Religiosidade indígena nas cerâmicas

Data de publicação: 12/07/2018

Religiosidade indígena nas cerâmicas marajoara e tapajônica

A Amazônia brasileira detém cerca de 60% do território nacional e abrange a Região Norte e partes dos estados de Tocantins, Mato Grosso e Maranhão. A área de aproximadamente 5,1 milhões de quilômetros quadrados distribuída em nove estados é, na maior parte, encoberta pela floresta e se constitui na região geoeconômica menos populosa do País.
Na época pré-colonial a Amazônia abrigou numerosas populações nativas milenares, mais tarde dizimadas e extintas pelo contato com os europeus. O que se sabe delas é revelado pelos vestígios de objetos da vida cotidiana feitos com arte primorosa inspirada na religiosidade.

O significado da arte indígena
A expressão artística das chamadas sociedades simples existiu milênios antes de serem formados os conceitos ocidentais de arte. No entanto, o próprio conceito de arte pela arte, desligado do contexto humano, pertence ao mundo ocidental moderno e, ao classificar os objetos indígenas como simples peças de valor estético, impede-se o conhecimento do universo mítico, étnico, metafísico, social, cosmológico e religioso que eles encerram.
Os povos indígenas consolidam relações familiares e tribais por meio de ritos religiosos e objetos simbólicos que dão significados ao cotidiano. Tais objetos, ao serem decodificados em suas formas e cores que transcendem a categoria de simples obras de arte, dão a conhecer universos existenciais pautados nas relações com seres sobrenaturais benfeitores ou ameaçadores que povoam as crenças de todos os que habitam a natureza. 

Origem da cerâmica marajoara
O arquipélago de Marajó pertence ao estado do Pará e se localiza na foz do rio Amazonas. Pontilhado por matas, rios, campos, mangues e igarapés, é formado por 12 municípios. Na época pré-colonial, foi território de tribos produtoras de cerâmica, sendo as mais antigas datadas de mais de 3.100 anos. Cinco grupos se sucederam, imprimindo suas características no legado cultural das anteriores. São os Ananatuba, os Mangueira, os Formiga, os Aruã e os Marajoara.
Os povos indígenas que vivem na Amazônia são descendentes dos grupos pré-coloniais. Estudos de universidades norte-americanas mostram que esses habitantes estão na região há mais de 12 mil anos. Já a hipótese dos antropólogos do Museu do Homem Americano da serra da Capivara, no Piauí, defende uma ocupação que remonta há mais de 40 mil anos.
A história das civilizações pré-coloniais que habitaram a região do arquipélago de Marajó chama atenção de diversos pesquisadores. Os vestígios materiais analisados são os fragmentos de cerâmica, instrumentos em pedra, gravuras em paredes de cavernas ou abrigos sob as rochas e, ainda, ossos humanos descobertos. Dos cinco grupos mais conhecidos, vamos destacar o Marajoara e, nele, os aspectos religiosos dos objetos em cerâmica.

A cerâmica marajoara e seus segredos
Segundo os estudiosos, as aldeias marajoaras concentravam-se na parte ocidental do arquipélago, às margens de rios e de um grande lago chamado Arari, onde as inundações eram constantes. A solução encontrada foi o levantamento do terreno em forma de morros artificiais, denominados tesos. Alguns variando entre 10 e 70 metros de extensão e outros com mais de 200 metros. As casas marajoaras localizavam-se sobre os tesos, a salvo das inundações. Alguns autores supõem que os tesos mais altos fossem habitados pelos moradores importantes, talvez os curandeiros que exerciam funções mágico-religiosas nas aldeias.
As peças de cerâmica foram encontradas sob esses tesos. Os formatos e os desenhos revelam que o povo teve grandes artistas. Enormes vasos, decorados com figuras intrincadas e coloridos em preto, vermelho e branco eram utilizados como urnas funerárias. Muitos são antropomórficos, isto é, copiam o corpo humano.
Além das urnas, pequenas estátuas representam os espíritos da natureza, que supostamente eram invocados pelos pajés em rituais diversos. E, ainda, as tangas de cerâmica usadas pelas mulheres em ritos de passagem, provavelmente da mocidade para a vida adulta.

