Cultura indígena na cidade

Data de publicação: 15/06/2018


O Brasil é constituído por muitos grupos étnicos, com histórias, culturas, línguas e saberes próprios.  As sociedades indígenas representam uma magnífica soma de diversificadas experiências históricas e sociais, de elaborados saberes e criações, de arte, música, conhecimento, religiosidade e filosofias originais, construídos ao longo de milênios, com reflexão e sensibilidade.

Tradição identitária
Cada povo indígena tem seu universo cultural, e essa variedade é um patrimônio importante não só do Brasil, mas de toda a humanidade. Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE), existem cerca de 305 povos indígenas vivendo no Brasil, em diferentes estágios de contato com as sociedades ocidentais - perfazendo, aproximadamente, 896.917 indígenas, descendentes das populações que aqui viviam quando da chegada dos europeus a partir do século 16 e falando cerca de 274 línguas (IBGE/2012). Conforme dados da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), os indígenas representam 0,42% da população brasileira e ocupam 13% do território nacional, em 505 reservas indígenas reconhecidas, distribuídas por 106,7 milhões de hectares.
As sociedades indígenas, mesmo quando em permanente contato com as não indígenas, preservam os procedimentos culturais dos antepassados. Seguem regras coletivas de sobrevivência, com funções sociais distintas e padrões hierárquicos determinados pela disposição de cada um para servir e ajudar. O cacique ou tuxaua, junto com o pajé e os anciãos, organiza, e orienta para que todos sigam os princípios de respeito ao outro. Quem não observa as regras estabelecidas é convidado a deixar a aldeia.
Para as comunidades ainda distantes dos centros urbanos, a base da alimentação continua sendo o cultivo da mandioca, da batata-doce e do cará; a pesca, a caça e a coleta de frutos e outros produtos que complementam as suas dietas. Assim, em suas formas de produção, só se extrai da natureza aquilo que seja necessário à sobrevivência do grupo; permitindo a recuperação de seus ecossistemas, equilíbrio, fundamental para a sua existência material e espiritual. Em seus ritos de passagem e festas coletivas, expressam o modelo coletivo de sobrevivência e religiosidade, como é o caso do povo Ticuna, localizados na extensão de todo o Rio Solimões, no estado do Amazonas. Essas comunidades celebram o ritual da moça nova; já o povo Sateré-Mawé realiza o  rito da Tucandeira, que fortalece o espírito dos guerreiros através da resistência a dolorosas ferroadas de formigas tuncandeiras. Para nós, indígenas, a nutureza nos habita, somos parte dela. Nós a sentimos como parente, um ser vivo e próximo, que devemos tratá-la bem, porque precisamos dela e ela precisa de nós. A terra é nossa mãe e dela tudo tiramos para viver. Aí estão enterrados nossos parentes, seus espíritos vivem nas florestas e nos animais. Não podemos destruir sua moradia. Na natureza tudo faz  sentido, nada é por acaso. Quando o vento sopra, traz mensagens dos antepassados, traz chuva para refrescar e fazer crescer as plantas. Os cantos dos pássaros anunciam o nascer do dia e o anoitecer, o grito do macaco guariba avisa da chegada de intensas chuvas ou da proximidade de predadores, como a onça ou a sucuri. Assim, antes de qualquer atividade social, reverenciamos nossos espíritos e nossos ancestrais para que nos protejam e permitam a coleta, a caça e a pesca em segurança. Para que o universo se mantenha ordenado, continuamos praticando os rituais e as rezas, batendo tambores e balançando os maracás para que o céu não desabe sobre nossas cabeças.

