Biomas brasileiros

Data de publicação: 19/02/2019

Quando Pero Vaz de Caminha chegou à costa do território brasileiro, maravilhou-se com tudo o que viu. Descreveu minuciosamente os indígenas, a flora, a fauna e as águas que tinha diante dos olhos. Estava de tal forma maravilhado que, ao final da carta, escreveu literalmente ao rei de Portugal: “Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira graciosa (a terra) que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!”.
Alguns anos mais tarde, após a chegada dos colonizadores, começa a ocupação e a exploração do paraíso descrito por Pero Vaz de Caminha, a princípio no litoral. Começa a extração do pau-brasil, a árvore mais abundante que encontraram naquela imensa floresta, cuja tintura extraída era levada para a Europa. A madeira também era utilizada para fabricar móveis e instrumentos musicais. Para realizar esse trabalho, começa a exploração e a escravização das nações indígenas, o sequestro de seus territórios, as dizimações por guerras e doenças. Depois vieram os negros, também na linha da mão de obra escrava.
Com o decorrer da História, começa o avanço para o interior do nosso imenso território com aventureiros, bandeirantes e outros conquistadores. Assim, percebeu-se que esse território tem imensa variedade de formas de vida, floresta, animal e povo.
Os seis biomas brasileiros
Essa variedade de características presente em nosso território constitui os seis biomas brasileiros: Amazônia, Caatinga, Cerrado, Pantanal, Pampa e Mata Atlântica (abordado no artigo “Mata Atlântica – A casa comum de 145 milhões de brasileiros”, à pág.16). A expressão bioma vem de bio, que em grego quer dizer “vida” e oma, sufixo também grego que significa “massa, grupo ou estrutura de vida”. Um bioma é formado por todos os seres vivos de uma determinada região, onde a vegetação é similar e contínua, o clima é mais ou menos uniforme e a formação tem uma história comum. Por isso, a diversidade biológica também é parecida. Hoje, mais de 500 anos depois da chegada dos colonizadores, seria interessante nos perguntar: O que restou daquela floresta? Daqueles povos? Daquelas águas?
Nesse começo do terceiro milênio, somos uma população de mais de 200 milhões de brasileiros, 80% vivendo em cidades, codividindo esse planeta com 7 bilhões de pessoas e bilhões e bilhões de seres vivos. Pertencemos a uma mesma casa comum. O impacto dessa concentração populacional sobre o meio ambiente produz dilemas que põem em risco as riquezas naturais, o futuro da humanidade e de todos os seres vivos que habitam a Terra. De forma simples, vamos abordar cada um de nossos biomas, procurando entender suas características e problemas fundamentais.
Amazônia
Geograficamente é formado pelos estados da região Norte: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Roraima, Rondônia e Tocantins. Mas o bioma avança para os estados Mato Grosso e Maranhão, que foram legalmente incorporados à chamada Amazônia Legal. A floresta estende-se também para outros territórios da Colômbia, Peru, Venezuela, Equador, Bolívia, Suriname, Guiana Francesa e Guiana Inglesa, denominada de Pan-Amazônia.
A Amazônia é o maior bioma do Brasil, mesmo excluindo a parte da Amazônia Legal e da Pan-Amazônia. Abriga uma imensa diversidade de formas de vida: 2.500 espécies de árvores, ou um terço de toda a madeira tropical do mundo; 30 mil espécies de plantas; e mais de 4.200 espécies animais, apenas as catalogadas.
A Bacia Amazônica é a maior bacia hidrográfica do mundo: cobre cerca de 6 milhões de quilômetros quadrados e tem 1.100 afluentes. Seu principal rio, o Amazonas, corta a região para desaguar no Oceano Atlântico. O rio também carrega uma quantidade imensa de material orgânico e sedimentos que são lançados no oceano, gerando biodiversidade marinha e contribuindo para o equilíbrio da temperatura do planeta.
