Cultura e identidade nacional

Data de publicação: 02/05/2018


O Ministério da Cultura lançou em 2005 o Programa Cultura Viva, que fortalece e valoriza as iniciativas culturais de grupos e comunidades, pois, segundo o coordenador do Programa, o sociólogo Célio Turino de Miranda, “para transformar o Brasil é preciso transformar o Cultura Viva em política pública efetivamente apropriada por seu povo”.
Uma das ações do Programa Cultura Viva é encontrar organizadores de congadas, quadrilhas e folias de reis; artesãos, paneleiras, rendeiras, repentistas, rabequeiros; contadores de histórias, construtores de brinquedos, baianas do acarajé, mestres de capoeira e outros artistas populares, que, remunerados pelo Ministério da Cultura, ensinem aos jovens as artes que aprenderam. “Assim, mergulhamos em um Brasil profundo, escondido, e convidamos todos a caminhar conosco, por uma Cultura Viva” – afirma Célio Miranda, no lançamento do Programa Cultura viva.
O Brasil que emerge do profundo
O termo Brasil profundo, usado pelas Ciências Sociais, refere-se à parcela da população brasileira que vive longe de grandes centros urbanos, em zona rural ou na floresta, e que preserva os valores e práticas familiares, religiosos e culturais dos antepassados. O “Brasil profundo, escondido”, como o definiu Célio Turino de Miranda, no contexto do Cultura Viva, lembra um conjunto em movimento de formas culturais que desenham o caleidoscópio dos saberes e expressões populares brasileiros, mais visíveis em pequenas cidades e na zona rural.    
O reconhecimento da Cultura Viva é uma conquista recente da população “escondida”, pois o peso de uma história de cinco séculos de exclusão ainda não foi aliviado. Isso só ocorrerá quando todas as pessoas tiverem acesso à cidadania e à igualdade, como integrantes da população brasileira. Conceitos estes também bastante recentes. 
A história do Brasil revela que, durante os impérios de dom Pedro I (1798-1834) e de dom Pedro II (1825-1891) ainda não existia uma identidade nacional de alcance maior que a Corte. Foi no fim do século 19, com a campanha militar dos Voluntários da Pátria, que convocou civis para ajudarem o Exército brasileiro a defender as fronteiras contra o Paraguai (1964-1970), que surgiu um marco histórico para a noção de pátria e de povo. Até então, a identidade nacional era fragmentada entre a Corte e as cidades portuárias que pontilhavam o litoral. O interior era povoado por unidades produtoras, como pequenos mundos particulares: o engenho de cana, o garimpo, a fazenda de gado e a de café, cujos proprietários ligavam-se à Corte por títulos de nobreza e eram sustentados no poder por trabalhadores invisibilizados pela total exclusão.
Dois anos depois da vitória na Guerra do Paraguai, em 1872, apareceu o sinal de uma incipiente consciência de povo brasileiro. Foi feito o primeiro censo demográfico com quatro classificações: branco, preto, pardo e caboclo. Os escravos e os índios foram contados como “integrantes” do povo. O censo apontou uma população de quase 10 milhões, mas é desnecessário afirmar que pelas dificuldades de comunicação e transporte, na imensidão do território, os agentes do governo ignoraram grande parte do Brasil profundo e limitaram-se às cidades e aos seus entornos.
Enquanto a ufania do fim do Império e o advento da República em 1889, em um clima positivista, iluminista e nacionalista, criavam nos centros urbanos do litoral a ilusão de uma nação forte, moderna e instruída, as pessoas pobres do interior, registradas apenas nos livros de batismo das paróquias, eram esquecidas à sombra dos estereótipos de caipiras, bárbaros, ex-escravos, vadios, ladrões e selvagens. O casal imperial Pedro II e Teresa Cristina (1822 -1889) havia praticado a compaixão pelos excluídos, escondendo escravos foragidos, convidando ciganos para tocarem nas festas do palácio ou servindo refeições a todo indigente que surgisse na porta da residência imperial. Mas não conseguiu transformar a ética privada em política pública de oportunidade para todos no Império. Muito menos a República, que exilou o compassivo casal, incluiu no novo conceito de nação a parcela profunda do Brasil.
O papel transformador da literatura e da ciência  
Em 1902, Euclides da Cunha lançou o romance Os sertões, onde descreveu a trágica Guerra de Canudos (1896-1897). Marco literário do despertar da nacionalidade brasileira, a obra descreve as utopias de vida digna que moveram os habitantes da vila de Canudos, no sertão baiano, a lutarem até a morte contra as forças militares de um governo que ignorava as tragédias da seca e da fome no interior nordestino. Descrevendo a cultura de resistência, os costumes e os valores do povo do sertão, o autor o retira da invisibilidade e o confronta com as elites urbanas instruídas, tidas como expressão exclusiva da sociedade brasileira.  
