Ensino Médio em foco

Data de publicação: 16/08/2018

 
O Ensino Religioso com jovens do Ensino Médio é difícil em todas as escolas. Projetos que deem aos estudantes a chance de serem sujeitos da aprendizagem garantem que vale a pena assumir o desafio. 

Diversidade, ótima parceira
A Escola Técnica Estadual 25 de Julho, de Ijuí (RS), oferece o Ensino Médio Politécnico, o Médio Integrado e o Ensino Profissionalizante. Atende cerca de 2 mil alunos de várias localidades da região, o que faz da diversidade cultural uma forte característica no espaço escolar. Tem por filosofia desenvolver ações empreendedoras, inclusivas, cooperativas, conscientes, críticas e criadoras, fundamentadas na realidade e na participação dos sujeitos que compõem a comunidade escolar, que se constituem em agentes de formação integral e da melhoria das condições de vida das pessoas.
A diversidade marca o fazer pedagógico da escola, principalmente no Ensino Religioso, pois os educandos trazem da formação familiar histórias, tradições, conceitos, valores e crenças que regem atitudes e comportamento, mas também geram conflitos. Mesmo havendo atividades de integração e socialização entre as turmas, a dificuldade de convivência, principalmente dos alunos novos, altera o desenvolvimento da aprendizagem. Justifica-se, por isso, o Projeto Conhecendo e Convivendo com o Diferente, que teve início em 2012, nas turmas de 1º anos do Ensino Médio Politécnico e Integrado.
Pensado e executado pela professora de Ensino Religioso, Solange Koltermann e assessorado pela coordenação pedagógica da escola, o projeto surgiu a partir do que a escola, em seu projeto político pedagógico, deseja para a formação dos educandos, após perceber os conflitos visíveis e invisíveis no cotidiano escolar.
Com o objetivo de ver, ouvir e reconhecer a diversidade no ambiente escolar; compreender a importância da convivência pacífica e o respeito frente às diferenças; possibilitar ao educando um novo olhar sobre o seu cotidiano, seu fazer e seu saber. 

Três momentos do projeto
A atividade inicial partiu do livro Romeu e Julieta, de Ruth Rocha (Editora Moderna, 2009). A projeção das páginas em slides, em um ambiente acolhedor, favoreceu o primeiro contato com o livro, que trata o (pré) conceito inscrito nas culturas: “... quando Julieta queria voar para o canteiro azul, sua mãe dizia: ‘Não, Julieta, cada borboleta no seu canteiro!’”; “O pai sempre falava: “Romeu, Romeu, nada de passeios nos canteiros de outra cor, é perigoso!”.  A história gerou o debate sobre situações em que os costumes familiares determinam o agir e o pensar das pessoas, os estudantes lembraram falas de pais ou avós, marcadas por conceitos, repassados de uma a outra geração.
O segundo momento foi vivenciado em grupos. A poesia de Ruth Rocha Pessoas são diferentes e o livro de Rossana Ramos Na minha escola todo mundo é igual (Editora Cortez, 2004), dividido em partes, inspiraram a produção de acrósticos e novas poesias. Os grupos escreveram textos com as opiniões e o conhecimento construído sobre o tema trabalhado. Ao concluírem, um componente de cada grupo leu o trabalho e depois os textos foram expostos na sala.
A poesia e o livro retratam as diferenças físicas, de estilo, comportamento, personalidade, de gostos, entre as pessoas. A estrofe final da poesia Pessoas são diferentes diz:
“Não queira que sejam iguais,
  aliás, nem mesmo tentes!
  São duas crianças lindas,
   mas são muito diferentes!”
 Assim, destacam-se as singularidades e individualidades, que merecem respeito, pois,   como seres humanos, somos todos iguais.
O livro de Rossana Ramos sugere ideias fortes tais como: “Lá na minha escola, ninguém é diferente. Cada um tem seu jeito, o que importa é ir em frente”; e “Tem gente que aprende depressa, tem gente que demora um pouco, mas isso não faz diferença porque um ensina o outro”. Essas ideias reforçam o papel do Ensino Religioso, pois, além de colocar em questão a diversidade e o multiculturalismo na escola, ele deve ser o espaço onde os estudantes percebam e reavaliem as próprias atitudes em relação ao outro.
Nessa segunda etapa do trabalho, um dos jovens encontrou na internet uma gravação em vídeo sobre o livro que estava sendo trabalhado. A turma foi contagiada pelo interesse do colega e reabriu o debate acerca do acolhimento dispensado aos alunos no início do ano letivo. Os relatos demonstram as angústias do começo de uma nova etapa, como afirmou um deles: “O primeiro dia na nova escola foi muito diferente do que eu estava acostumado, sem amigos e conversas... Tive muita dificuldade de me enturmar e no primeiro trimestre as notas foram baixas em seis disciplinas”. Outro relatou: “No recreio, eu ficava sozinho, não conversava com ninguém, em aula as notas não estavam muito boas, até que consegui trocar de turno e ficar na mesma turma com meus amigos, aos poucos fui me enturmando e as notas melhoraram”.
Os relatos indicam que é necessário ser aceito, sentir-se acolhido no espaço escolar, para conseguir melhores resultados na aprendizagem.
A terceira atividade foi a produção de painéis. Os jovens colocaram em prática as ideias enfatizadas nos debates, e o resultado deveria demonstrar o entendimento obtido sobre o tema e chamar a atenção das pessoas, na escola, para o desrespeito existente com o outro.
Essa atividade exigiu conversa e consenso sobre a forma do painel, a mensagem expressa, as linguagens utilizadas e a divisão das tarefas. Foi um momento muito produtivo e gratificante, no qual todos puderam manifestar sua opinião. As decisões coletivas valorizaram a habilidade individual, confiando tarefas conforme o que cada um sabia ou gostava mais de fazer. Ao mesmo tempo, ninguém deixou de participar dos momentos de trabalho coletivo. A produção final foi bastante elogiada pelas outras turmas da escola.
O projeto ocorreu entre março e maio de 2012. Como forma de sistematização, foi realizada uma produção textual em duplas, considerando o entendimento sobre as leituras e as falas nos debates. A avaliação é contínua e segue os critérios delimitados e explicitados aos alunos no início do trimestre.

Considerações finais
O espaço escolar abrange conflitos, porque as diferenças e divergências se mostram com muita intensidade. As emoções surgem revelando o ser e o pensar de cada um. A sala de aula se constitui em um espaço de conhecimento formal e informal, mas também pelo sentimento e pelas relações, intensas ou superficiais, constituindo o sujeito, forjando o seu ser, o seu agir e o seu pensar. O diálogo constante, o saber questionar, pensar e ouvir, é uma construção de novas relações, que ressignificam conhecimentos por meio da prática.
As atividades do Projeto Conhecendo e Convivendo com o Diferente auxiliaram na tentativa de “trincar o gesso” que envolve os conceitos preestabelecidos tanto pelas vivências familiares instituídas culturalmente, quanto pelas experiências vivenciadas.
O projeto não teve um caminho predefinido, único, mas sim várias possibilidades, que foram se abrindo, construindo novos percursos no decorrer da caminhada. Nesse sentido, o Ensino Religioso, como componente curricular, representa uma aposta na formação global do sujeito, que também se dá no tecer diário das relações, nas trocas, nos fazeres do cotidiano, na rememoração de experiências vividas.

Professora Solange Koltermann

Fonte: Dialogo 75, Agosto/Setembro 2014
Postado por: Diálogo




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