Existe ainda um Amazonas debaixo do chão, o Aquífero Alter do Chão, tão imenso quanto o rio de superfície. Mas não é só. A evapotranspiração da floresta produz o chamado rio aéreo, que leva água em forma de vapor pelas regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste do Brasil, transcendendo as fronteiras e indo até a Argentina. Além do ciclo das águas, o bioma tem fundamental importância para o ciclo do carbono, que começa pela absorção do gás carbônico do ar principalmente pelas plantas, quando elas realizam a fotossíntese.
A região é considerada a maior reserva de madeira tropical do mundo. Seus recursos naturais incluem, além da madeira, enormes estoques de borracha, castanha, peixe e minérios. A região abriga também grande riqueza cultural, incluindo o conhecimento tradicional sobre os usos e a forma de explorar esses recursos naturais sem esgotá-los nem destruir o habitat, contribuindo também com seus recursos para a biomedicina.
A Amazônia, por sua riqueza em águas e biodiversidade, é cobiçada por corporações do Brasil e do mundo inteiro, cada uma em seu respectivo ramo: água, fármacos, essências, minérios, saberes ancestrais das populações etc. A expropriação privada de grandes áreas de terra continua sendo a principal causa do desmatamento, que, financiada pela extração ilegal de madeira, tem por principal objetivo a grilagem de terras e o avanço da fronteira agrícola à custa da destruição da floresta. As populações originárias e tradicionais, indígenas, ribeirinhos, quilombolas, lutam para manter seus territórios, contra esse modelo de desenvolvimento. É graças a essas populações que ainda temos grande parte da floresta preservada.
Caatinga
Palavra originária do tupi-guarani, Caatinga significa “mata branca”. A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro. Tem um clima semiárido, inclusive o semiárido mais chuvoso do planeta. Abrange os territórios de nove estados do Nordeste, Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, mais o norte de Minas Gerais.
Em tempos de seca, a Caatinga “dorme”, hiberna, poupa água e energia, para voltar à vida plena durante as primeiras chuvas. A “ressurreição anual da Caatinga” é um dos espetáculos mais belos oferecidos pelos biomas brasileiros. Muitas plantas, como o umbuzeiro, guardam água em suas raízes, para poder ser utilizada dela em tempos de falta da chuva. As árvores secas e retorcidas, como também os cactos de folhas fibrosas, não são sinais de pobreza, mas de vida, que soube se adaptar ao clima semiárido.
Com 70% do seu subsolo formado por rochas cristalinas, o bioma Caatinga tem poucas nascentes e rios perenes, portanto, poucos aquíferos. O maior deles é o Rio São Francisco, que nasce no Cerrado mineiro. Cerca de 30% da região tem o subsolo formado por rochas sedimentares, o que favorece o armazenamento da água em aquíferos, como é o caso da região do Gurgueia, no Piauí. Nessa região, as águas subterrâneas ainda são abundantes, mesmo com a destruição da vegetação, que coloca em risco a sustentabilidade dos aquíferos. Dos rios que cortam a Caatinga, 99% são intermitentes, correndo apenas em época de chuva.
Quanto à fauna, o bioma da Caatinga abriga 178 espécies de mamíferos, 591 tipos de aves, 177 tipos de répteis, 79 espécies de anfíbios, 241 classes de peixes e 221 espécies de abelhas. A Caatinga, por ser uma vegetação geralmente baixa, favorece a apicultura, a criação de animais de pequeno e médio porte, como cabras, ovelhas e outros adaptados ao clima semiárido.
O povo da Caatinga provém de matrizes étnicas indígena e branca. Existem inúmeras comunidades tradicionais e mais de 30 nações indígenas nessa convivência do clima semiárido com a vegetação da Caatinga.
O clima seco, o sol abundante, há tanto tempo tratados como problemas, hoje são percebidos como poderosos potenciais para a geração de energia solar e para o cultivo de frutas específicas. A partir das últimas décadas, foram estabelecidas políticas de convivência com o semiárido brasileiro, como: captação da água de chuva para beber e produzir, uma agroecologia adaptada, aproveitamento inteligente da energia solar, dos ventos e de outros potenciais da região. Também se expandiu uma rede de infraestrutura social fundamental, como energia elétrica, adutoras, telefonia, internet, melhoria nas habitações, o que trouxe milhões de brasileiros caatingueiros para uma vida mais digna.
