Sempre é tempo de folclore

Data de publicação: 16/08/2018


Tal como a língua e a história, o folclore, conjunto de manifestações da cultura popular tradicional, retrata a alma de um povo, exprimindo sentimentos e valores estéticos que muitas vezes influenciam as expressões mais elaboradas da cultura de cada nação.

Espelho do espírito
Não existe definição universal para o termo folclore, que identifica a arte espontânea popular, paralela à arte clássica. Até o fim do século 18 as elites cultas classificavam a cultura popular, fosse ela música, dança, conto, saga ou artesanato, como produto da ignorância frente ao patrimônio cultural das classes superiores. No início do século 19, alguns estudiosos passaram a valorizar certas criações do povo, em que viram inspiração, profundidade e liberdade maiores do que as encontradas no formalismo e na rigidez da arte acadêmica.
O filósofo e poeta alemão Johann Gottfried Von Herder (1744-1802), fundador do Romantismo, escreveu o livro As ideias e a filosofia da história da humanidade, que lhe deu o título de fundador da Filosofia da História. Para ele, a criação é espontânea no espírito humano e a arte só é tal quando reflete o psiquismo do povo. Observou que a literatura popular é um arquivo imaterial onde os povos conservam memórias coletivas. Os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm, na obra Mitologia alemã, de 1835, mostraram que os contos populares não só atraem interesse literário, como contêm chaves de acesso às mais antigas crenças religiosas. 
Mais tarde a descoberta do parentesco entre o antigo sânscrito da Índia e os idiomas europeus confirmou a hipótese da relação entre literatura folclórica e história da religião. Em meados do século 19, Friedrich Max Müller (1823-1900) orientalista e mitólogo alemão criador da disciplina acadêmica Religião comparada, estudou o Avesta e o Rigveda-Samhita, livros sagrados indianos, e concluiu que as narrativas populares europeias continham restos das antigas religiões arianas ocultas pela evolução da linguagem.
Em 1846, William John Thoms (1803-1885), escritor e antiquário inglês, criou o termo folclore para designar o que até então se chamava genericamente “antiguidades populares”. Para William Thoms, essas manifestações vinham de uma especial capacidade humana de tender ao divino, ao maravilhoso e a, espontaneamente, expressar as crenças em linguagens simbólicas. Viu nisso uma sabedoria, uma direção de vida do povo.
Danças, cantos, teatro, música, poesia, lendas populares constituem um acervo universal, objeto de contínua reapresentação e adaptação, sempre reavivado no calendário do povo, que dá sentido à passagem do tempo e aos ciclos da vida. As festas são perpetuamente repetidas e participadas com envolvimento das linguagens primordiais que cativam o intelectual, o lúdico, o estético e o emocional.

Objeto de conhecimento
O estudo do folclore tem três vertentes: a humanística, que vê os fenômenos literários de forma crítica; a psicanalítica, que interpreta as linguagens simbólicas enquanto figuras arquetípicas que expressam camadas ocultas do inconsciente pessoal e coletivo; e a  antropológica, que relaciona as produções folclóricas com a totalidade da cultura e vê no folclore elementos da pré-história. As três se completam, sendo o aspecto antropológico e cultural o mais estudado pelos folcloristas atuais, por explicar a função social das criações populares. 
As primeiras civilizações, a escrita, o calendário e os cultos nos templos encerraram a noção de conhecimento no texto escrito. A religiosidade dos clãs, relegada ao nível da ignorância, continuou, por sua vez, a elaborar respostas universais para a vida, o mundo, o transcendente, o destino; e a reger o comportamento social por meio de tabus, interditos, superstições, festas e ritos.
Voltaire (1694-1778), filósofo iluminista francês, no Ensaio sobre os costumes (1758) sublinhou a importância do conhecimento do cotidiano das classes populares. E o  antropólogo norte-americano Franz Boas (1858-1942), fundador da Antropologia Cultural, foi o primeiro a tratar o folclore como objeto de ciência rigorosa com pesquisa de campo e comparação de dados de vários pontos da terra, estabelecendo os possíveis itinerários históricos das culturas.
Os antropólogos estruturalistas, como o francês Claude Lévi-Strauss (1908-2009), reconheceram nas sociedades simples o status de matrizes culturais legítimas. Essa análise levou a uma nova compreensão do valor das culturas.

Critérios de identificação
Alguns critérios consensuais definem a legitimidade de uma expressão folclórica. São eles, antiguidade remota, autoria desconhecida, transmissão fiel entre as gerações, aceitação coletiva, domínio popular, espontaneidade, funcionalidade em relação a fatos e a valores vitais, ausência de registro escrito.
Quando uma prática folclórica é reproduzida com objetivo comercial, deixa de ser realizada como elaboração de sentidos e perde sua funcionalidade existencial na vida de quem a reproduz. Continua a ser expressão de arte, mas já destituída de seus verdadeiros elementos folclóricos.

Recursos paradidáticos
O catálogo de Paulinas Editora possui obras de alto valor didático para a inclusão do folclore e da diversidade cultural na sala de aula.   

Dez sacizinhos
Texto: Tatiana Belinky
Ilustrações: Roberto Weigand
Coleção: Sabor amizade
Código: 8833-2
A consagrada autora criou uma divertida parlenda ao redor da figura folclórica do Saci. O texto inspira a imaginação lúdica e humorística e pode ser continuamente recriado. 







Maroca E Deolindo e outros personagens em FESTAS
Texto e ilustrações: André Neves
Coleção: Espaço aberto
Código: 51971-5
Personagens infantis e adultos, típicos do povo brasileiro, vivenciam 12 festas folclóricas de todas as regiões do País. Os valores de cada festa são acrescidos com dados históricos e culturais.











Ao pé das fogueiras acesas
Texto: Elias José
Ilustrações: André Neves
Coleção: Mito & Magia
Código: 51271-0
Memórias de contos e fábulas da tradição oral indígena que entraram para o acervo popular. Por meio da onça e de outros animais, a educação em valores essenciais passa entre as gerações nas aldeias, à luz das fogueiras.









Mentiras caipiras 
Texto e ilustrações: Mario Bag
Coleção: Mito & Magia
Código: 51640-6
Rimas originais divertem o leitor com narrativas fantásticas e cômicas, pontilhadas de valores como cuidado do meio ambiente e respeito aos animais.   
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     
Cordel das lendas bovinas
Texto: Jorge Fernando dos Santos
Ilustrações: Graça Lima
Coleção: Mito & Magia
Código: 51159-5
Em estilo de cordel, o autor faz do boi o personagem de uma viagem interdisciplinar pela história, a geografia, a mitologia, a religião, a literatura e o folclore. 

Fonte: Dialogo 75, Agosto/Setembro 2014
Postado por: Diálogo




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