WhatsApp! Amizades?

Data de publicação: 11/10/2017

Carmen Maria Pulga *
 
Segundo pesquisas atuais, o aplicativo WhatsApp é o último “estrangeiro” a receber a maior e mais calorosa hospedagem entre os brasileiros. Whats up é uma expressão americana que pode ser traduzida como: “Eh! O que é que está rolando” ou “E aí, beleza?”.
É uma comunicação informal, que há algumas décadas as comadres faziam de janela a janela e os homens, nas esquinas e bares, batendo gentilmente nos ombros. Hoje, não apenas as novas gerações, mas a maioria dos que têm acesso à internet o faz através de outra janela: o celular. Uma tecnologia móvel e em comunicação coloquial, cujo feedback se faz por  conexões de rede.
Passamos da carta lacrada, enviada ao destinatário pelo serviço de Correios, para aplicativos a distância, ao vivo, gratuitos, rápidos e fáceis de conectar e desconectar. Apenas um pouco de observação, e nos damos conta de que, nesta passagem fantástica, perdemos as habilidades fundamentais para estabelecer relações de confiança. Ainda que catalogados como “amigos”, nessa plataforma os contatos são momentâneos; a troca de mensagens, uma diversão; e as informações, quase sempre descartáveis.
Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, vivemos tempos líquidos, onde nada é para durar. Uma sociedade imersa num bombardeio de informações que nos chegam fragmentadas, rápidas e revestidas de incertezas. Frágeis, anônimas, mescladas de erotismo ou de humorismo desrespeitoso, essas mensagens, enviadas por amigos ou amigos do amigo, nos intrigam: são realmente fatos ou boatos?  Estamos e queremos estar sempre conectados e experimentamos, ao mesmo tempo, a fugacidade e vulnerabilidade dos toques que pipocam em nosso celular dia e noite.
“Você tem WhatsApp?” “Me dê seu WhatsApp.” “Mande pelo WhatsApp…” São expressões que se tornaram bordões na comunicação do cotidiano. O celular tornou-se um companheiro inseparável; mensageiro útil; sempre à mão, sem nos questionar se, porventura, nos traz algum malefício.
É evidente que, como qualquer outra ferramenta da comunicação, de per si, o WhatsApp é uma mídia neutra. Sua ação é gerenciada pelo dedo e pela intenção do ser humano. É este o agente da comunicação e é nele que devemos pôr o foco. A mídia é apenas uma ferramenta. As pessoas éticas, profissionais, bem-intencionadas são as mesmas, na vida privada ou na social. Portanto, eu diria que essa rede é neutra, sim, para quem já é autor do próprio pensamento. Quem já se apropriou de valores mais elevados da cultura humana e solidificou o processo de refletir, selecionar e construir opções.
 
E as novas gerações?
Não podemos afirmar o mesmo ao tratarmos de crianças e jovens. Estes precisam de quem pilote o leme nesse mar de trivialidades. Então, mãos à obra na árdua tarefa de ensiná-los a separar o joio do trigo. Em outras palavras, educar para a responsabilidade e para a análise crítica de como funciona a sociedade em que nos movemos.
Se a tendência da mídia, na sociedade de mercado, é a de dissolver valores de sustentabilidade social por aquilo que está na moda, faz-se necessário educar as novas gerações para o senso crítico. Encontrar espaços para discutir e analisar a comunicação que pode estar pautada pelos critérios do consumo e não para o fortalecimento da identidade. Hoje, tudo é imediato e de improviso. Tudo tem de ser perfeito, aqui e agora, já! Sem frustração, sem dor, sem discernimento sobre as consequências de nossas escolhas.
Na rapidez com que essa revolução afeta especialmente os relacionamentos, serão nossas crianças e nossos jovens educados para esperar? Esperar as etapas do processo evolutivo do corpo, dos desejos, da sexualidade, do processo psicossocial na formação da consciência?
As carências humanas permanecem as mesmas. Queremos ser amados, precisamos de confiança, necessitamos de segurança, mas, nos caminhos dessas novas invenções, avançamos às apalpadelas.  Assim, esse terreno movediço, momentâneo, será capaz de produzir verdadeiras amizades?
 
Educar é preciso
Educar para a vida é educar para aquilo que a vida nos oferece, os bons e os maus momentos, as boas e as más companhias, as boas e as más ofertas. É preciso educar para o uso dos novos aplicativos que passam entre os jovens de maneira sutil e atraente tanto quanto a droga.
Nesses dias, eu vi um pai chorando na delegacia – frente a frente com a própria filha – que na pressa de alcançar a independência, no dia em que completou 18 anos, fugiu de casa e, a seguir, deu queixa do pai que lhe tirou o celular pelo envio de nudes (fotos íntimas). Sim, acredite quem quiser, mas há sites com dicas de como conquistar “amizades” para que lhe mandem nudes. Alerta! Pais e educadores, seu investimento humano-afetivo pode se perder num clique do celular.
Empolgados pela quantidade de seguidores, os jovens se acham rodeados de amigos. É no berço, no colo dos pais, nos contatos confiáveis, que os menores apreendem que a vida terá significado se for costurada por valores éticos, humanos, saudáveis.
O jovem tem acesso a muitas máscaras que a mídia lhe oferece de graça. Portanto, é preciso estar por perto de nossos jovens até que se apropriem do próprio pensamento e construam a identidade que os levem a fazer a diferença no mundo.
Deixemos claro para eles que, tanto no real como no virtual, é preciso que o abraço, a palavra, o afeto sejam sempre autênticos, para celebrarmos o que chamamos amizade.
 

Mãos à obra
-    Perguntar aos alunos quais amizades eles preferem: as reais ou as virtuais? Quais as mais divertidas? Quais as mais construtivas?
-    Trabalhar com o vídeo, que segue abaixo, quais requisitos são indispensáveis para uma amizade se tornar verdadeira?
-     Fazer com os alunos uma discussão aberta sobre este vídeo:
 
* Carmen Maria Pulga
 Graduada em Teologia, mestra em Novas Tecnologias da Comunicação pela Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo (ECA-USP).



Fonte: Edição Nº87 Jul/Set 2017
Postado por: Diálogo




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