Cerrado
Constituído por solo de composição arenosa, o Cerrado apresenta uma vegetação típica de locais com estações climáticas bem definidas, uma época bem chuvosa e outra seca. A sua área contínua incide sobre os estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo e Distrito Federal, além dos encraves (terrenos encravas em outros) no Amapá, Roraima e Amazonas.
Por muito tempo foi considerado inadequado para a agricultura, permanecendo como área aberta para o gado. As árvores com galhos tortuosos e de pequeno porte são as principais características do Cerrado; as raízes desses arbustos são profundas (propriedade para a busca de água em regiões profundas do solo, em épocas de seca). Do ponto de vista da diversidade biológica, o Cerrado brasileiro é reconhecido como a savana mais rica do mundo, abrigando 11.627 espécies de plantas nativas já catalogadas. Cerca de 199 espécies de mamíferos são conhecidas, e a rica avifauna compreende cerca de 837 espécies. Os números de peixes (1.200 espécies), répteis (180) e anfíbios (150) são elevados. Contudo, das 427 espécies listadas em risco de extinção, 132 estão nesse bioma.
O Cerrado cumpre um papel fundamental no ciclo das águas brasileiras. Embora não “produza” água, acumula as águas das chuvas em seu subsolo poroso, formando grandes aquíferos que abastecem inúmeras bacias brasileiras. Nesse caso específico, os biomas Amazônia e Cerrado formam uma complementação perfeita para a produção e distribuição da água para o Brasil e parte da América do Sul.
Grande parte das águas tem sua origem na Amazônia, sendo recebidas e acumuladas no Cerrado, que funciona como uma grande “caixa-d’água”. O Rio São Francisco recebe as águas, quase em sua totalidade, do Cerrado, e as distribui em outras regiões.
Além dos aspectos ambientais, o Cerrado tem grande importância social. Muitas populações sobrevivem de seus recursos naturais, incluindo etnias indígenas, ribeirinhos, comunidades quilombolas, que, juntas, fazem parte do patrimônio histórico e cultural brasileiro, e detêm um conhecimento tradicional de sua biodiversidade. A eles se deve a preservação do que ainda resta do chamado “Cerrado em pé” (área não destruída).
Muitas áreas do Cerrado, que são fundamentais para a conservação da biodiversidade e dos recursos hídricos, têm sido palco de disputas entre o agronegócio e os povos originários e comunidades tradicionais que habitam secularmente esse bioma. De acordo com dados do Ministério do Meio Ambiente (MMA), tais áreas estão sendo ocupadas e exploradas de forma desordenada pelo agronegócio.
Pantanal
De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, o bioma Pantanal é considerado uma das maiores extensões úmidas contínuas do planeta, embora seja o bioma de menor extensão territorial no Brasil. Situado dentro da Bacia do Alto Paraguai, o bioma Pantanal é considerado como Reserva Biosfera e Patrimônio Natural Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Seu território envolve três países, sendo 70% dessa planície no território brasileiro nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, 20% na Bolívia e os outros 10% no Paraguai.
O ecossistema mantém boa parte da sua cobertura vegetal nativa, responsável pela permanência de espécies que, em outros biomas, já se mostram em extinção. São cerca de 3,5 mil espécies de plantas, 124 de mamíferos, 463 de aves e 325 de peixes. Vale lembrar que o Pantanal é uma das áreas mais importantes para aves aquáticas e espécies migratórias, como abrigo, fonte de alimentação e reprodução.
O Pantanal é uma grande área continental inundável e, a cada ano, grandes regiões dele mudam de habitats aquáticos para terrestres e vice-versa. As cheias ocupam cerca de 80% do Pantanal. Em contraste, durante a estiagem, grande parte da área inundada seca, quando a água retorna para o leito dos rios ou evapora.
As principais atividades econômicas desenvolvidas na planície pantaneira são a pecuária, a pesca, o turismo, a extração de minérios e a agricultura, especialmente de cana-de-açúcar e soja. A mineração e, mais recentemente, a siderurgia, são atividades em plena expansão na bacia do Alto Rio Paraguai. São explorados o ferro, o manganês e o calcário na parte sul e o ouro na parte norte.
