O capitão das estrelas

Data de publicação: 13/07/2018

O capitão das estrelas

Em 31 de julho de 1944, a exatos 70 anos, o mundo perdeu um dos maiores literatos, poetas e humanistas dos tempos modernos, quando o avião pilotado pelo capitão francês Antoine-Marie-Roger de Saint-Exupéry, pai do Pequeno Príncipe, foi abatido sobre o mar por um caça alemão, na 2ª Guerra Mundial.
Saint-Exupéry nasceu em Lyon, França, em 29 de junho de 1900, e herdou do pai o título de conde. Em 1922, durante o serviço militar, obteve o brevê de piloto e, em 1926, ingressou na companhia francesa Latécoère, pioneira do correio aéreo do Atlântico Sul. Foi piloto das rotas africanas e sul-americanas, viveu algum tempo na Argentina e passou várias vezes pelo Brasil.
Apaixonado escritor e poeta, em 1929, trabalhando no correio Toulose – Senegal, escreveu Courrier-Sud, Correio Sul, onde revelou a dura realidade dos dramas e sonhos de pilotos jovens, interrompidos pela morte na nova e arriscada aventura da aviação. Em 1931, já na América do Sul, em Vol de Nuit, Voo noturno, exaltou a nobreza e os riscos da profissão de piloto, quando a natureza facilmente abatia as frágeis aeronaves. No mesmo ano, voltou para a França com a jovem viúva salvadorenha Consuelo Suncín, que conhecera em Buenos Aires. Casou-se e viveu com ela um profundo amor, a despeito das críticas por ter desposado uma mulher inferior aos olhos dos franceses, uma latino-americana de baixa estatura, sem sangue nobre, possivelmente descendente de indígenas, enferma de asma e viúva.
O casal não teve filhos, ainda que Exupéry tivesse revelado em cartas aos amigos o desejo de ser pai.  Enquanto trabalhava no correio aéreo Toulouse – Dacar, ele escreveu a um amigo: “Dou chocolate todo dia a uma ninhada de arabezinhos travessos e encantadores. Sou popular entre a criançada do deserto” (Cartas do Pequeno Príncipe, p.127). Referia-se às crianças tuaregues vizinhas da base aérea francesa no deserto do Saara, onde trabalhou em 1928. 

Memórias brasileiras
De 1929 a 1939, quando foi extinta por causa da guerra a rota de correio Buenos Aires – Paris fez escalas em cidades brasileiras. Pesquisadores da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) recolheram  documentos e memórias dos moradores das imediações da base aérea de Florianópolis – antigo campo de pouso –, sobre as estadias do comandante Antoine de Saint-Exupéry no local em 1930 e 1931. Frequentador do clube de elite da cidade e amante da dança, ele era também camarada dos pescadores que o chamavam Zé Perri. Com os amigos, aprendeu a pescar e cozinhar, conquistado pelo peixe com pirão e a rosca de polvilho.

Um olhar de urso
O poeta amadureceu moldado pela perplexidade da guerra. Ainda adolescente, viu a 1ª Guerra Mundial (1914-1918), quando em dois anos morreram 1 milhão de soldados franceses. Em 1937, presenciou a Guerra Civil na Espanha, enquanto cumpria com lucidez e paixão a tarefa de levar cartas de um continente a outro, que ele assim definiu: “Tomar nos braços frágeis as meditações de um povo e transportá-las por entre mil ciladas, como um tesouro escondido sob o manto” (Correio sul, p. 15). A partir de 1939, continuou arriscando a vida no combate às forças nazistas na 2ª Guerra Mundial.
A crueza da guerra, a perícia dos aviadores, os detalhes das aeronaves, a variedade da paisagem vista do alto, tudo é traduzido nos livros de Saint-Exupéry, em linguagem poética permeada de humanismo e espiritualidade, que revelam as singelas utopias do poeta. Para ele, a felicidade é um lar onde se parte o pão ao redor da mesa à luz de um candeeiro, em uma casinha rodeada de árvores, campos floridos e rebanhos, perto de uma aldeia branca de luar. Carneiros, sementes, campos, jardins e trigais, presentes em todos os livros, simbolizam a simplicidade e a paz sonhadas por um combatente profundamente sensível, que cresceu e viveu testemunhando bombardeios, incêndios e ruínas nos campos e nas cidades.
“Um céu puro como água banhava e revelava as estrelas.” Assim começa a inspirada obra literária de Exupéry, com o livro Correio sul (p. 7).  A poesia povoava seu pensamento quando viajava horas em silêncio e, mirando o infinito, pensava: “A vastidão é para o espírito e não para os olhos” (Piloto de guerra, p. 102). Ele amava as paisagens de paz e, em uma carta para a mãe, escreveu dos Estados Unidos: “Minha mãezinha, comprei uma pequena máquina de filmar para levar-lhe algumas lembranças das Américas”. A filmadora era a maior novidade tecnológica da década de 1940.
O amigo Renné de Saussine escreveu: “Seus discursos, quando Antoine se dignava a falar, acordavam ecos”  (Cartas do Pequeno Príncipe, p. 155). E, referindo-se ao silêncio habitual do amigo, Saussine revelou que ele falava com “seus grandes olhos negros, cheios de integridade” (Cartas do Pequeno Príncipe, p. 157). Exupéry descreveu o próprio temperamento como o de um grande urso mudo. Uma mudez povoada de estrelas que o fez proclamar: “A unidade do ser não é explicável em palavras” (Piloto de guerra, p. 218); “O mistério está em toda parte” (Terra dos homens, p. 53).
O capitão morreu na guerra, participando da paz, porque exigia de si mesmo:  “O que sou eu se não participo? Para ser, tenho necessidade de participar” (Piloto de guerra, p. 173). E foi participando que levou consigo a certeza: “A eternidade está tão próxima! É preciso tão pouca coisa para que não se consiga jamais transpor uma baía...!” (Um sentido para a vida, p. 212). Dizem as crianças que o Pequeno Príncipe o esperava no Planeta B612 e ele vive lá, entre as estrelas que tanto amou!

