A quadrilha

Data de publicação: 14/06/2019

Por, Eduardo D’Amorim *

No Brasil, temos vários ciclos artísticos-culturais, com manifestações características, em que as contribuições indígenas, africanas e europeias se entrelaçam e se evidenciam. Temos mais evidentes os ciclos natalino, carnavalesco, junino, com manifestações distintas e ricas, cada uma com sua história, densidade e localização. Na realidade, em cada ciclo há uma manifestação carro-chefe, como o pastoril, no Natal; o samba e o frevo, no carnaval; e a quadrilha, no período junino. Não devemos esquecer que há outras manifestações culturais mais localizadas, de uma riqueza deslumbrante bem como o bumba meu boi ou boi-bumbá (dança do folclore popular brasileiro, típica do Norte e Nordeste, que gira em torno de uma lenda sobre a morte e ressurreição de um boi); a Nau Catrineta (um dos mais célebres e míticos dos romances marítimos do cancioneiro lusitano, oriundo da segunda metade do século 16); os Guerreiros de Alagoas (uma fusão de manifestações folclóricas como o reisado e os caboclinhos, e com influência de outros folguedos, surgidos no fim da década de 1920, em Alagoas).
Cada uma dessas manifestações tem sua própria história, com sua coreografia, seus personagens, normalmente nascidos de movimentos de resistência de uma comunidade locada e datada. Como em geral nos colégios confessionais, notadamente no Nordeste, o universo servido não é só de católicos, tendo a presença de evangélicos de várias denominações, por exemplo, sugerimos que a festa junina seja apresentada como uma manifestação folclórica, retirando-se dela inclusive o nome de festa de São João, e sim denominando-a de festa junina. É um respeito concreto ao diferente, também aos nossos educandos. E, como as danças devem atingir todos os educandos, em sua formação social, comunitária e sinestésica corporal, esta mudança é fundamental. A quadrilha do ciclo junino é também uma ocasião de estudo para uma comunidade escolar, dentro e fora do Nordeste, como veremos.
Origem da quadrilha
Segundo os pesquisadores, a quadrilha, de origem francesa, precisamente da região da Normandia, espalhou-se pelos salões da Europa. As pessoas dançavam, como hoje, aos pares, separadas, tocando-se as mãos e nos quadris, em momentos e movimentos determinados pela música, com muita delicadeza, gestos fidalgos e passos oriundos da valsa, mas normalmente ao som da polca.
Quando a Família Real portuguesa se mudou para o Brasil, fugindo do inimigo Napoleão Bonaparte, trouxe a quadrilha, que foi dançada nos salões brasileiros, seja pelos nobres, seja pelos fidalgos que, em geral, compravam, a peso de ouro, essa condição. Bem perto dali, a senzala via e ouvia a festa nos salões da casa-grande. E trouxeram para o terreiro a festança, com outra música, normalmente untada de batuque do Tam Tam africano. E a alegria reinava. As vestes eram uma imitação pobre das saias das sinhás. Colocavam tranças postiças sobre seus cabelos muito crespos e, em geral, curtos. Maquiavam-se com tintas da terra, em geral o tucum, de cor amarela ou vermelha. E faziam sobre as faces, assim maquiadas, as sardas das mulheres da sociedade branca, muitas vezes também artificiais. Com o tempo, houve uma evolução das danças dos salões, com outros ritmos, outros passos.
E, num dado momento, as festas dos salões perderam seu brilho, logicamente a alegria. E esta sociedade, agora quase nostálgica, começou a olhar e admirar a festa junina que crescia nos terreiros. Admiravam, sobretudo, o ritmo e a alegria reinante nesses espaços. E levaram para o salão novamente a manifestação junina, agora transmutada, imitando o povo pobre e, em geral, negro ou já mestiço. Calças rasgadas, camisas de cores fortes e remendadas. Sardas no rosto, acentuadas. Mais, desconstrução do corpo, imitando agora o homem do campo, o matuto ou caipira, no seu andar característico, seu jeito tímido, seus dentes estragados. E chapéu de palha, desfiados. Uma certa caricatura do povo do terreiro, do pobre. Acentuaram as histórias, criando o senhor de engenho, o matuto que embarrigava a moça ingênua e era obrigado a casar, o padre dominado pelo poder e outras figuras, todas caricatas.
A quadrilha nos colégios
Foi esta quadrilha dita tradicional que os colégios trouxeram para sua festa junina. E, inconscientemente, denegriam a figura do homem do interior, tripudiando sobre eles mesmos, sobretudo nas escolas que recebiam pessoas da periferia. Na realidade, uma aberração consentida e aplaudida como manifestação folclórica. E essa manifestação de resistência de um povo foi perdendo sua força, enveredando para um escárnio cometido pelo próprio povo.
Em alguns estados do Nordeste, notadamente Pernambuco, Paraíba e Ceará, começou a haver uma reação do próprio povo. E começaram a embelezar os figurinos, recriando as coreografias, reinventando as histórias desenvolvidas na apresentação. A quadrilha hoje ficou linda, cada dia mais linda. É verdade que alguns puristas criticaram essa evolução, esquecendo-se de que o responsável pela criação folclórica é o povo, que no caso se sentia ridicularizado, caricaturado, denegrido.
Algumas escolas, sobretudo particulares ricas ou remediadas, mesmo no Nordeste, continuaram com a macaqueação, por ignorar os passos históricos pelos quais passou a quadrilha. As quadrilhas nascidas no Nordeste são dançadas ao som de músicas típicas do ciclo, normalmente o xote, o xaxado, o baião, cujo compositor maior é, sem dúvida, o pernambucano Luiz Gonzaga (1912-1989). Infelizmente, as Unidades Escolares de Estados sem tradição junina usam músicas completamente fora do contexto, muitas vezes até impróprias para a idade dos participantes. No início de nosso trabalho de renovação, numa renomada escola particular, encontrei uma festa junina bem organizada, mas dançada ao som de músicas fora do contexto, tendo um repertório esdrúxulo em que ouvi até a cantora Lady Gaga. Cabe aos educadores, notadamente das escolas confessionais, estudarem e promoverem as modificações necessárias e imperiosas, diante dos valores de respeito, sensibilidade ao diferente, conscientização das manifestações de resistência disseminadas no meio educacional onde vivem.

* Eduardo D'Amorim
Sociólogo, educador, autor de vários livros e vencedor do Prêmio Jabuti 2017, na categoria Didático e Paradidático, com o livro África e Brasil – História e Cultura, publicado pela Editora FTD.

Mãos à obra
Sugestão: Utilize os CDs, abaixo relacionados, onde o poeta, compositor e professor, João Collares proporciona subsídios agradáveis e construtivos a crianças e professores.
 
1)    Festança no Arraiá – Vol. 1 – João Collares. Paulinas-Comep.
Código: 12266-1
Coleção: Aprendendo através da Música
•    Sugerimos a música da faixa nº 5 - A Quadrilha Cantada. Essa música pode ser coreografada com muita alegria, por qualquer turma.
 
2)    Festança no Arraiá – Vol. 2 – João Collares. Paulinas-Comep.
Código: 11957-1   
     Coleção: Aprendendo através da Música
•    Sugerimos a faixa nº 2 - Tradição Junina. Ouça a música com os alunos e sugira uma pesquisa sobre a tradição junina:
-  Onde teve início a festa junina?
-  Por que essa tradição folclórica é protagonizada por personagens caipiras?
 Através do site https://www.paulinas.org.br/loja/, compre os CDs e receba-os em sua casa.

Fonte: Diálogo n 90 Abril/Jun 2018
Postado por: Diálogo




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