Liberdade religiosa no mundo

Data de publicação: 10/10/2017

Luzia Sena *

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 10 de dezembro de 1948, em seu artigo 18, proclama: “Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; esse direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença pelo ensino, pela prática, pelo culto em público ou em particular”.
A liberdade religiosa, portanto, é um direito humano fundamental que deveria estar presente em todos os povos, mas infelizmente está ameaçado em muitos países e em outros ele já não existe. No intuito de defender e apoiar pessoas que sofrem, são perseguidas ou refugiadas por questão religiosa, surgiu em 1947, um ano antes de ser proclamada a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a instituição denominada Ajuda à Igreja que Sofre. Vejamos como tudo começou...

Origem da instituição
A Ajuda à Igreja que Sofre nasceu do sofrimento e de uma carência extrema, vivida por um povo que foi marcado pela barbárie da maior guerra do planeta, a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o conflito mais destrutivo da história, que envolveu quase todos os países do mundo, com mais de 50 milhões de mortes. A Alemanha nazista, derrotada, saiu totalmente destruída no final desta guerra; e seu povo, jogado nas piores condições humanas imagináveis. Surge então a inquietação no coração do jovem sacerdote holandês Werenfried van Straaten, que, vendo a situação de miséria em que vivia a população, decide fazer algo.
No início, o trabalho consistia em distribuir alimentos e roupas para os milhões de refugiados da Alemanha Oriental, além de proporcionar ajuda espiritual naquele tempo de crise. A missão parecia quase impossível, sobretudo porque o padre Werenfried pedia donativos na Bélgica e na Holanda, justamente para aqueles que haviam sido vítimas da ocupação alemã.
Em apelos apaixonados, ele pregava o amor fraterno e a reconciliação que acabaram provocando uma onda de generosidade. Sua voz encontrou eco, e milhares passaram a ajudá-lo. Como a maioria das pessoas não tinham dinheiro, elas doavam alimentos, inclusive toucinho. A partir daquele momento, o padre Werenfried passou a ser chamado de Padre Toucinho.
O padre Werenfried observou que as pessoas que doavam sentiam uma profunda e autêntica alegria em seus corações e percebeu que o gesto da caridade não levava felicidade apenas para os que seriam ajudados, mas também para os que estavam ajudando. A verdade bíblica se confirmava: “Há mais bem-aventurança em dar do que em receber” (At 20,35). Nascia então a Ajuda à Igreja que Sofre! (Kirche in Not, em alemão).
À medida que o auxílio chegava aos mais necessitados, a Ajuda à Igreja que Sofre se tornava conhecida, e os papas pediam que se expandisse ainda mais a obra, não apenas para aqueles que passavam necessidade por conta da guerra, mas para todos os que sofriam por viver a sua fé.
O padre Werenfried não quis combater sozinho o ódio e a miséria, sua intenção maior foi inspirar outros a fazerem o mesmo. Hoje, com escritórios em 21 países, atendendo a mais de 140 países da América Latina, África, Ásia, Oceania, Europa Oriental, a Ajuda à Igreja que Sofre adotou no mundo todo a sigla ACN (iniciais do nome da entidade em inglês: Aid to the Church in Need). Padre Werenfried faleceu no dia 31 de janeiro de 2003, 14 dias depois de completar 90 anos, em sua residência em Bad Soden (Alemanha).

Atuação da Ajuda à Igreja que Sofre

A ACN presta ajuda emergencial em caso de guerra, de refugiados, violência e catástrofes naturais. Quem recebe ajuda da ACN não recebe apenas o apoio material, mas também percebe que alguém está olhando por eles e que alguém resolveu agir e trazer esperança de dias melhores. O objetivo não é levar um dia de alívio, mas sim criar uma solução permanente.
Atualmente há mais refugiados do que nunca. No momento, há no Oriente Médio mais de 15 milhões de pessoas fugindo. Apenas na Síria e no Iraque, cerca de 1 milhão de cristãos foram afetados. Dos 1,4 milhão de cristãos que moravam no Iraque em 2003, estima-se que agora menos de 300 mil permaneçam lá.
A ACN tem destinado uma grande ajuda humanitária aos refugiados cristãos do Iraque. Cerca de 200 famílias da região de Mossul (Iraque) que foram abrigadas pela Paróquia Maria Mãe da Igreja, em Amã (Jordânia). O pároco Khalil Jaar disse à ACN que "as pessoas chegaram aqui sem nada. Por isso precisam urgentemente de calçados, roupas, cobertores e remédios, além do alimento diário para essas 200 famílias".

Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo
Em um mundo cada vez mais polarizado, com numerosas religiões em conflitos, um dos serviços importantes prestados pela ACN é a publicação do Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo, com uma nova edição a cada dois anos.
O relatório tem um papel importante na defesa deste direito fundamental, examinando a situação da liberdade religiosa em 196 países e levando em consideração todas as denominações.
Como mostra o último relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo, a liberdade religiosa se deteriorou e foi drasticamente reduzida em 82 países entre 2014 e 2016 – atingindo 42% dos países do mundo. A frequência e intensidade das atrocidades contra yazidis (minoria étnico-religiosa curda), cristãos, bahá’ís, judeus e muçulmanos ahmadis está aumentando e se reflete no volume de relatos de violência extrema contra minorias religiosas. O relatório também mostrou que os cristãos são atualmente o grupo mais perseguido.
Dos 196 países apresentados no relatório, 38 revelaram provas inequívocas de violações significativas da liberdade religiosa. Dentro deste grupo, 23 foram colocados no nível máximo da categoria de Perseguição e os 15 restantes foram colocados na categoria de Discriminação. Apenas em três países (8%) a situação melhorou claramente: no Butão, Egito e Catar.
Entre os países classificados com Perseguição que não revelam quaisquer sinais visíveis de melhoria, sete caracterizam-se por cenários extremos (Afeganistão, Iraque, Nigéria, Coreia do Norte, Arábia Saudita, Somália e Síria), onde a situação já é tão ruim que dificilmente se pode tornar pior.