A última carta
Poucos dias antes da decolagem fatal, já na base aérea de Borgo na ilha italiana da Córsega, Exupéry escreveu a última das frequentes cartas à mãe, que, devido à guerra, ela só receberia um ano depois. A citada Didi é sua irmã que teve a casa bombardeada.
Borgo, julho de 1944
Minha mãezinha,
Gostaria tanto de tranquilizá-la a meu respeito e que você recebesse minha carta! Vou muito bem. Inteiramente. Mas estou tão triste de não vê-la há tanto tempo! E estou inquieto por você, minha velha mãezinha querida. Como esta época é infeliz!
Feriu-me o coração saber que Didi perdeu a casa. Ah, mamãe, como eu gostaria de ajudá-la, mas que ela conte comigo para o futuro. Quando será possível dizer aos que amamos que os amamos?
Mamãe, beije-me como eu a beijo do fundo do coração,
Antoine
Pensamentos de Saint-Exupéry
A nostalgia é o desejo de não se sabe o que. Existe o objeto do desejo, mas não existem palavras para o revelar (Um sentido para a vida, p. 146).
Existe um problema,  um único: redescobrir que existe uma vida do espírito ainda mais alta do que a vida da Inteligência. E que é essa a única que satisfaz o homem (Um sentido para a vida, p. 190).
O que dá um sentido à vida dá um sentido à morte (Um sentido para a vida, p. 150).
O que interessa é que nos encaminhemos para um fim que não se divisa no momento. Esse fim não está ao alcance da Inteligência, mas ao alcance do espírito (Piloto de guerra, p. 48).
Viver é nascer lentamente (Piloto de guerra, p. 65).
Há verdades que são evidentes ainda que não se possam formular (Piloto de guerra, p. 137).
O autêntico amor é uma rede de laços que nos transformam (Piloto de guerra, p. 187).
Se o indivíduo se exalta na sua própria importância, em breve o caminho se converte em parede (Piloto de guerra, p. 213).
Cada estrela fixa uma direção verdadeira. São, todas elas, estrelas de magos (Cartas do Pequeno Príncipe, p.18).
Como são simples os acontecimentos essenciais!  (Cartas do Pequeno Príncipe, p. 20).
A maturidade que a gente adquire vai se fazendo lentamente (Cartas do Pequeno Príncipe, p. 24).
O verdadeiro prazer é o prazer de conviver (Cartas do Pequeno Príncipe, p. 26).
É sempre nos porões da opressão que se preparam as novas verdades (Cartas do Pequeno Príncipe, p. 29).
Ah! O maravilhoso de uma casa não é o abrigo ou o acolhimento que ela nos dá, nem as paredes que possuímos, mas as provisões de ternura que ela lentamente acumula em nós (Cartas do Pequeno Príncipe, p. 36).
Senhor, dai-me a paz dos estábulos, a paz das coisas organizadas, das colheitas realizadas (Cartas do Pequeno Príncipe, p. 46).
Eu tinha mil razões para ser feliz (Cartas do Pequeno Príncipe, p. 195).
Este tapete árabe que comprei hoje, que me dá uma alma pesada de proprietário, eu que era tão leve, que não tinha nada (Cartas do Pequeno Príncipe, p.197).
Ser homem é precisamente ser responsável (Terra dos homens, p. 36).
O que há de maravilhoso numa casa não é que ela nos abrigue e nos conforte, nem que tenha paredes. É que deponham em nós, lentamente, tantas provisões de doçura. Que forme, no fundo de nosso coração, essa nascente obscura de onde correm, como água da fonte, os sonhos (Terra dos homens, p. 52).
Não sei o que se passa em mim. Essa força da gravidade me liga ao chão, quando tantas estrelas são imantadas (Terra dos homens, p. 52).
Não é a distância que mede o afastamento (Terra dos homens, p. 53).
O império do homem é interior (Terra dos homens, p. 61).

Obras de Antoine de Saint-Exupéry em português
Correio do sul. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
Piloto de guerra. São Paulo: José Olympio Editora, 1983.
O Pequeno Príncipe – São Paulo: Editora Agir, 1952.
Terra dos homens. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1982.
Voo noturno, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1982.
Obras póstumas do autor
Um sentido para a vida, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1982.
Cidadela, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1982.
Cartas do Pequeno Príncipe. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1986.




Fonte: Diálogo 74, Maio/Junho 2014
Postado por: Diálogo




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