Religião como problema

Data de publicação: 20/07/2018


A pergunta pelo objeto da Ciência da Religião está no centro do seu estudo, como nas demais ciências. A existência de uma ciência corresponde à de seu objeto próprio e, por conseguinte, a um método próprio. O caso da religião é específico, primeiro por ser um fenômeno humano, inevitavelmente plural, de fatos dispostos no tempo e no espaço; segundo por pressupor convicções subjetivas  inevitáveis.
A resposta sobre o objeto da Ciência da Religião tem sido dada por estudiosos do assunto há mais de 100 anos. Aqui, portanto, se pretende expor os problemas da objetivação da religião (método-objeto), uma vez que as religiões têm discursos simbólicos e institucionais que levam a respostas prontas e podem influenciar o cientista no processo e no resultado do ato de fazer ciência. Essa questão é discutida pelas ciências sociais desde a virada do século 19 para o século 20. Por isso, com maior razão, a vigilância epistemológica é regra fundamental da investigação científica. Os objetos da crença de sujeitos e grupos, quando entram no território das ciências,  submetem-se a regras metodológicas que estudam sua natureza e funcionamento, com, sem ou apesar das respostas que trazem consigo. 

O objeto de estudo científico
É preciso distinguir o objeto de estudo científico dos objetos de crença e dos conteúdos culturais e políticos das tradições e confissões religiosas. A religião, a cultura e a política podem ser entendidas como conhecimentos, por oferecerem uma concepção de realidade e um modo próprio de transmissão, espontâneo e até inconsciente, que oferece cosmovisões, opiniões e valores morais aos indivíduos. No entanto, não constituem ciência, pela ausência da apropriação consciente do objeto e do método de conhecimento. A ciência significa, segundo o epistemólogo Gaston Bachelard, a superação da espontaneidade pelo controle metodológico, que ele denomina corte epistemológico.
A ciência tem domínios metodológicos que distinguem os pressupostos que o sujeito subjetivo atribui ao objeto. Não se trata da neutralidade científica positivista como regra metodológica, mas de uma objetivação da realidade: de regras válidas para conhecer um objeto, para além das opiniões subjetivas e de um caso particular.
O método-objeto científico é um “discurso objetivo” que transcende indivíduos e contextos e pode ser submetido a teste da verificação lógica ou empírica. Assim, desde os gregos, as ciências fizeram sua história, diversificando-se em paradigmas sempre mais plurais, porém se afirmando como método e como teoria. A Ciência da Religião herdou essa habilidade de explicar e compreender parte da realidade: a religião ou as religiões por meio de um caminho previamente conhecido: o método.

Conhecimento religioso e Ciência da Religião
A Ciência da Religião é distinta do conhecimento religioso. O conhecimento refere-se à experiência confessional do sujeito e aos processos de convicção, assimilação e práticas referentes a representações do sobrenatural ou do absoluto. Por envolver diferentes faculdades humanas, o conhecimento religioso é totalizador; seu objeto atrai o desejo e a inteligência e conecta o sujeito em explicações da origem e do fim, da transcendência e do absoluto, que transcendem o tempo e o espaço. A apreensão desse universo é experiencial e simbólica e conta com a palavra autorizada e a linguagem específica. A palavra comunica algo verdadeiro, transmitido por uma testemunha, o que dispensa a verificação empírica ou lógica. É um conhecimento a priori que vem da adesão do sujeito a uma promessa verdadeira e boa para a sua vida. A linguagem do testemunho revela algo que transcende o gesto, o objeto e a própria palavra.
A Ciência da Religião, diferente do conhecimento, inscreve-se em um universo construído pela razão que duvida, questiona, investiga e faz da religião objeto de verificação lógica ou empírica, em vista da explicação convincente. O conhecimento científico da religião pode ser feito sem a experiência religiosa, com ela ou apesar dela. Em todos os casos, requer regras metodológicas que permitam a qualquer sujeito investigar o objeto e chegar aos mesmos resultados em distintas épocas.

Segundo o filósofo Gaston Bachelard, o conhecimento religioso pode constituir um obstáculo epistemológico para a Ciência da Religião, por trazer respostas prontas sobre a realidade e, por via de regra, sobre o objeto escolhido para estudo. A força da inércia do instituído pode reproduzir as respostas, mesmo usando ferramentas metodológicas da ciência. Aqui cabe ainda a distinção entre a Teologia, que inclui em seu método os pressupostos da fé, mesmo que os submeta ao juízo crítico da razão, e a Ciência da Religião que dispensa o pressuposto religioso no momento do estudo científico. A Teologia não estuda simplesmente as questões referentes à fé, mas, estuda a realidade a partir do pressuposto da existência de Deus. Já do ponto de vista metodológico, os pressupostos da ciência da religião são os mesmos das demais ciências humanas: os de ordem metodológica e teórica. E, a partir desses pressupostos conscientes, ela procura compreender os objetos religiosos.

