Andersen e os contos imortais

Data de publicação: 20/07/2018


O dia 2 de abril é o Dia Internacional do Livro Infantil. Foi proclamado em 1967, pelo International Board onf Books for Young People (Organização Internacional para o Livro Juvenil), entidade sem fins lucrativos fundada em Zurique na Suíça, em 1953. A data foi escolhida por lembrar o nascimento do Pai da Literatura Infantil, o escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, em 1805.

Primeiras conquistas
Andersen nasceu em uma família humilde de Odense na Dinamarca e faleceu em Copenhague em 4 de agosto de 1875. Quando pequeno, o pai inscreveu-se no exército de Napoleão, participou da invasão da Rússia, voltou para casa mutilado e morreu quando o filho tinha 9 anos de idade. Com a tragédia, a mãe, a irmã e a avó passaram a esperar tudo do menino, confiadas na palavra de uma cigana que havia previsto para ele um destino promissor.
Inteligente e sensível, Hans Christian Andersen concluiu com sucesso os anos da  escola elementar. Em seguida, trabalhou como sapateiro e, em contato com clientes da classe mais pobre da cidade, conviveu com a grande memória oral milenar dos contos folclóricos nórdicos. Em sua brilhante imaginação, o encanto dos contos uniu-se às histórias do livro As mil e uma noites, que o pai costumava ler para a família quando ele era pequeno.
O sonho de Andersen era o teatro e, em 1819, com menos de 15 anos, deu adeus à casa materna e foi para Copenhague tentar a vida como ator. A pouca instrução e a linguagem inculta esconderam seu fabuloso talento aos olhos dos diretores artísticos, que lhe fecharam as portas. Ele achou trabalho como ajudante de um marceneiro e assim teve chance de conhecer um músico italiano que o convidou a declamar poemas em uma festa familiar. Naquela noite, pessoas do meio artístico que estavam presentes, notaram o potencial do jovem e o ajudaram a entrar nos cursos de línguas e história. Sua dedicação, unida à inteligência e ao talento, levou-o aos degraus do mundo da arte. E, e em breve, uma peça de sua autoria foi dramatizada no Teatro Real.
O novo autor chamou a atenção do mundo culto e conseguiu bolsas de estudo na Dinamarca e na Alemanha, consagrando-se anos depois como escritor romântico com a obra inspirada em sua própria vida, O improvisador. Lançado na Itália em 1835, o livro foi o expoente do romantismo popular e teve 50 anos de contínuas traduções e reedições em vários países. 

Pérolas da diversidade
O berço cultural de Andersen explica em parte a genialidade dos contos, histórias, poemas e romances que produziu. A Dinamarca, formada por pequenas ilhas do mar Báltico, foi porto de passagem de barcos e navios que cortaram a Europa em todas as direções por mais de 1.500 anos. Esse contato deu ao povo uma diversificada herança de visões do mundo e um infinito acervo de sagas, lendas, fábulas, cantares e crenças de tradições orais das mais diversas origens. Andersen recolheu a memória coletiva desses tesouros arcaicos, filtrou-a com sua experiência de vida, sua forte espiritualidade e sua visão cristã do mundo e a imortalizou na escrita.
A vida colocou o autor no centro do palco dos sentimentos humanos, e sua obra, aparentemente ingênua e simples, tornou-se universal justamente pela dimensão humanística que inaugurou na literatura da época. Aconchego familiar, fé em Deus, pobreza, perda precoce do pai, trabalho infantil, privações, afastamento da família, solidão e rejeição moldaram nele um espírito profundo, uma verdadeira contemplação à natureza e uma grande convicção espiritual. Com modos delicados e tido por afeminado, sofreu discriminação e foi sempre repelido pelas garotas que tentou namorar. Por fim, conformou-se a uma vida solitária preenchida pela espiritualidade, que extravasava nos gêneros literários que criou. O amor sublimado até a morte por um personagem discriminado pelo defeito físico é o drama dos contos imortais Soldadinho de chumbo e A pequena sereia. Por sua vez, o conto O patinho feio, personifica o sofrimento que o autor enfrentou antes de ser reconhecido em seu talento. Ele mesmo, em certa oportunidade, teria revelado isso a um amigo.