Povos indígenas de várias etnias vivem nesse território. Somente em Mato Grosso do Sul, 1,5 milhão de indígenas habitavam a região: Guarani, Guató, Kaiapó, dentre outros. O homem pantaneiro traz consigo elementos culturais do bandeirante português, do sertanista paulista e dos índios, de quem recebeu habilidades e o conhecimento da natureza. A miscigenação provocada pelo processo de ocupação mais recente resultou em uma cultura que abriga características das diversas etnias indígenas, populações ribeirinhas, populações originárias de outros estados brasileiros e países vizinhos, principalmente Bolívia e Paraguai. Apesar de sua beleza natural exuberante, o bioma vem sendo muito impactado pela ação humana, principalmente pela atividade agropecuária.
Pampa
Os Campos da Região Sul do Brasil são denominados Pampa, termo de origem indígena para região plana, entretanto, esta denominação corresponde somente a um dos tipos de campos encontrados. A característica principal desse bioma é a sua vegetação, que apresenta uma composição herbácea, ou seja, formada basicamente por gramíneas e espécies vegetais de pequeno porte, pastagens naturais, favorecendo assim o desenvolvimento extensivo da pecuária.
O bioma Pampa ocupa 2,07% do território nacional e se restringe ao estado do Rio Grande do Sul, ocupando 63% do território daquele estado. Entretanto, estende-se aos países vizinhos, Argentina e Uruguai. Exibe um imenso patrimônio cultural associado à biodiversidade, suas paisagens naturais se caracterizam pelo predomínio dos campos nativos, mas há também a presença de matas ciliares, matas de encosta, banhados, coxilhas etc.
O bioma apresenta flora e fauna próprias e grande biodiversidade. As estimativas indicam valores em torno de 3 mil espécies de plantas. A fauna é expressiva, com quase 500 espécies de aves e mais de 100 de mamíferos terrestres.
É no bioma Pampa que se localiza grande parte do Aquífero Guarani, uma reserva estratégica de água doce não só para o Rio Grande do Sul, mas para todo o Brasil e toda a América Latina, que é fundamental na manutenção de toda a biodiversidade, além da Bacia Costeira Sul e da Bacia do Rio da Prata.
Desde a colonização ibérica, a pecuária extensiva sobre os campos nativos tem sido a principal atividade econômica da região. Além de proporcionar resultados econômicos importantes, tem permitido a conservação dos campos e ensejado o desenvolvimento de uma cultura mestiça singular, de caráter transnacional representada pela figura do gaúcho. Apesar de ser uma região latifundiária, há muitas famílias de pequenos agricultores, quilombolas e indígenas de várias etnias.
A progressiva introdução e expansão das monoculturas e de pastagens com espécies exóticas tom levado a uma rápida degradação e descaracterização das paisagens naturais do bioma Pampa. Como também o plantio extensivo de pínus e eucaliptos, além de alterar os recursos hídricos e a cultura, interferem no regime dos ventos e de evaporação, causando impactos significativos no clima do bioma. Outras preocupações que constituem ameaças ao bioma são a ampliação da área de soja, trigo e arroz e a cultura da mamona para a elaboração de biocombustível.
Referências
•    Fraternidade. Biomas brasileiros e defesa da vida. Texto-Base. Campanha da Fraternidade 2017. Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Brasília (DF): Edições CNBB, 2016, pp. 13-16.23-71.
•    Biomas brasileiros. Ministério do Meio Ambiente. Acesso em 30/11/2016.
•    Carta de Pero Vaz de Caminha ao Rei de Portugal, 1500. Fundação Biblioteca Nacional: Acesso em 23/11/2016.
Mãos à obra:
•    Em forma de projetos ou de atividade interdisciplinar, estudar cada bioma ressaltando as suas riquezas, desafios e problemas, considerando as características do bioma (flora, fauna etc.), os povos ou populações que habitam a região e a importância do bioma para o Brasil e o mundo.

Fonte: Diálogo n 85 Jan/Mar 2017
Postado por: Diálogo




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