Territorialidade recriada
Os povos próximos das cidades sofrem influências culturais nem sempre salutares para o grupo.  Do período colonial até os nossos dias, gerações de indígenas são filhos desse contato, em que novas identidades e etnicidades foram se constituindo e estabelecendo formas de sobreviver nos novos contextos apresentados.
Os projetos desenvolvimentistas implantados pelo Estado brasileiro, derrubaram florestas e abriram estradas, rodovias, ferrovias e pastos. Os rios foram absorvidos por hidrelétricas ou poluídos pelo agro extrativismo e a exploração mineral, os peixes desapareceram. Doenças desconhecidas invadiram as aldeias e os conflitos pela terra provocaram ao longo de 514 anos de história do Brasil, o extermínio de cerca de 5 milhões de indígenas.
O contato com os não indígenas impôs novas relações sociais em nossas aldeias, a estratificação em classes, hierarquização do poder político, desagregação social e proliferação de crenças religiosas estranhas à cultura indígena. Infelizmente, a exploração mercantilista e consumista é real. As cidades  já invadiram e continuam a invadir  muitas aldeias pelo país afora. Algumas delas, inclusive, foram transformadas em municípios, como é o caso de Manaus (AM), território tradicional dos povos Manáo, Tarumã e Manassé, no tempo colonial  e, mais recentemente, o município de Uiramutã no estado de Roraima.
As famílias indígenas, desagregadas de suas referências tradicionais, sem seus ecossitemas preservados, sem área equilibrada para a caça e a pesca e o plantio da mandioca, passam fome e adoecem e acabam migrando à procura de condições mais favoráveis na cidade, onde dizem ser o melhor lugar para se viver. No entanto, sem formação escolar e profissional, acabam em estado  ainda pior do que em suas terras de origem.
O antropólogo da Universidade de Brasília (UnB) Stephen Baines, no artigo "As chamadas aldeias urbanas ou índias na cidade”, escreve: “Deixar as aldeias e entrar nas cidades não faz dos índios menos índios”, contrariando, assim, afirmações do tipo "índios são só são aqueles que vivem no mato". As comunidades instaladas em áreas periféricas das cidades estão se organizando sempre mais em defesa dos seus direitos de cidadãos urbanos. Na verdade, em muitos municípios do Amazonas, Roraima, Acre e Mato Grosso, são os indígenas que decidem eleições majoritárias e proporcionais.
Em muitos casos, as comunidades indígenas urbanas se articulam com as das aldeias tradicionais, de modo a melhorar a vida econômica dos grupos.  São as chamadas “redes relacionais”, nas quais se constituem relações de apoio e ajuda recíproca. A ideia de lugar, de terra indígena, de aldeia não se reduz ao espaço físico determinado. A noção de espacialidade é a de pertencer a um lugar específico, ainda que distinto do original, construído historicamente, onde se transmutam e adequam a cultura ancestral. Nesse sentido, os indígenas que vivem em Manaus, por exemplo, constroem e determinam sua territorialidade a partir de um local específico, onde elaboram e reelaboram novos códigos, novas identidades em território interétnico, atualizando suas etnicidades. 


Cultura preservada
A concepção de cultura aqui adotada está relacionada à ideia  aberta, ampla, de produções materiais e espirituais, sempre em permanentes processos de elaboração e re-elaboração de identidades, códigos e procedimentos. O lugar e o tempo nos modificam e forma de sobrevivência no território exige mudanças de hábitos e novos procedimentos. Destaca-se, no entanto, que, no processo de adaptação cultural, sempre renovamos traços culturais marcantes, como a língua materna, crenças, valores, por exemplo.
Exigir comportamentos e atitudes semelhantes aos dos indígenas que vivem nas aldeias é um equívoco. As relações sociais do espaço que ocupam são outras, e o comportamrento cultural se modificou. O fato de passar a habitar em outro lugar não tirará do manauara sua condição de manauara, tampouco o indígena deixará de o ser quando migra para a cidade.
As comunidades que se estruturam nas cidades associam reivindicação por saúde e educação ao desejo de manter a cultura e a língua tradicional. É o caso das mulheres que fazem parte da Associação das Mulheres do Alto Rio Negro, no Amazonas, que se encontram uma vez por semana para conversar sobre os problemas comuns nas suas próprias línguas. Ou, ainda, do grupo Ticuna, situado no bairro Cidade de Deus, em Manaus, que mantém uma escola com o ensino em língua ticuna, realiza o ritual da moça nova, produz artesanato e faz apresentações teatrais nas escolas públicas da cidade.
Os povos indígenas que vivem nos contextos urbanos têm encontrado formas de sobreviver sem perder as referências culturais que os definem; permitindo, dessa forma, a conquista de novos espaços e acesso às políticas públicas em todas as regiões do País, tais como o acesso à educação e à saúde diferenciadas, geração de emprego e renda, aposentadoria, formação técnica e profissional.

* Ely Macuxi
Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e coordenador da Associação Indígena de Arte e Pesquisa Yampinima - Email: elymacuxi@hotmail.com

Fonte: Diálogo 74, Maio/Junho 2014
Postado por: Diálogo




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