Monteiro Lobato lançou, em 1918, o livro de contos Urupês, onde revelou várias facetas da vida miserável e abandonada dos camponeses no estado de São Paulo, sendo Jeca Tatu o personagem mais conhecido do livro. Ingênuo, analfabeto e doente, sem forças nem motivação para trabalhar e sustentar a família, o Jeca tornou-se a figura completa da vida escondida e ignorada dos pobres no meio rural brasileiro. Infelizmente, porém, o intuito de Monteiro Lobato de iluminar a questão polêmica do abandono teve também o efeito contrário: reforçou o preconceito sobre a imagem ridícula e anedótica do caipira e, com ele, de sua linguagem simbólica e cultural.
Na década de 1930, professores europeus vieram integrar a equipe fundadora da Universidade de São Paulo (USP), entre eles o sociólogo Roger Bastide e o antropólogo Lévi-Strauss. Os dois embrenharam-se pelo interior do Brasil dispostos a conhecer a face ocultada e silenciada da sociedade, na qual estavam incumbidos de produzir conhecimento científico. Enquanto Roger Bastide se dedicou mais ao povo negro, Lévi-Strauss voltou-se para as etnias indígenas. Os dois pesquisadores identificaram assim, o “país dos contrastes”, ou os “dois Brasis”: um escondido nas matas, nos campos, nas vilas rurais, nas pequenas cidades e nas periferias das cidades grandes; e outro frequentador dos prédios de estilo europeu dos centros urbanos.
De volta à França, falando dos modelos de convivência social e cultural e inserindo em seus escritos a experiência brasileira, Lévi-Strauss escreveu no livro Antropologia estrutural: “Os modelos conscientes, – que se chamam comumente normas – incluem-se entre os mais pobres que existem em razão de sua função, que é de perpetuar as crenças e usos mais do que de expor-lhes as causas. Assim, a análise estrutural se choca com uma situação paradoxal bem conhecida pela lingüística – quanto mais nítida é a estrutura aparente, mais difícil torna-se apreender sua estrutura profunda.”. Ao falar de uma estrutura profunda, Lévi-Strauss introduz o conceito de profundidade na análise da cultura brasileira popular, que, de certo modo, sobreviveu em meio aos efeitos da modernidade que surgia.
Após a década de 1930, a Nova República brasileira trouxe os assalariados para a cena política, boa parte deles migrantes dos campos para as cidades industriais. Sobre esse movimento da sociedade discorreu o sociólogo brasileiro Octávio Ianni (1926-2004) no livro Sociologia e sociedade no Brasil: “O interesse pelo homem comum nasceu e desenvolveu-se amplamente durante a democracia populista (1945-1964). Nesses anos, a cultura nacional floresceu e multiplicaram-se os centros de interesse. As artes e as ciências sociais passaram a ocupar-se mais direta e profundamente com os problemas básicos da sociedade e, pela primeira vez de modo sistemático, o homem comum foi encarado em toda a sua integridade. Abandonou-se a visão externa, episódica e anedótica dos seus problemas”.
De volta aos mananciais
Os movimentos de educação e criatividade popular que surgiram entre as décadas de 1950 e 1960, reprimidos depois pela ditadura militar, são agora revigorados, como fontes de água das quais se retiram entulhos, no sentido em que diz, na apresentação do livro Brasil Profundo, Frederico Pernambuco de Mello, curador da Mostra Brasil Profundo, preparada pela associação Brasil+500, na passagem dos 500 anos da chegada dos europeus ao Brasil: “Como as fontes subterrâneas, ao aflorarem adquirem um nome e ao se tornarem caudalosas perdem a limpidez e a pureza, a arte profunda busca a pureza essencial original. O conceito de arte não existe nas sociedades simples, mas a pureza estética indica milenares modos de vida. O efeito desta arte é a identidade social e a reflexão filosófica sobre os sentidos”.
Conforme Frederico de Mello, o conceito Brasil profundo não se compõe de personalidades, mas de matrizes criativas cujas origens vêm das profundidades culturais da humanidade. A arte é o equilíbrio entre natureza e cultura e tem um teor combatente e revolucionário, sem perder a força estética, por isso a cultura é lúdica e transgressora, portanto, viva.

* Roseane do Socorro Gomes Barbosa
 Bacharel em Teologia e Mestra em Ciências da Religião, reside em São Luís (MA). 

Referências
AGUILLAR, Nelson; PEDROSO, Franklin Espath.  Brasil Profundo – livro documentário da exposição no Museu Nacional de Belas Artes do Chile: Associação Brasil+500, 2001, p.101.
BASTIDE, Roger. Brésil. Terre des contrastes. Paris: Hachette, 1957, p.87.  
̶— Ensaios Sociologia e sociedade no Brasil. São Paulo: Editora Alfa-Omega. 1975.
IANNI, Octávio. Ensaios de Sociologia da Cultura. São Paulo: Civilização Brasileira, 1991
PAIVA, Orlando Marques de (editor). O museu paulista da Universidade de São Paulo. São Paulo: Banco Safra, 1984.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 1991. Rio de Janeiro, José Olympio.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1985, p. 318.
MARTINS, Wilson. História da inteligência brasileira. vol. VII. 1794-1855, São Paulo, Cultrix/Editora da USP, 1992.




Fonte: Dialogo 70
Postado por: Diálogo




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