Entrelaçando saberes e vidas

Data de publicação: 07/11/2018


Entrelaçando saberes e vidas

A professora Célia de Fátima Rosa da Veiga, ou Fátima Veiga, coordena e assessora a ação docente de Ensino Religioso, desde a Educação Infantil até o Ensino Médio, no Colégio Franciscano Sant’Anna, das Irmãs Franciscanas da Penitência e Caridade Cristã, na cidade de Santa Maria (RS). Os anos de prática na sala de aula, sempre integrando os conteúdos às situações cotidianas, a fazem afirmar por experiência que o Ensino Religioso aponta para o tão necessário sentido da vida.  

DIÁLOGO – Em que consiste o “algo mais” do Ensino Religioso em relação aos outros componentes curriculares da educação?

Fátima – É a possibilidade de uma experiência que traga sentido para o cotidiano e para as relações, é a chance de discutir situações reais que permitam aos educandos interagirem com o educador e com os seus pares, manifestando ideias, angústias, projetos e tudo que faz parte de suas vidas.

DIÁLOGO – Quais os desafios que essa nova prática pedagógica enfrenta?

Fátima – Um trabalho assim, com crianças, adolescentes e jovens, e com suas famílias, requer que os professores ampliem e aprofundem os conhecimentos acerca do Ensino Religioso; Requer ainda que eles revejam conceitos, recriem possibilidades e aproveitem os espaços e momentos significativos, para novas práticas pedagógicas.

DIÁLOGO – Nessa prática não há o risco de se reduzir o Ensino Religioso, que é área de conhecimento, apenas ao âmbito da experiência subjetiva?

Fátima – É preciso ter o cuidado de, nas reuniões, nos encontros de estudo e nas salas de aula, trazer sempre o aspecto racional e transcendental que esse componente curricular desenvolve e aprofunda. Porém, a maior dificuldade é fazer com que os estudantes entendam o sentido do Ensino Religioso para suas vidas, também acerca da diversidade cultural e religiosa. É preciso ajudá-los a se abrirem à convivência com o diferente e valorizarem o outro em sua identidade.

DIÁLOGO – Diversidade cultural e religiosa são palavras-chave na sociedade brasileira. Como se integra esse binômio no Ensino Religioso? 

Fátima – Em primeiro lugar, é preciso perceber que este fenômeno existe na vida dos educandos, das famílias e das pessoas em geral. Portanto, o desafio é não direcionar o Ensino Religioso para a religião e sim para a espiritualidade. Faz-se necessário ajudar os educandos a compreenderem o Ensino Religioso como área de conhecimento.

DIÁLOGO – O que seria, então, essa espiritualidade?

Fátima – É uma ação educativa. Os educandos estão chegando à escola mais inquietos e até agressivos, precisando se acalmar, relaxar e silenciar. O teólogo cristão Anselm Grün, no livro A proteção do sagrado, diz que dentro de cada um de nós existe um espaço de silêncio, no qual o ruído do mundo não pode chegar e ao qual as preocupações e os problemas não têm acesso. Essa seria a espiritualidade a ser resgatada. Não significa, porém, que os educandos já não vivam uma espiritualidade. Muitos manifestam a transcendência em suas vidas, de maneira dinâmica e concreta, através da sensibilidade ao outro.
 
DIÁLOGO – Esse “silenciar”, naturalmente, não se refere a anular as diferenças e as vivências reais de cada um.

Fátima – Não, pelo contrário. O desafio para o educador é descobrir os elementos religiosos que fazem parte da vida dos educandos e sintonizar a ação pedagógica com o contexto de cada um. Esse olhar sensível orienta o educador na procura, seja da informação, da sensibilização, da reflexão, seja em vista de uma dinâmica que ajude a perceber o Fenômeno Religioso e a contemplar o diferente no outro. É preciso propor momentos em que os educandos se sintam em sintonia com a diversidade.

DIÁLOGO – Você tem um exemplo de um desses momentos?

Fátima – Uma oportunidade viável é trazer para a sala de aula o patrimônio cultural das tradições religiosas e das datas significativas do calendário. São momentos em que a sociedade está mais sensibilizada para atitudes de partilha, fraternidade e respeito.

DIÁLOGO – Qual é o segredo da eficácia do Ensino Religioso no Colégio Sant’Anna?

Fátima – Temos uma formação continuada. Durante quatro horas mensais, reúnem-se os professores da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental junto com os professores de Ensino Religioso dos anos finais do Fundamental e do Ensino Médio.  No início do ano, fez-se o cronograma, em consonância com as obras indicadas pela equipe de Ensino Religioso da mantenedora da escola e com as necessidades percebidas pelos educadores. E, mensalmente, estudam-se os temas, com um método participativo que envolve debates, seminários, grupos de estudos, produção de textos e outras atividades. Um trabalho que visa o avanço do Ensino Religioso para além da proposta de uma só religião e o abre ao diálogo inter-religioso. Nesse sentido, torna-se um processo dinâmico e contínuo.

DIÁLOGO – É uma opção corajosa para uma escola confessional!

Fátima – Sim, a escola tem uma identidade católica. Mas, pode-se dizer que tanto a identidade da escola franciscana quanto o Ensino Religioso contribuem para a formação integral da pessoa em desenvolvimento, pois, conforme diz o professor Sérgio Junqueira, “uma proposta de Ensino Religioso pluralista deve estar intimamente relacionada a um sistema de comportamento e de valores a serem vivenciados e não apenas a conteúdos e conhecimentos a serem assimilados”. (cf. Revista Diálogo educacional, nº 16, set./dez. 2005, p. 11).

DIÁLOGO – Os estudantes aderem de modo satisfatório à proposta de educação integral e de procura do sentido da vida?

Fátima – Mesmo em um contexto social de divergências e materialismos é perceptível, a partir de experiências realizadas no Ensino Religioso do Colégio Franciscano Sant’Anna, que ainda é possível despertar as pessoas para o sentido da vida. Muitos alunos se integram às propostas e aproveitam cada momento para ressignificar experiências pessoais. Outros são indiferentes e não se deixam tocar e envolver por propostas dessa natureza. Existem ainda os que não o fazem porque desconhecem. Dessa forma, a escola franciscana, ao oportunizar encontros, debates, silêncio, aprofundamento, questionamentos, atualiza a proposta de Francisco de Assis e oferece condições únicas para que o ser humano se desenvolva em sua plenitude.

DIÁLOGO – Francisco de Assis é um personagem universal que personifica a plenitude humana no seu estado mais puro.

Fátima – As reflexões sobre os mistérios da vida, a consciência dos próprios atos, a missão no mundo são práticas que colaboram para a educação do ser humano e fortalecem as relações, motivando os agentes da comunidade educativa a conviverem em harmonia num contexto repleto de divergências, contudo, com anseios de humanização. Foi isso que, em seu tempo, fez Francisco de Assis.

O currículo real é uma linha de ouro entrelaçada por muitas mãos à tessitura curricular. O resultado deste trabalho coletivo revela a missão da escola, que é acompanhar os estudantes na descoberta de sentidos e na construção de objetivos e metas para a vida.  A esse processo, o Ensino Religioso acrescenta “algo mais”, como vimos na experiência da professora Fátima Veiga e do Colégio Franciscano Sant’Anna.

Fonte: Diálogo 60, Outubro/Dezembro de 2010
Postado por: Diálogo




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