O problema do objeto-método da Ciência da Religião
A distinção necessária entre conhecimento religioso e Ciência da Religião imprime o corte epistemológico sobre a experiência religiosa. Significa que a adesão a uma crença não constitui pressuposto metodológico para o estudo científico da religião, embora possa permanecer como pressuposto epistemológico subjacente na escolha do objeto. Sendo a ciência uma construção que envolve o sujeito, além dos pressupostos teóricos e metodológicos que antecedem a escolha do objeto e acompanha sua investigação, os pressupostos crentes, agnósticos ou ateus, por sua vez, exercem influência sobre o cientista da religião. Contudo, esse pressuposto subjetivo não pode se tornar regra metodológica do estudo, pois, aplicado ao método, traria risco de viciar a resposta.
Esse princípio vale para as ciências humanas em geral. A neutralidade não significa a atitude positivista que separa o sujeito conhecedor e o objeto conhecido, como ocorre nas ciências naturais. Significa, sim, submeter-se às regras metodológicas com rigor, em permanente vigilância epistemológica, como argumenta Bachelard. A construção da ciência será sempre ruptura com as construções seguras das próprias ciências e, no caso da ciência da religião, com as respostas estabelecidas da religião. A Ciência da Religião é, nesse sentido, rejeição às respostas prévias oferecidas pelos conhecimentos religiosos nos quais se encontram inseridos os seus objetos de estudos.

Obstáculos método da Ciência da Religião
Pode-se falar em três paradigmas históricos e epistemológicos que podem conter obstáculos para o estudo da religião: a) o clássico, expresso de modo emblemático na Teologia; b) o moderno, que separa o sujeito do objeto; c) o do irracionalismo epistemológico, que nivela todas as formas de conhecimento.
Os obstáculos do paradigma clássico consistem no encaixe do objeto de estudo em uma moldura epistemológica que faz coincidir o ser: gênese, estrutura e função de um objeto; com o dever ser: o que sua essência guarda como destino último normativo. Essa moldura esconde respostas prévias e pode emitir juízos sobre elas, enquanto conhece suas essências e seus fins. Pode também dispensar o conhecimento das diferenças inerentes aos objetos de estudo, em nome da identidade como ser da mesma natureza. No caso da Ciência da Religião, surge o risco de singularizar a diversidade. Há, ainda, o perigo de transformar a Ciência da Religião em uma ciência normativa, destinada a definir o que a religião deve ser e a separar as religiões em verdadeiras e falsas. 
O paradigma moderno traz obstáculos ao estudo científico da religião, enquanto postula a distância entre objeto e sujeito. O primeiro obstáculo é não reconhecer as possibilidades do estudo científico da religião, por entendê-la apenas como experiência subjetiva, emocional ou restrita a uma comunidade. Ademais, seria a religião um objeto de estudo sem utilidade para a vida pública, necessariamente laica.
O irracionalismo epistemológico, conforme o filósofo Hilton Japiassu, é uma reação ao cientificismo e nivela como válidos todos os tipos de conhecimento. Os conhecimentos religioso, místico e esotérico vão sendo relidos como formas de conhecimento científico, ora pela via do sincretismo epistemológico, que mistura nomenclaturas e categorias científicas com categorias religiosas; ora pela “cientificação” do religioso.
Em nome de uma nova epistemologia que critica as fragmentações e instrumentalizações das ciências modernas, da constatação da relatividade dos paradigmas e da busca de práticas científicas mais integradoras, esses sincretismos e racionalizações colocam no mesmo patamar a experiência subjetiva e a formulação objetiva. E a ciência pode, então, abrigar epistemológica e politicamente essas experiências, abrindo mão de suas regras.

Concluindo
A Ciência da Religião é ciência como qualquer outra. Seu objeto e métodos estão, contudo, vinculados a experiências e tradições religiosas que exigem vigilância epistemológica permanente. Se ninguém chega neutro para fazer ciência, no caso dos estudos de religião, todos, crentes ou ateus, chegam com juízos prévios sobre os objetos de estudo e a formulação tida como verdadeira acerca da doutrina, dos ritos ou da moral de uma tradição religiosa. A consciência desses pressupostos é o primeiro passo para não deixar que eles interfiram nos estudos com respostas prontas, o que por si, já dispensaria a investigação científica.
A habilidade metodológica dispensa as respostas e procura no objeto a verdade que ele revela, mediante as regras da ciência: regras que delimitam o objeto, verificam a problemática e a hipótese formuladas, analisam as teorias adotadas, argumentam e comunicam resultados, e regras que estruturam o texto científico.
No ato de fazer Ciência da Religião, o objeto religioso não precede o cientista, ainda que apresente verdades ou simulações, como qualquer outro objeto. Ao contrário, é o cientista que terá algo a dizer após investigá-lo. A verdade da ciência não é toda a verdade, refere-se ao que investigou em um território, do ponto de vista lógico ou empírico. O que escapa desse limite não é ciência, ainda que integre a realidade vivenciada pelos seres humanos. O que concerne às convicções, como valor moral, religioso e estético, fica fora do cientificamente demonstrável, ainda que possa ser objeto de estudo. Ao passar para o campo da ciência, torna-se objeto e silencia suas verdades ditas, para se submeter aos juízos da razão que duvida, interroga e procura  respostas.

*João Décio Passos
Doutor em Ciências sociais, é professor do Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC de São Paulo.

BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.
JAPIASSU, Hilton. A crise da razão e do saber objetivo; as ondas do irracional. São Paulo: letras & Letras, 1996.
WEBER, Max. Metodologia das ciências sociais, Parte 2. São Paulo: Cortez, 1995.
______ . Metodologia das ciências sociais, Parte 1. São Paulo: Cortez, 2001.

Fonte: Dialogo 71, Ago/Set 2013
Postado por: Diálogo




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