Extremismo islâmico

Uma forma contagiosa e extremista de islamismo emergiu como ameaça número um à liberdade religiosa e revelou-se como a principal causa de Perseguição em muitos dos piores casos. Dos 11 países apresentados como tendo piorado a perseguição, nove estiveram sob pressão extrema desta violência islâmica (Bangladesh, Indonésia, Quênia, Líbia, Níger, Paquistão, Sudão, Tanzânia e Iêmen). Dos 11 países com níveis consistentes de perseguição, sete enfrentam enormes problemas relativamente ao islamismo: tanto com agressão por atores não estatais como com opressão apoiada pelo Estado (Afeganistão, Iraque, Nigéria, Territórios Palestinos, Arábia Saudita, Somália e Síria).
O aumento em massa na violência e instabilidade ligadas ao islamismo, sobretudo em países como o Afeganistão, a Somália e a Síria, desempenhou um papel significativo na repentina explosão do número de refugiados que, de acordo com os números das Nações Unidas, aumentou 5,8 milhões, chegando a 65,3 milhões de pessoas.
Uma conclusão principal do relatório é a ameaça global colocada pelo hiperextremismo religioso, que aos olhos ocidentais parece ser um culto de morte com intenção genocida. Este novo fenômeno de hiperextremismo é caracterizado por métodos radicais através dos quais perseguem os seus objetivos, que vão além dos ataques suicidas; assassinatos em massa, incluindo formas horríveis de execução, violação, tortura extrema como, por exemplo, queimar pessoas vivas, crucifixão. Um marco do hiperextremismo é a evidente glorificação na brutalidade infligida às suas vítimas, que é exibida nas redes sociais. Além disso, tem ocorrido apropriação indevida de terrenos, destruição de edifícios religiosos e de todos os vestígios de patrimônio religioso e cultural.
As atrocidades cometidas por grupos islâmicos agressivos na Síria, Iraque, Líbia e pelos seus afiliados em outros lugares têm sido sem dúvida um dos maiores retrocessos da liberdade religiosa desde a Segunda Guerra Mundial.

Um testemunho

Padre Jacques Mourad(Ver foto), sacerdote sírio-católico, foi detido pelo grupo Estado Islâmico (EI), mas fugiu cinco meses depois. Eis o seu depoimento:
"A importância da liberdade religiosa para mim significa a diferença entre a vida e a morte. Sou um sacerdote católico da Síria e me dedico simultaneamente à sobrevivência do cristianismo neste nosso centro nevrálgico bíblico e à causa da construção da confiança e do entendimento entre cristãos e muçulmanos.
No dia 21 de maio de 2015, fui raptado na Síria pelo grupo Estado Islâmico e encarcerado em Raqqa, que o EI transformou na sua capital. Durante oitenta e três dias, a minha vida esteve presa por um fio. Temi que cada dia fosse o último. No oitavo dia, o wali (governador) de Raqqa veio à minha cela e convidou-me a considerar o meu cativeiro como uma espécie de retiro espiritual.
Estas palavras tiveram um grande impacto em mim. Fiquei espantado por ver que Deus conseguia até usar o coração de um alto responsável do EI para me enviar uma mensagem espiritual. Este encontro marcou uma mudança na minha vida interior e ajudou-me durante o tempo em que estive preso. Mais tarde, fui transferido de volta para a minha cidade, Qaryatain, e a partir daí consegui alcançar a liberdade, graças à ajuda de um amigo muçulmano da região.
Teria sido muito fácil ceder à raiva e ao ódio pelo que me aconteceu. Mas Deus mostrou-me outro caminho. Em toda a minha vida como monge na Síria procurei encontrar ligações com os muçulmanos e que aprendêssemos uns com os outros. Estou convencido de que, ao longo dos últimos anos, o nosso compromisso em ajudar todos os necessitados na região de Qaryatain, tanto cristãos como muçulmanos, foi a razão pela qual 250 cristãos e eu conseguimos voltar à liberdade.
O nosso mundo oscila à beira de uma catástrofe total à medida que o extremismo ameaça acabar de vez com todos os vestígios de diversidade na sociedade. Mas se a religião nos ensina alguma coisa é o valor da pessoa humana, a necessidade de respeitar uns aos outros como dom de Deus. Por isso, certamente deve ser possível ter uma fé apaixonada na própria crença religiosa e ao mesmo tempo respeitar o direito dos outros de seguirem a sua consciência, de viverem a sua própria resposta ao amor de Deus que nos fez a todos.
Estou profundamente agradecido à Ajuda à Igreja que Sofre (ACN), que continua a dar ajuda de emergência e pastoral ao nosso povo sofredor, pelo seu compromisso com a causa da liberdade religiosa.
Se queremos quebrar o ciclo de violência que ameaça engolir o nosso mundo, precisamos substituir a guerra pela paz. Nos dias de hoje, mais do que nunca, é tempo de pôr de lado o ódio religioso e os interesses pessoais e de aprender a amar-nos uns aos outros, tal como as nossas religiões nos pedem para fazer."
Fonte: Ajuda à Igreja que Sofre,
<http://acn.org.br>

* Luzia Sena
É Irmã Paulina, com licenciatura em Filosofia, bacharelado em Teologia e mestrado em Ciências da Religião pela Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Membro da Iniciativa das Religiões Unidas (URI, sigla em inglês).

Fonte: Edição Nº86 Abr/Jun 2017
Postado por: Diálogo




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