O espelho da sociedade
Andersen reelaborou tradições do folclore nórdico de origem perdida nos tempos, marcadas pelo fantástico dos objetos animados e dos animais que falam, mas inseriu nelas uma crítica irônica e humorística aos poderosos, como vemos nos contos A princesa e a ervilha e O traje novo do imperador. Denunciou grandes injustiças e ridículas mazelas dos ricos e revelou facetas obscuras da sociedade, repetindo em vários contos desde a crueldade com os animais, o desprezo às pessoas deficientes até a morte de crianças e adultos por doenças, fome e frio.
A imaginação levou o autor a transformar em literatura até as novidades da ciência e da tecnologia da época, como vemos no conto A grande serpente marinha, escrito entre 1871 e 1872. É uma descrição imaginária de como os animais marinhos reagiram quando, em 1866, foi lançado de um grande navio o cabo submarino de telégrafo que ligou a Europa e a América do Norte pela comunicação elétrica. Segundo Andersen, os peixes e outros habitantes do mar ficaram desconfiados e temerosos com o estranho ser que veio da superfície e ficou extático nas profundezas do oceano. Um cardume de peixes jovens e curiosos assistiu ao fenômeno, resolveu investigar e chegou a uma conclusão sobre a natureza da estranha criatura.
“Mas como lindamente nadavam na água e não pensavam em nada, tombou com terrível ruído de cima e no meio deles uma coisa longa e pesada que de nenhum modo parecia querer parar. (...) A coisa pesada e violenta desceu ainda mais e mais fundo, tornou-se mais e mais longa, uma milha longa, através de todo o mar.
Peixes e caracóis, tudo o que nada, tudo o que rasteja ou é arrastado pelas correntes, deram por essa coisa terrível, essa desconhecida e enorme enguia-do-mar que num instante viera lá de cima. (...) Houve terror, houve tumulto entre os legítimos habitantes do mar, onde o cabo se afundou. (...)

De cima tinha vindo, lá de cima se devia poder obter melhor informação, então nadaram todos para cima, na direção da superfície do mar, onde havia tempo calmo. Lá encontraram um delfim que nada havia visto. (...) Depois se dirigiram à foca, que precisamente naquele momento mergulhava. (...) Sabia pouco mais do que o peixe-saltador.
– Tenho estado muitas noites numa pedra úmida olhando lá para a terra, a milhas daqui. Lá existem criaturas ardilosas, chamam-se na sua língua homens, perseguem-nos, mas muitas vezes conseguimos escapar deles, isso entendi eu e isso também entendeu a enguia-do-mar, perguntai a ela! Esteve em seu poder, esteve lá em cima na terra, certamente em tempos imemoriais. De lá a levaram num barco para a conduzir sobre o mar para uma outra terra longínqua. Vi que trabalho tiveram, mas conseguiram dominá-la, pois tinha enfraquecido na terra. Puseram-na em anéis e círculos, ouvi como se sacudia e como se enroscava quando lá a deitaram, mas escapou deles. Seguraram-na com todas as forças, muitas mãos a agarraram firmemente, conseguiu fugir, contudo, e atingiu o fundo. Lá está, penso, agora!
– Está um pouco magra! – disseram os peixinhos.
– Fizeram-na passar fome! – disse a foca. – Mas vai se recuperar em breve e voltar à sua antiga gordura e tamanho.”  ( p.721-723)

Sugestões de atividades interdisciplinares
Teatro sobre a biografia de Andersen;
Painéis artísticos com os principais personagens criados pelo autor;
Debate acerca da visão de Deus e do mundo que Andersen revela nos contos.
 
Livro
 
Contos de Hans Christian Andersen
Traduzidos do dinamarquês

Tradução: João da Silva Duarte
Coleção: Contos da fonte
Paulinas Editora
Código: 51804-2
Obra de referência e consulta em literatura e na evolução de ideias e costumes ao longo da história. Traduzido e publicado em Portugal com 156 contos, 80 destes foram selecionados para a edição brasileira.

À venda na Rede Paulinas de Livrarias
Se preferir, ligue 0800 7010081
Ou acesse www.paulinas.com.br

Fonte: Dialogo 73 Fevereiro/Abril de 2014
Postado por: Diálogo




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