A cerâmica tapajônica de Santarém
O município de Santarém pertence à região paraense dos rios Tapajós e Amazonas. À semelhança da ilha de Marajó, foi também um território povoado desde a época pré-colonial, destacando-se a civilização tapajônica, que deixou riquíssimos vestígios materiais, dentre eles a cerâmica.
Estudos mostram que os índios Tapajó se organizavam em aldeias com cerca de 20 a 30 famílias, vivendo juntas em casas coletivas, ao redor de um líder. A morte do líder dava origem a rituais complexos, nos quais os indivíduos eram cremados, depositados nas urnas funerárias e sepultados.
A cerâmica tapajônica é original e diversificada em detalhes. Constitui-se de urnas funerárias com formatos antropomórficos, estatuetas de deusas da fertilidade e vasos representando figuras humanas que sustentam uma vasilha na cabeça. Esses vasos são decorados com urubus, antas, macacos e batráquios, possivelmente em alusão aos espíritos da natureza.

Considerações finais
Os habitantes da Amazônia pré-colonial deixaram para o Brasil um vasto legado de vestígios materiais que permitem o estudo e a preservação de sua cultura. Por meio, sobretudo, da cerâmica, é possível entender algo dessas civilizações e desvendar seus universos míticos e culturais, desde seu modo de vida até a sua religiosidade. Contudo, convém destacar que a tarefa de entender a cultura de povos que viveram há milhares de anos é árdua e inacabada.
Todos os dados atuais são resultados de intensas pesquisas que, no entanto, não constituem verdades absolutas. A Arqueologia, a Antropologia e outras ciências que se debruçam sob o tema vivem a fazer novas descobertas.


* Devison Amorim do Nascimento
Licenciado pleno em Ciências da Religião e especialista em Docência da Educação Superior, em Educação para Relações Étnico-Raciais e em Gestão Pública. É professor de Ensino Religioso da Secretaria Estadual de Educação do Pará (Seduc) e da Escola de Aplicação da Universidade Federal do Pará (EA-UFPA) e pesquisador das religiões afro-brasileiras e das manifestações religiosas pré-coloniais na Amazônia, em especial a arte rupestre.


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Autor:  Devison Amorim do Nascimento
Editora: Conhecimento e Ciência – Belém (PA), em parceria com a UFPA e a Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa (FADESP) da UFPA.

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Os aterros artificiais habitados pelos Marajoara possuíam áreas onde os mortos eram cuidadosamente sepultados em urnas funerárias decoradas com motivos míticos. Recobertas por floresta depois da extinção do povo, elas foram reencontradas por atividades de Arqueologia no fim do século 19. Destes sítios arqueológicos, procedem as urnas ainda conservadas.



Referências
GURINELLO, Norberto Luiz. Os primeiros habitantes do Brasil. 11ª Ed. São Paulo: Atual, 1994.

LANGER, Johnni. Caminhos ancestrais. In revista Nossa História. São Paulo: Ano 2, nº 22. p. 20-24. Agosto, 2005.

ROCQUE, Carlos. Antologia da cultura amazônica: Antropologia – Folclore. Belém: Amada, 1970. Vol. VI.

______________. Antologia da Cultura Amazônica: Artigos e crônicas – Ensaios e Críticas. Belém: Amada, 1970. Vol. VII.

PROENÇA, Graça. História da Arte. 16ª Ed. São Paulo: Ática, 2002.

_______________. História da Arte. 17ª Ed. São Paulo: Ática, 2010.

    

Fonte: Dialogo 73 Fevereiro/Abril de 2014
Postado por: Diálogo




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