Fronteiras, diálogo e paz

Data de publicação: 14/09/2018



Por, Ascânio João Sedrez *

Quando conseguimos acolher a vida de pessoas imersas em culturas diferentes das nossas, começamos a resgatar a nossa humanidade. O exercício exigente de perceber a realidade do outro, colocando-se no mesmo ângulo com o qual ele se percebe, exige uma “ginástica” que muitos contorcionistas nem se atreveriam a tentar.
Religião e espiritualidade na educação

O espaço da escola e, mais particularmente, o espaço do Ensino Religioso são ambiciosos. Queremos tratar com os(as) estudantes acerca desse movimento de humanização. Somos o que somos na relação com os nossos pares, assemelhados, próximos, e que têm muito em comum conosco; ao mesmo tempo, aperfeiçoamos nosso ser e nossas identidades no contato sereno e acolhedor com os que vivem e acreditam em realidades que nos são, muitas vezes, absolutamente distantes e até exóticas. Eis o desafio lançado: o outro, com suas peculiaridades, particularidades, crenças e valores não é um obstáculo, não pode ser causa de espanto ou medo. Um estudante que passar por nossa escola e conseguir ampliar seu olhar sobre essa riqueza das tradições culturais, religiosas e espirituais, sem preconceitos e receios, terá alicerçado o caminho para uma espiritualidade do diálogo e da paz.
Comecemos com um fato que ainda tem gerado muito desassossego: como não relacionar a sátira ou a rejeição a símbolos e pessoas, em suas várias convicções religiosas, com o crescimento vertiginoso de grupos violentos que radicalizam seus discursos e práticas pessoais e coletivas? Como lidar, também em sala de aula, com as delicadas relações entre direitos que poderiam ser complementares e que, em vários contextos, parecem se opor mutuamente? Exemplos disso são o direito à livre manifestação e o direito à escolha e à prática religiosa.

A difícil civilização do amor
As reações ao atentado à redação do jornal satírico Charlie Hebdo, em Paris, na França, no começo deste ano, foram marcantes, tanto do ponto de vista da sensibilidade humana e da solidariedade com os atingidos, quanto na exacerbação da violência. Na aula de Ensino Religioso, caberia uma boa coleta dessas notícias e postagens, para se ver que esses fatos, objetivamente tão tristes, não são entendidos da mesma forma pelas pessoas e por grupos humanos, nações e corporações. A diversidade de olhares pode compor um grande mosaico que expresse, quanto possível, as nuanças dos fatos e a pluralidade de interpretações ou manipulações. Neutralidade, nesse caso, dificilmente se admitirá.
Entre os destaques que poderíamos trazer para a reflexão e para a necessária tomada de posição, quero dar ênfase às palavras do papa Francisco, líder espiritual católico que mantém uma relação mais do que cordial com as demais denominações cristãs e com as grandes tradições religiosas. Na ocasião dos assassinatos dos jornalistas e cartunistas do jornal Charlie Hebdo, o papa declarou: “A liberdade religiosa e a liberdade de expressão são direitos humanos fundamentais. Todo mundo tem não só a liberdade e o direito, mas a obrigação de dizer o que pensa para o bem comum. Nós temos o direito de ter essa liberdade abertamente, sem ofender”. E completou: “Você não pode fazer das religiões dos outros um brinquedo”. Abrindo um pouco a lente para uma visão mais abrangente, disse: “Vamos considerar nossa própria história. Quantas guerras de religião nós tivemos? Você não pode matar em nome de Deus. Isso é uma aberração” (cf. agência Reuters).
Pois bem, temos aí uma declaração em falta, nesses tempos de ambivalências não assumidas. O papa não quer estabelecer fronteiras fechadas entre o bem e o mal. Não é preciso apontar os totalmente culpados e os totalmente inocentes. As duas posições extremadas contribuem para os radicalismos que desumanizam as posições dos que divergem. Francisco aponta os problemas dos envolvidos no conflito: desrespeitar radicalmente as crenças de grupos ou comunidades e atribuir-se o direito de tirar a vida de alguém que se manifesta de modo diferente. O papa não se coloca como juiz e sim como quem também tem mudanças a implementar em sua comunidade de fé, porém defende a vida como valor inalienável e impassível de concessões.
Acompanhamos, há anos, manifestações violentas de xenofobia, de discriminação em vários âmbitos do convívio humano, de preconceitos, que ocasionam atitudes, concepções e até legislações no mundo inteiro. Temos clareza da urgência de procurar, sobretudo na escola com sua proposta curricular e, fortemente, no Ensino Religioso, uma reviravolta total nas concepções e na maneira como organizamos nossa vida em sociedade.
Quando e os direitos e deveres forem entendidos como caminhos para a construção do bem comum e não apenas possibilidade de um exacerbado crescimento do individualismo e da hipertrofia dos egos, aí então estaremos reconstruindo as bases de uma cidadania planetária, de uma convivência humana próspera com e nas diferenças.

Tolerância: primeiro passo
Muitas vezes a tolerância é considerada uma atitude parcial e insuficiente na convivência humana. Nestes tempos, porém, em que as verdades pessoais ou coletivas são tidas como fronteiras intransponíveis ou inegociáveis, ela passa a ser a grande virtude. Recordo-me de uma noção desafiadora que encontrei sobre essa virtude humana: “A tolerância é necessária para elevar o ser humano à condição de civilidade”. Leia-se o contrário quando acontece a intolerância, ou seja, corre-se o risco da volta à barbárie.
O escritor português José Saramago, falando de educação, diz que a tolerância cessa no limiar do crime. Não se pode ser tolerante com o criminoso. Educa-se ou pune-se. O escritor e pacifista israelense Amós Oz, para quem a tolerância é a questão fundamental do século 21, traz-nos uma pergunta bem atual: “A tolerância deve se tornar intolerante para se proteger da intolerância?” (cf. jornal Folha de S. Paulo, 10/01/1999).
A nossa história e as propostas dos grandes profetas das tradições espirituais, apontam para o perdão e a tolerância como caminhos para a paz. O grande Mahatma Gandhi propôs a não violência ativa como modalidade de tolerância com articulação e pressão, sem reiterar os meios equivocados dos que usam da violência para alcançar objetivos pessoais de poder e riqueza. A contribuição que as tradições religiosas podem trazer para a paz, para o direito de se expressar, para o direito de aderir e viver uma religião é o diálogo, é o novo olhar sobre si mesmo e sobre o outro.
A monja Coen, conhecida líder budista brasileira, diz que se ainda temos de apontar para alguns grupos que devem ser respeitados e incluídos, isso se dá devido a estarmos muito distantes do coração bondoso, terno, acolhedor e humilde; distantes da compaixão ilimitada. Sentir com o outro, no profundo de nós mesmos, eis o grande desafio.
Vale lembrar, por fim, que muitos dos conflitos religiosos e das intolerâncias religiosas surgem ao redor de absurdas questões de poder econômico e político, embaladas na névoa da fé e das convicções de grupos e de indivíduos. Cabe, portanto, a quem crê, renovar o ato de fé: Deus é amor, Deus é vida, e não pode ser razão, motivo, desculpa ou causa da violência e da morte.
Shalom, Salam, Axé, Paz e Bem!

*Ascânio João Sedrez (Chico)
Pedagogo, filósofo e diretor do Colégio Marista Arquidiocesano, em São Paulo (SP).

Fonte: Dialogo 78, Maio/Junho de 2015
Postado por: Diálogo




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