pode ser tomado como usurpador do ministério clerical, muito menos seu representante. E não foi o simples fato de os sacerdotes rarearem no sertão que lhe permite consolidar a liderança. O beatismo, de que Maciel é dos mais expressivos representantes, deita raízes profundas em aspectos da tradição judaico-cristã, com forte acento na dimensão ética-comportamental e mística. Uma liderança religiosa em que a autonomia frente a instituições, inclusive a eclesiástica, é marca significativa, elemento fundamental para se entender a trajetória do Conselheiro.
Cabe então destacar as formas da liderança que, como beato e conselheiro, ele constituiu no arraial. O fato de não ser ordenado exige que o reconhecimento da sua autoridade seja interpretado de forma alternativa a simplesmente situá-lo no campo da mediação automática que os padres afirmam exercer entre os fiéis e o sagrado. Este é o ponto: a liderança do Conselheiro, se não substitui a dos padres, assenta-se em outras bases, que têm a ver com sua forma de vida, com uma autoridade tecida no cotidiano da experiência. Assim sendo, ela é ao mesmo tempo vulnerável, pois não garantida de antemão pela força da instituição, e profunda, já que tecida pelos dados e possibilidades do cotidiano e alimentada das esperanças de sua gente. Faz-se capaz não só de atrair um séquito significativo como de receber a confiança que lhe permitiu articular um sistema de administração e distribuição coletiva de bens. E ainda: o Conselheiro comparecia às orações do povo, prolongando as que fazia em particular. A liderança não lhe tirava o caráter de participante da comunidade em busca de salvação.
Além disso, algo mais visível, que terá alavancado poderosamente sua autoridade, já bem antes dos tempos do Belo Monte: a sua palavra, algo reconhecido até por seus inimigos. Os testemunhos são inúmeros, e justificam o apelido com que era conhecido e reverenciado. Todos sabiam que Antonio Maciel costumava reunir o seu povo para lhe dar conselhos, e destas palavras há registros escritos, inexplicavelmente desconhecidos; por enquanto ainda se teima em repetir aquilo que Euclides, arbitrariamente, lhe atribuiu.
Cabe então pensar no poder destas palavras para a viabilização da comunidade. Elas lhe organizam a vida, dão-lhe sentido e permitem olhar o futuro. Os testemunhos de sobreviventes ao massacre são unânimes neste sentido. Nas missas rezadas no arraial, os sermões são do Conselheiro. Por outro lado, Maciel reconhece que usou palavras agressivas só contra a “maldita república” e os vícios desagregadores da comunidade. Afinal, ele visava “a salvação dos homens”, como se lê na abertura de um dos cadernos manuscritos que deixou.

Conclusão
Assim, daquilo que se pode recolher do que foram a presença, ação e palavras do Conselheiro, conclui-se que contribuíram decisivamente para o estabelecimento de uma vila em que a convivência e a apropriação dos bens tivessem uma perspectiva mais comunitária e assim a salvação no além se preparasse, atraindo milhares de miseráveis e despossuídos, gestando uma alternativa viável enquanto a repressão militar, a mando das oligarquias regionais e nacionais, não se manifestou. Aliás, com a demora da guerra, o vulto, a fama e o nome de Antonio Conselheiro só fizeram crescer, porque em sua trajetória se expressaram, de maneira ao mesmo tempo sintética e densa, os anseios e expectativas da forte gente sertaneja.

Bibliografia
     VASCONCELLOS, Pedro Lima. O Belo Monte de Antonio Conselheiro: Uma Invenção “Biblada”. Maceió: Edufal, 2015.
     VASCONCELLOS, Pedro Lima (org.) Antonio Conselheiro por Ele Mesmo. São Paulo: É Realizações, 2017, 2v.
 
* Pedro Lima Vasconcellos
Mestre e Livre-docente em Ciências da Religião, doutor em Ciências Sociais e pós-doutor em História. Professor do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

Mãos à obra

Para aprofundar a temática abordada no artigo, sugerimos os vídeos abaixo. Assista-os em grupo, observe os aspectos mais relevantes, considerando, especialmente, as seguintes áreas. Histórica: início do período republicano no Brasil e suas consequências. Geográfica: regiões secas do Nordeste. Religiosa: a religiosidade e os valores propostos pelo Conselheiro. Socioeconômica: a situação de pobreza e desamparo dos seguidores do Conselheiro e dominação dos políticos e coronéis. Estes e outros aspectos podem ser observados e comentados, inclusive a situação atual de Canudos/Belo Monte. Pode-se fazer também um trabalho mais amplo sobre esse tema através de um projeto de estudo interdisciplinar.

Canal YouTube
•    Dossiê História – A Guerra de Canudos – Parte I. 45 min.
<https://www.youtube.com/watch?v=PBvl74aD4OY>
•    História do Brasil: A Guerra de Canudos. Edição e Narração do Prof. Cesar Mota. 19 min.
<https://www.youtube.com/watch?v=oui1fjsbneM>
•    Guerra de Canudos – Segredos do Sertão. Jornal da Record. 5:19 min.
<https://www.youtube.com/watch?v=uQdrihhoZtc>


Fonte: Edição Nº86 Abr/Jun 2017
Postado por: Diálogo




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